sábado, 15 de agosto de 2026

Amae Educando: uma revista que marcou a educação brasileira


Ah, a rua Pernambuco! Número 47. Bairro Funcionários. Um endereço em Belo Horizonte que não é apenas um endereço, meu caro leitor. É uma fábrica de milagres.

Se aquele casarão falasse, não falaria. Cantaria. Primeiro foi Ginásio Mineiro. Depois vestiu a toga do Tribunal de Relação. Abriu portas para a lendária professora e escultora belga Jeanne Louise Milde. E viu nascer, entre giz, sonhos e a poeira luminosa das tardes de BH, o curso de Administração Escolar do velho Instituto de Educação de Minas Gerais — o nosso imortal IEMG!

Pois bem. Acontece que no ano em que nasci, o lendário ano de 1967, época em que o mundo parecia girar mais rápido que o Sputnik na imensidão azul do céu, um grupo de alunas decidiu cometer uma loucura. Uma doce e perigosa loucura chamada revista Amae Educando.

Veja você: sem dólares no bolso, sem redes sociais, sem algoritmo. Apenas com a cara, a coragem e a fé inabalável no poder transformador da educação. Era o nascimento da Associação Mineira de Administração Escolar.

A revista se tornou única. Foi, para muitas professoras, a Bíblia que introduzia as mais modernas novidades pedagógicas. A academia, em um dos seus grandes momentos de inovação, conseguiu construir uma ponte sólida entre o que se discutia nos cursos de magistério e pedagogia e o "chão" da escola. Não como uma mestra tradicional que declama o livro decorado para a sua aluna passiva, mas em uma relação horizontal e dialógica, em que a universidade traz teorias e apresenta análises, enquanto a escola mostra na prática o que é inovar e como se pode traduzir o "academês" para o dia a dia de professoras e alunos. Consolidou-se, assim, como um importante espaço de debate, repositório de informações e formação continuada de professores da educação básica.

Em um curto espaço de tempo, a revista alcançou circulação nacional e tornou-se um marco para os profissionais da área técnica e docente. Pelo seu papel fundamental no desenvolvimento da educação mineira e nacional, a Fundação AMAE chegou a receber homenagens oficiais de órgãos públicos, como a Câmara Municipal de Belo Horizonte, ao comemorar suas marcas históricas de publicação.

Anos passaram. Veio a inflação, vieram as crises econômicas, trocaram os governos, mudou o século. O cruzeiro virou cruzado, que virou real, e a revista ali: firme na peleja! Atravessando o Brasil de ponta a ponta, entrando na sala de aula do professor como quem pede licença para acender uma vela no escuro. Promovendo congressos, oficinas, jornais, encontros de almas pedagógicas. Mais de quarenta anos de circulação nacional ininterrupta! A revista era mais resistente que a defesa da seleção canarinho de 1970.

Em 2017, a cinquentona Amae Educando celebrou suas bodas de ouro. O tempo passou, a UEMG herdou o trono, mas nas páginas amareladas daquela edição número 83 ainda dá para ouvir o sussurro visionário das alunas de 1967.

Hoje, como muitas revistas brasileiras importantes, ela não circula mais. Quem sabe alguém poderia recriá-la em uma versão interativa na internet? Eu sei que as coisas mudam de nome e de forma. Mas certas paixões — ah, essas não envelhecem jamais!


Ao IEMG Centenário (1906-2006), de Quitéria Oliveira



Nas primeiras páginas de um dos últimos números publicados da Revista Pedagógica do IEMG, veiculamos o poema de Quitéria Oliveira intitulado "Ao IEMG Centenário". A primeira vez que vi esses versos foi em um banner exposto em frente ao teatro principal da instituição — se a memória não me falha, por ocasião de um projeto de leitura e escrita no qual os alunos lançavam seus próprios livros.

O poema — reproduzido ao final deste texto — articula uma oposição semântica fundamental entre a eternidade/permanência e a transitoriedade/decadência. Assim, o texto constrói a imagem do IEMG não apenas como um monumento arquitetônico centenário, mas como um mecanismo vivo de memória, maternidade social e resistência do saber diante da efemeridade do tempo.

A ideia de permanência remete à vida, à memória e à tradição, sendo representada pela preservação da instituição, pela esperança, pelo saber e pelo impacto geracional ("eterniza-te", "futuro", "energia de muitas vidas"). Já a transitoriedade — termo associado aos conceitos de morte, esquecimento e desgaste — expressa-se pela ação do tempo, pelo envelhecimento físico do prédio e pelo desbotar das estruturas ("tempo imperioso", "fraqueza e o desgaste que a idade no seu ciclo se impõe"). Logo, a tensão poética surge do desejo de suspender a entropia do tempo humano por meio da imortalidade da instituição educacional.

A autora fala a partir de uma posição dupla e privilegiada: a de especialista e supervisora (autoridade pedagógica) e a de sujeito apaixonado (pertencimento e devoção). A recorrência da interjeição "Oh!" ("Oh! Baluarte", "Oh! Casa Rosada", "Oh! Majestoso Instituto") marca a dimensão afetiva do discurso, aproximando o poema de um hino de louvor ou de uma oração laica. Além disso, a estrofe que menciona a travessia "entre o conto de fadas e o pranto" traduz a jornada educacional como uma experiência humana complexa, oscilando entre o idealismo romântico e as dificuldades reais do cotidiano escolar.

No nível discursivo, Quitéria Oliveira utiliza figuras e metáforas concretas para materializar conceitos abstratos de educação, afeto e história. A "Casa Rosada da Educação" atua tanto como ícone visual — o prédio histórico identificado por sua cor marcante e arquitetura imponente — quanto como símbolo de resistência, no qual o termo "Baluarte" eleva a estrutura física à condição de fortaleza moral e cultural que resiste às intempéries do tempo.

O IEMG é representado ainda como uma figura maternal, símbolo de acolhimento e equidade. Ao afirmar que o instituto, "como uma mãe, abraças os teus filhos, todos... sem sobrepujar nenhum", estabelece-se um signo de universalidade e inclusão democrática no ensino público: a escola deixa de ser mero espaço funcional para se tornar matriz geradora de cidadãos.

Por fim, o texto antropomorfiza o prédio secular ("como um ancião, não menoscabem a fraqueza e o desgaste"). A semiótica do envelhecimento traz o duplo sentido da sabedoria acumulada em contraposição à vulnerabilidade da infraestrutura física, gerando um apelo ético de cuidado e preservação. Ao recorrer a signos de nobreza e soberania ("Majestoso", "cetro"), o poema reafirma a liderança histórica do IEMG na formação docente e na educação mineira.




Ao IEMG Centenário (1906-2006)

 

Quitéria Oliveira

Especialista em educação e supervisora do ensino fundamental do Instituto de Educação de Minas Gerais, turno manhã

 

 

 

Oh! Baluarte Casa Rosada,

Que o tempo imperioso,

não dissipe os teus encantos.

Fostes apoio e conforto nas jornadas,

acalento para os que trilharam tua juventude,

esperança para os que trilham tua plenitude.

 

És o sonho...

Sonho dourado!

Dos que ouvem ressoar o teu nome,

Mesmo nos longíquos rincões,

és a certeza,

de um futuro que vislumbra

uma manhã vitoriosa.

 

Como uma mãe, abraças

os teus filhos,

todos... sem sobrepujar nenhum.

 

Oh! Casa Rosada,

eterniza-te, para que sonhos,

sejam sonhados sempre.

 

Aos filhos teus, deixas

uma mensagem

de otimismo e bravura,

como um ancião, não menoscabem,

a fraqueza e o desgaste que

a idade no seu ciclo se impõe.

 

Oh! Casa Rosada

tens a energia de muitas vidas,

que passaram e admiraram

os teus encantos

com a mesma esperança e fantasia,

entre o conto de fadas e o pranto.

 

Oh! Majestoso Instituto,

não perca jamais o teu cetro

és o maior encanto e beleza.

Que sejas na altivez do bom exemplo,

fazendo dos teus filhos, todos...

Cidadãos verdadeiros... guardiões do tempo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Dia em que Quase Fizemos a Revolução das Artes na Afonso Pena (texto de Ronaldo Campos)


 De tempos em tempos, eu me pego navegando pelas minhas "escrevivências". Esse meu blog com nome comprido, filosófico, quase um tratado pedagógico: De aprender, (des)aprender e (re)aprender. Mas o tempo, esse grande editor da vida, encurtou o título para o que ele realmente sempre foi: Blog do professor Ronaldo Campos.

Afinal, a gente muda o rótulo, mas o caderno de memórias continua pulsando. E hoje me veio à cabeça um daqueles episódios em que a vida resolveu imitar o teatro do absurdo.

Aconteceu nos anos dourados do UniBH, quando eu lecionava no Curso Normal Superior — meu verdadeiro xodó. Eu tinha no peito aquele ufanismo bonito dos pioneiros da educação. Olhava para as minhas alunas e enxergava nelas o mesmo DNA de Carvalho de Britto e João Pinheiro, os idealizadores da Escola Normal Modelo. Eu não queria dar aulas entre quatro paredes. O mundo era a minha sala.

Belo Horizonte vivia o primeiro mandato do governador Aécio Neves. E eu, em minhas peregrinações diárias rumo ao campus, passava em frente ao Palácio das Artes e namorava os cartazes. Vi na Grande Galeria o anúncio de uma exposição extraordinária. O coração de professor disparou: "Tá aí. É essa a minha aula!".

Passei uma semana inteira noites a fio desenhando o projeto. Levei para a coordenação. As saudosas professoras Geralda e Consolação — duas almas generosas — deram o carimbo de aprovação. As alunas vibraram. Marquei a aula secreta e gloriosa para uma segunda-feira à tarde, na porta da Fundação Clóvis Salgado.

O que eu não sabia — ah, a inocência dos homens apaixonados pela arte! — é que o destino já tinha armado sua teia na edição do MGTV daquela semana. O governador decidira fechar o Palácio das Artes para reformas e preparativos do Fórum das Américas. Tudo suspenso. Tudo trancado a sete chaves. A única exceção no prédio inteiro era a temporada comemorativa do Grupo Corpo no Grande Teatro. Mas quem assiste televisão quando se está planejando mudar o mundo com a educação?

Na hora marcada, a Afonso Pena parecia um formigueiro. Uma a uma, chegaram mais de quarenta alunas, compenetradas, cadernos em riste. Éramos uma verdadeira tropa da cultura.

Entramos no saguão com passos firmes de quem vai tomar a Bastilha. Marchamos direto para a Grande Galeria. E foi aí que o paredão da realidade nos parou na figura do segurança do Palácio.

— Pois não, professor. A exposição acabou.

— Como acabou? Eu agendei! Ninguém me avisou!

Iniciei uma peleja verbal digna de um clássico no Mineirão. E, veja você a força de Belo Horizonte: quanto mais eu argumentava, mais a calçada parava. O povo que passava de ônibus, de táxi, a pé, começou a se aglomerar atrás da nossa turma. Em dois minutos, formou-se uma multidão no saguão.

O problema é que os mineiros não queriam a minha exposição de arte contemporânea. Olharam para aquele mar de gente, viram o movimento e pensaram: "É fila de ingresso extra para o Grupo Corpo!".

O caos estava instalado. O povo gritando por ingressos para o dança, eu gritando pela minha exposição de artes visuais, as alunas sem entender nada e o segurança desesperado.

De repente, a cena ganha contornos de cinema de espionagem: surge a Polícia Militar.

— Circulando, circulando! Isso aqui é incitação ao tumulto! Estão querendo fazer uma rebelião contra o Governo do Estado!

Fomos desrespeitados. Expulsos com a glória dos incompreendidos. Não houve exposição, não houve Grupo Corpo, não houve diplomacia cultural.

Sem ter como dar a aula e com o orgulho levemente ferido, a minha tropa de futuras professoras tomou uma decisão épica: ir embora a pé. Afinal, da Afonso Pena até a Lagoinha, para o povo de Minas, é um pulinho só.

Caminhamos a passos largos pela avenida. No meio do trajeto, o olhar atento das alunas fisgou um portal para o paraíso consumista: no meio da Praça Sete, bem pertinho do Cine Brasil e do lado da primeira agência do Banco do Brasil, uma loja gigante com a placa Feira Shopping e dezenas de cartazes de promoção. Roupas da moda a preço de banana.

As quarenta e poucas alunas invadiram a loja com a mesma fúria com que tentamos invadir a galeria. Em menos de cinco minutos, a rua parou de novo. A população, vendo aquele mar de mulheres saindo com sacolas, achou que a loja estava dando mercadoria de graça. Formou-se uma nova multidão na porta.

E foi assim, entre uma suspeita de rebelião estatal na Fundação Clóvis Salgado e um tumulto de compras na Afonso Pena, que a nossa aula na galeria de arte terminou sem nunca ter acontecido.

Histórias de professor: o Maracanã das amarguras e o coreto da glória

 


Perder é uma arte dolorosa, mas perder jogos esportivos em uma gincana de escola é tragédia grega com uniforme de educação física.

Ninguém entende a dor de um professor de História até que ele se veja no comando da delegação de Curitiba — a turma mais famigerada, falada e derrotada do colégio nos jogos esportivos de 2024.

A culpa, veja você, era toda da expectativa. Tínhamos na sala o Garrincha do bairro, o Pelé da Savassi, um garoto prodígio que já tinha passado na peneira do Cruzeiro e dado entrevista na televisão. O rapaz não andava, flutuava. A turma já cantava vitória antes do apito inicial. Mas aí veio a burocracia do destino: "E se o garoto machuca o joelho precioso no parquet do ginásio?". O craque não jogou. Ficou no banco das ilusões, de banho tomado e chuteira sem lama.

Resultado? A tragédia do Paraná.

Perdemos no futebol. Perdemos no vôlei. Fomos massacrados no basquete. Eu não podia caminhar pelos corredores em paz. Bastava eu pisar na sala do Espírito Santo para os meninos levantarem a bandeira capixaba na minha cara, lembrando o massacre do futebol. Passava pela porta da Bahia e vinha o riso debochado por causa do vôlei. O Paraná devia a vida, a honra e a tabela de classificação.

Restavam ainda alguma esperança. Quem sabe nas provas de conhecimento... na tarefa relâmpago ou na tarefa gastronômica... O primeiro passo para reverter a onda de insucesso era uma única foto.

Se a turma inteira aparecesse na foto oficial no coreto da Praça da Liberdade, devidamente uniformizada, os pontos da tarefa entrariam na conta e salvariam Curitiba do rebaixamento moral.

Na quarta-feira à tarde, o milagre da assiduidade aconteceu. O bilhete aos pais surtiu efeito. Ninguém faltou. Éramos um exército de camisetas idênticas, estampadas com a Gralha Azul e as cores do Paraná, marchando a pé do prédio da escola rumo à praça.

Chegamos ao coreto com a solenidade de quem vai assinar um tratado de paz. E foi aí que o destino tropeçou na nossa comédia.

Um guarda municipal, com o garbo das autoridades atentas, se aproximou. Olhou para as nossas camisas reluzentes, olhou para a grande bandeira verde e branca aberta nas escadarias do coreto, olhou para a minha cara de professor compenetrado e decretou, comovido:

— Pode deixar, professor! Sejam muito bem-vindos a Belo Horizonte. Aqui a segurança é garantida para o turismo pedagógico do nosso país!

Ele achou que é tínhamos vindo de ônibus direto de Curitiba.

Eu, que trazia na alma as feridas do futebol e do basquete, não desmenti. A turma engoliu o riso e assumiu a postura do orgulho paranaense. O guarda municipal virou nosso embaixador. Postou-se em guarda de honra, afastou os curiosos e fez questão de ser ele mesmo o fotógrafo oficial da nossa delegação fictícia.

As pessoas passavam. Os ônibus reduziam a marcha na Avenida João Pinheiro. Passageiros debruçavam nas janelas para acenar para os "estudantes do Sul". E nós, rindo por dentro da maior farsa geopolítica da história da escola, posei-mos como campeões nobres e misteriosos.

Não ganhamos na quadra. O craque da TV não deu um chute a gol. Mas naquele enquadramento perfeito, debaixo do rendilhado de ferro do coreto da Praça da Liberdade, a turma de Curitiba foi, por cinco minutos inesquecíveis, a dona do mundo.

Se a foto valeu os pontos na gincana? Pouco importava. Naquela tarde, Belo Horizonte inteira aplaudiu a nossa derrota.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Alphonsus de Guimaraens - pequenas notas biográficas

 


Afonso Henrique da Costa Guimaraens (1870–1921), que adotou o nome literário latim-afrancesado Alphonsus de Guimaraens, viveu uma existência marcada por um curioso contraste. Nascido em Ouro Preto, pertencia a uma proeminente família de intelectuais. Era sobrinho do célebre romancista Bernardo Guimarães (autor de A Escrava Isaura) e irmão de outros destacados homens de letras, como o dr. Archanjo Guimaraens e o dr. Arthur Guimaraens.

Exerceu por mais de 20 anos o cargo de Juiz Municipal de Mariana (MG). Longe do recesso puramente boêmio, era um servidor da justiça compenetrado e pai de uma numerosa família — deixou viúva (D. Zenaide de Oliveira) e 14 filhos, quase todos menores de idade, na mais dolorosa orfandade. Integrante da Academia Mineira de Letras, seu nome era constantemente lembrado e aclamado para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Apesar das atribuições cotidianas e das dificuldades financeiras, viveu "eternamente encastellado num sonho azul". As tragédias de sua vida — como a perda precoce de sua noiva e primeira musa, Constança (filha de seu tio Bernardo Guimarães) — não o tornaram amargurado; ao contrário, a dor funcionou para ele como um "crysol" (crisol), uma força purificadora de onde emanavam a extrema bondade e o devocionalismo místico de sua poesia.

Alphonsus cultivava uma escola literária "combatida por muitos": o Simbolismo. Num Brasil ainda muito apegado ao Parnasianismo rigoroso e descritivo, Alphonsus ergueu-se, ao lado de Cruz e Sousa, como a figura máxima da poesia simbolista nacional. Sua poesia é célebre pela espontaneidade, pela musicalidade envolvente e pela profundidade espiritual. A nota fúnebre o compara diretamente a Paul Verlaine (autor de Sagesse), ressaltando seu lirismo suave e melancólico.

Os grandes pilares de sua bibliografia podem ser assim destacados:

  • Poesia Mística e Elegíaca: Obras-primas como Dona Mystica, Septenario das Dores de N. Senhora, Câmara Ardente e Kiriale.

  • Obras Póstumas e Prosa: Deixou prontos para publicação livros como Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte e o volume de contos Mendigos.

domingo, 9 de agosto de 2026

um passeio no Museu de Artes e Ofícios (Belo Horizonte - MG)

Tenho um amigo professor que resolveu, num rasgo de coragem digno de nota na imprensa local, levar a garotada do sexto ano de uma escola pública ao Museu de Artes e Ofícios. Não era uma sala comum de alunos comportados. Era uma sala que adorava provocar. Eram considerados o terror dos professores, principalmente, dos professores novatos ou aqueles que estão começando a sua carreira no magistério. O leitor há de concordar: para a maioria dos nossos jovens, museu ainda é aquele lugar misterioso onde os adultos guardam poeira e cobram ingresso. Se o sujeito mora longe do centro ou se o contracheque do pai não é exatamente uma apólice do Banco Central, a arte vira um mistério tão distante quanto as praias de Cancún. Aí entra a teoria. O homem me aparece com os compêndios debaixo do braço falando em "espaço educativo de aprendizagem não formal" e me cita, sem piscar os olhos, os doutos Falk e Storksdieck. Pelo que entendi da conversa, esses dois sujeitos catalogaram nada menos que 11 fatores para explicar por que alguém aprende algo dentro de um museu. Vai do interesse prévio do indivíduo até a arquitetura do prédio, passando pela boa vontade das legendas. Uma coordenação de tráfego mental que faria inveja ao Departamento de Trânsito. O plano, vejam vocês, era perfeito. Unir a sociologia, a filosofia, a história e a geografia para explicar a tal práxis humana e o tema transversal do "Trabalho e Consumo". Afinal, o museu tá cheio de enxadas, prensas, martelos e teares que contam os últimos três séculos da nossa lida diária. A operação, no entanto, exigiu logística de guerra. Primeiro, a preparação na sala de aula: — Meninos, nada de coxinha perto dos quadros, nada de guaraná nas engrenagens do século XVIII e, pelo amor de Deus, desliguem o flash das máquinas se não o guarda da portaria infarta. Dividiram a turma em subgrupos, porque colocar cinquenta adolescentes de uma vez num corredor cheio de antiguidades é pedir para transformar patrimônio histórico em sucinta lembrança. Cada bando seguiu seu monitor pelas "trilhas" do museu, numa romaria de uma hora e meia entre teares e ferramentas de carpintaria. Enquanto um grupo via o Brasil do trabalho braçal no piso de baixo, o outro especulava no piso de cima. No fim das contas, a bagunça organizada deu certo. A turma insubordinada ficou encantada com algo novo. Ficou feliz em ter uma aula fora da escola e descobriu que pode aprender de uma forma diferente. No museu que guarda a história do trabalho e das profissões, os meninos viram de perto a chave de fenda que o avô usava, o ferro de passar a carvão e entenderam que cidadania não é só decorar data de batalha em livro didático. De volta à sala de aula, no terceiro ato da epopeia, sentaram para debater o que viram. Se a escola moderno queria criar sujeitos críticos e autônomos, não sei. Mas que aquela turma voltou para o ônibus sabendo que a história da gente não é feita só por reis de estátua, mas por quem pegava no pesado — ah, isso voltou.


Texto da Revista Pedagógica do Instituto de Educação de Minas Gerais
Ano 2 \ Número 2\ maio 2013 \ Belo Horizonte – MG


Uma história de muitas histórias:
A presença feminina nas artes e na educação em Belo Horizonte


Texto e Pesquisa: Ronaldo Campos

Introdução


Nós somos finitos e marcados pela temporalidade. Sofremos uma espécie de condenação imposta pelo tempo que “como um inseto perseverante devora mecânica e inexoravelmente toda vida, realizando assim sua obra de decomposição” (CANDAU, 2011, p. 15) O que nos permite parar (ou pelo menos diminuir) as ações e os efeitos do fluxo do tempo sobre nós é a memória. Graças a ela o passado não está definitivamente inacessível ou perdido, porque é possível revivê-lo através da rememoração do que se passou. A memória atua sobre o tempo. Permitindo atribuir um novo significado ao sentido existencial, atualizando os conteúdos experimentados. A memória costura, tece o passado no presente, compondo tramas e enlaçando-se em novas possibilidades existenciais.
Não nos lembramos das memórias que não têm significado para nós. Pois, de acordo com Candau (2011), a memória ao mesmo tempo em que nos modela, é também modelada por nós. Memória e identidade se relacionam dialeticamente. Ambas se apoiam uma na outra com o intuito de gerar uma trajetória de vida, uma história, um mito ou uma narrativa. É um trabalho de reapropriação e negociação para que o nosso passado não se perca no esquecimento. Sem as lembranças e destituído da memória, o sujeito é aniquilado. Busca-se combater o medo do esquecimento a partir de estratégias de rememoração pública e privada. As biografias enquadram-se como uma delas.
O gênero biográfico é uma forma importante dentro dos estudos históricos. Pesquisar a vida de um determinado indivíduo abre um campo de possibilidades para se compreender a época em que essa pessoa viveu. Através da biografia é possível entender que todos nós nos organizamos em grupos que partilham certa sensibilidade diante das questões da época em que vivemos e da sociedade em que nos inserimos, por meio das trocas culturais, articulações e contatos. Escrever a biografia de uma determinada pessoa implica “arrastar” através da história , “como se fosse um imã em uma limalha. Implica situá-lo nos campos possíveis onde o indivíduo se move e se constitui. Implica também falar de uma série de assuntos que, de forma direta ou tangencial, refletem a sua trajetória.” (NASCIMENTO, 2009, p.146)
Quando reconstituímos as narrativas de vida, ainda que o foco esteja em assuntos particulares da trajetória de um individuo, requer uma mobilização da multiplicidade dos seus pertencimentos. A memória individual compõe a nossa memória social. E o ato de lembrar em conjunto, compartilhando a memória, é uma atividade que constrói pontes de relacionamento entre pessoas, associadas a uma bagagem cultural comum.
O Instituto de Educação de Minas Gerais (antiga Escola Normal Modelo) representa um lugar da memória da nossa cidade, da escola, da educação brasileira, da trajetória de professores, alunos e funcionários que passaram pelas suas salas de aulas e demais espaços. Contudo, com o passar dos anos, muitas dessas narrativas de memórias se perderam, uma vez que para as lembranças permanecerem vivas é necessário que sejam relembradas e revividas no presente.
Essas lacunas produzidas pelo tempo e pelo esquecimento podem ser preenchidas. Por que a partir do ato de (re)velar o esquecido, o passado pode ser recuperado e reconstruído com novas significações. A nossa realidade presente pode ser reconstruída com as centelhas do passado. Assim, a trajetória de grandes personalidades que foram responsáveis por momentos memoráveis da nossa história e que se encontram apagados, pode mais uma retomar o seu lugar no mundo. Redescobriremos a história de Jeanne Louise Milde, Helena Antipoff, Elza de Moura, Lúcia Casasanta e Alaíde Lisboa. E, por fim, perceberemos que a história delas é (a seu modo) a nossa história também..


Jeanne Louise Milde

Jeanne Louise Milde foi uma mulher a frente do seu tempo. Rompeu barreiras e abriu caminhos que mais tarde seriam seguidos por milhares de mulheres ao redor do mundo. A sua história tem início, em Bruxelas (Bélgica). Filha de Josse Milde e Mathilde Cammaerts Milde. Nasceu em 15 de julho de 1900. Estudou belas artes na Real Academia de Bruxelas, onde recebeu uma sólida e bem fundamentada formação acadêmica. Vivenciou e experenciou a grande revolução cultural que ocorreu nas primeiras décadas do século XX. Apesar de não estar diretamente ligada a nenhum movimento de vanguarda nas artes, assistiu (e a seu modo também atuou) a grande transformação ocorrida no campo das artes, da cultura e da sociedade.
Ser mulher e artista no início do século XX não era uma tarefa simples ou fácil. Enfrentou a oposição da sua família e da sociedade belga da sua época. A sua mãe não queria que estudasse e, provavelmente, se o seu pai soubesse, ele não teria permitido. Por isto, no início, frequentou a escola sem que soubessem. Em 24 de setembro de 1918, foi “a única mulher a ser aceita pela Escola de Belas Artes, a ser aluna com os jovens. E os jovens (...) criticavam muito (...) diziam essa mulher pequena se julga ser algum dia escultor (...)” (RODRIGUES, 2003, p.32) Com muito talento, dedicação e trabalho, conseguiu vencer as adversidades e ser aceita como artista num mundo majoritariamente masculino. Foi uma aluna dedicada e brilhante. Na Academia, se destacou e recebeu prêmios importantes.
Apesar do futuro promissor que se delineava em sua terra natal, Jeanne Milde muda radicalmente o seu destino ao aceitar em 1929 o convite de Alberto Alvares, enviado do governo mineiro, para compor a Missão Pedagógica Europeia que tinha por objetivo implementar a reforma do ensino em Minas Gerais. Com o professor Omer Buyse, veio para capital mineira para participar da implantação da Universidade do Trabalho. Nesta seria criada a Escola de Belas Artes, cuja direção ficaria sob a sua responsabilidade. Mas, com a eclosão da Revolução de 30, foram interrompidos esses projetos e a Missão foi desarticulada. Entretanto, Jeanne Milde permaneceu no país.
Apesar do projeto de criação da Universidade do Trabalho e da Escola de Artes ter sido abortado precocemente, Milde conseguiu conquistar um espaço significativo no panorama cultural-pedagógico da capital mineira. Tornou-se professora de modelagem e desenho na Escola de Aperfeiçoamento, na qual preparou professoras para ministrar a disciplina de trabalhos manuais, que inclui modelagem e pintura no currículo. Trabalhou também no Curso de Administração Escolar (do Instituto de Educação), na Escola de Polícia Rafael Magalhães, na Fazenda do Rosário e realizou muitos trabalhos em hospitais, junto a médicos e enfermeiros.
Algumas de suas ideias e da sua prática foram consideradas muito avançadas para a época. De acordo com o depoimento da ex-aluna Elza de Moura, apresentado no site da Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais: houve uma ocasião, um episódio desagradável com a Milde porque a direção da Escola de Aperfeiçoamento se insurgiu contra as projeções de nus artísticos, nas aulas. Mas Mademoiselle Reagiu à altura e os nus continuaram a ser projetados. Milde, antes de tudo era uma artista europeia e não se curvou ao ambiente mesquinho da época e a tradicional família mineira não perdia tempo, mas perdeu dessa vez. Durante as palestras com essas projeções, Mademoiselle as enriquecia fazendo comentários esclarecedores, diminuindo o pouco conhecimento das alunas com relação a história das artes. Elza Moura nos diz que o seu terceiro encontro com Mademoiselle. Milde foi como colegas, Moura, com as atividades de teatro de bonecos e a Milde com suas atividades específicas, usando material do ambiente para o enriquecimento de professoras alunas de zona rural, curso organizado pela professora Helena Antipoff. Mademoiselle Milde deu uma valiosa contribuição nesses cursos para professoras rurais, ampliando-lhes o horizonte estreito do meio em que viviam. Assim, de acordo com Elza Moura, esses cursos foram notáveis. E possibilitaram que essas professoras leigas de zona rural voltassem para seus municípios com outra visão do ensino da vida.
Jeanne Milde foi responsável por introduzir na educação mineira uma aprendizagem que unia teoria e a prática, onde, simultaneamente, se trabalhava com uma abordagem erudita da arte e uma arte mais aplicada (onde eram trabalhados elementos inerentes à realidade das Minas Gerais). Ao enfatizar os aspectos criativos, possibilitava a implantação de um ensino mais livre e formativo. Foi responsável, incialmente, na Escola de Aperfeiçoamento e, em seguida, no Instituto de Educação, de uma oficina de criação, onde as alunas tinha a sua disposição uma série de técnicas artísticas e expressivas. No fim de cada ano, as obras produzidas eram apresentadas numa grande exposição que sempre recebeu da mídia local um grande destaque.
Educadora e escultura, a sua atuação foi além da regência de sala de aula. Pensava a educação como um todo. Preocupava-se com todos os aspectos materiais e imateriais de uma escola. Por exemplo, ao perceber a inadequação do mobiliário escolar da época, projetou e construiu com recursos limitados em sua própria casa vários móveis utilitários e funcionais que atendiam às necessidades dos alunos da pré-escolar.
Jeanne Milde é considerada uma das precursoras do modernismo em Minas Gerais. Ajudou a criar espaços que permitiram encontros e incentivo às artes na capital mineira. Produziu esculturas para parques, órgãos públicos, praças, cemitérios e jardins residenciais. Desde o momento da sua chegada em Belo Horizonte, manteve aberto e acessível à comunidade, no Grande Hotel (que se localizava onde hoje temos o edifício Maleta) um ateliê de escultura. Em 1930, cria dois baixos-relevos decorativos para o prédio da Escola Normal Modelo, atual Instituto de Educação, em Belo Horizonte.

Concebia arte como sendo um instrumento para mobilizar a capacidade criativa que une imaginação e inteligência. “Trabalhava com sua arte, aplicando-a à realidade de uma nova sociedade que se pretendia construir tendo como um dos pilares a educação. A cadeira de artes objetivava o aprimoramento do espírito e da criatividade, mas voltava-se para a prática escolar.” (RODRIGUES, 2003, p.57) O trabalho ultrapassa as questões pedagógicas, abrangendo também as atividades artístico-socais e culturais da arte em Minas Gerais. Foi uma presença fundamental que legitimou salões e exposições de arte em Belo Horizonte. Pois, possuía um solido conhecimento acerca da história da arte e uma visão crítica em relação às mudanças nos movimentos da arte moderna-contemporânea.

A obra de Jeanne Louise Milde no IEMG

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Painel 2: alegoria do ensino das ciências, obra de Jeanne Louise Milde (Foto: Ronaldo Campos)

No hall de entrada do Instituto de Educação de Minas Gerais, há um amplo e belo salão ornamentado com elementos arquitetônicos neo-clássicos. Ao lado das escadarias que conduzem a parte superior do edifício, destacam-se os baixos-relevos decorativos de autoria da professora e artista belga Jeanne Louise Milde. Os painéis representam o ensino das artes e das ciências.
De modo geral, podemos caracterizar a obra de Mademoiselle Milde, a partir de uma temática refinada e vigorosa. Dotada de grande inspiração e liberdade de elaboração, com senso de harmonia e elegância que revela uma escultura pura, sensível e sensual. Pode-se perceber elementos influenciados pela art-déco e pelo expressionismo. A sua obra combina uma extraordinária percepção clássica formal com a leveza dos volumes e movimentos, o que confere uma magnifica longilineidade às suas peças. Milde se especializou nas figuras e mitos femininos, para onde são transpostos sensações, emoções e expressão próprias à mulher, transcendendo-se espiritualmente em seu trabalho
No caso específico dos painéis em baixo relevo do IEMG é uma alegoria intelectualmente refinada. Milde retratou (na forma de dois grupos de cinco mulheres) o sentimento de amor e dedicação dos alunos às artes, às ciências e à cultura. Cada uma das figuras femininas representadas tem a posse (e, por consequência, o domínio) de um elemento associado ao conhecimento. E todas estão iluminadas pela luz do sol (conhecimento). No painel do ensino das artes, a primeira jovem segura um martelo; a segunda, um formão; na parte central, o sol; a quarta mulher segura um livro; e a quinta uma paleta de pintor. No outro, na representação das ciências, há também um grupo de cinco mulheres: a primeira segura um galho de café; a segunda, um globo; na parte central, o sol, a quarta jovem segura um livro; e a última um compasso e um esquadro.
É uma obra que deve ser apreendida a partir do seu simbolismo, por que a artista se utilizou de uma linguagem cifrada e com muitas alegorias. Objetos facilmente reconhecíveis como um martelo, um livro ou o sol não representam apenas eles mesmos. São conceitos (ideias) de significado mais profundo ou abstrato. Assim, o martelo é o símbolo da razão orientando a vontade. É o símbolo da inteligência criativa. O sol é a glória, a espiritualidade, a iluminação e o conhecimento. Representa a vitalidade, a paixão, coragem e juventude eternamente renovada. O livro é um emblema auto evidente da sabedoria, ciência e erudição. O globo representa a primeira matéria (alquimia).
Ao associar a figura da mulher ao conhecimento, a artista belga nos mostra uma representação de mundo que rompe com a imagem tradicional da mulher e propõe uma nova representação do feminino. Ou seja, a mulher deixa de ser uma pessoa destinada à procriação, ao lar, para agradar o outro.
A figura feminina aqui não está associada nem a maternidade (representando os papeis de mãe e esposa) nem ao erotismo (representando a mulher como objeto de desejo do homem). E passa a ser sujeito do conhecimento. Nesse sentido, essa obra tem um caráter revolucionário e mostra a artista belga como uma mulher a frente do seu tempo. Pelo contrário, é uma imagem que simboliza a conquista dos direitos à educação e à profissionalização. A obra de Milde nos traz uma nova mulher inserida em uma sociedade em transformação. A mulher passa a ter uma identidade própria, com desejos e angústias que são próprios da condição humana.
Os dois painéis decorativos foram feitos por uma mulher especialmente para a Escola Normal Modelo. Certamente, porque era naquela época um dos raros espaços na capital mineira em que as mulheres poderiam desenvolver os seus talentos, as suas individualidades. Nos dias de hoje, essa bela obra ganha um novo significado. Passa a representar o lugar privilegiado que as mulheres conquistaram na nossa sociedade.

Helena Antipoff

A psicóloga e educadora Helena Antipoff nasceu em 1892, na cidade de Grodno, Russia. Filha de Sofia Constantinovna e de Wladimir Vassilevitch Antipoff. Em virtude da carreira do seu pai (um militar de alta patente) e pela origem materna aristocrática, viveu parte da infância na cidade de São Petersburgo e recebeu uma educação internacional. Com a separação dos pais, em 1909, foi viver com a mãe e os irmãos em Paris (França). Estudou na Sorbonne e no Collège de France. Formou-se em psicologia. Trabalhou no Instituto de Ciências da Educação e no Instituto Jean Jacques Rousseau em Genebra.
Em 1916, Helena Antipoff retornou a Rússia, na época da ocupação alemã, para reencontrar o seu pai que havia sido ferido durante a Primeira Grande Guerra. Assistiu os fatos históricos da Revolução Russa. Trabalhou em estações médico-pedagógicas em Viatka e em São Petersburgo com adolescentes abandonados, sem teto e sem rumo (na época, eles eram denominados como jovens delinquentes). Em 1921, atuou como colaboradora científica no Laboratório de Psicologia Experimental de São Petersburgo, fundado por Netschaieff.
Casou-se com Viktor Iretsky, jornalista e escritor russo, que foi perseguido e preso em decorrência das suas ideias literárias, consideradas nocivas à sociedade soviética. Essa situação levou o casal a se exilar em Berlim, na Alemanha. Como não oportunidades de trabalho para Helena Antipoff em território alemão, ela retornou a Suíça. E lá trabalhou no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra como assistente de Édouard Claparède e como professora de Psicologia da Criança na Escola de Ciências da Educação no Instituto Jean Jacques Rousseau. Foi colaboradora de Claparède na pesquisa sobre os processos de pensamento inteligente. Nessa época, recebeu o convite do governo de Minas Gerais para lecionar na Escola de Aperfeiçoamento. Inicialmente, recusou o convite. Mas, em 1929, aceitou assinar o contrato por dois anos para lecionar psicologia na Escola de Aperfeiçoamento de professores de Minas Gerais. Ficou responsável pela disciplina de psicologia, a coordenação do Laboratório de Psicologia e assessoria do sistema de ensino na aplicação de testes de inteligência.
Na Escola de Aperfeiçoamento, recria o ambiente de integração entre teoria e prática experimentando nos seus trabalhos no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra. Os trabalhos desenvolvidos nessa época subsidiaram e originaram o extenso programa de pesquisa sobre o desenvolvimento mental, ideais e interesses das crianças de Minas Gerais. Helena Antipoff buscou comprometer as suas alunas no processo de construção de uma pedagogia científica, com o objetivo de prepara-las para conhecer as crianças através de novas teorias e novas metodologias desenvolvidas pela psicologia.
Em 1932, um grupo de médicos, educadores e religiosos, sob a presidência de Helena Antipoff, criou a Sociedade Pestalozzi de Belo Horizonte. Esta instituição tinha vários objetivos. Certamente, o primeiro era o de cuidar das crianças excepcionais e assessorar as professoras de “classes especiais” dos grupos escolares. Além de atuar sobre diversos focos de exclusão social (provocados pela miséria, abandono e por questões de deficiência mental no sentido estrito). “Em todos os casos, tratava-se de procurar resguardar os direitos das crianças em situação de risco social. O consultório médico-pedagógico para crianças deficientes ou problemáticas instalado pela Sociedade em 1934 passou a atender regularmente essas ‘crianças-problema’, e tornou-se o embrião do futuro do Instituto Pestalozzi de Minas Gerais, posteriormente transformado em instituição pública, financiada pelo governo do Estado de Minas Gerais.” (CAMPOS, 2002, p.26) Em 1940, a Sociedade Pestalozzi instalou no município de Ibirité (Minas Gerais) sob a denominação de Escola da Fazenda do Rosário. O objetivo dessa instituição era educar e reeducar crianças abandonadas ou excepcionais. Aplicava-se os métodos da Escola Ativa, centrados na atividade espontânea da criança. Foi a partir dessa época que Helena Antipoff produziu um extensa e importante obra educativa (educação especial, educação rural, criatividade, superdotação) que influenciou a formação de muitas gerações de psicólogos e professores. Nessa mesma época, tornou-se professora fundadora da cadeira de Psicologia Educacional na Universidade Minas Gerais (atual UFMG), lecionando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras as disciplinas de didática e psicologia.
As ações pedagógicas de Helena Antipoff dedicadas à educação rural foram marcadas por uma filosofia pedagógica com ênfase na atividade e autonomia do aluno, numa atitude democrática, com o respeito à diversidade e a fé na ciência como um importante elemento de transformação da vida. Para a educadora, “talento e inteligência não são de geração espontânea, mas precedidos de longo trabalho de gerações: quem será pintor num meio rural, onde a criança nem mesmo tem o direito de usas o lápis de cor?” (CAMPOS, 2002, p.29)

Lúcia Casasanta

Lúcia Schmidt Monteiro de Castro nasceu em 29 de maio de 1908 em Carancas (Santa Luzia), região metropolitana de Belo Horizonte. Filha do fazendeiro Eduardo Olavo Monteiro de Castro, neto do Barão de Congonhas do Campo, e da professora Clodilte Schmidt Monteiro de Castro , neta de educadores alemães, Félix Schmidt e Verônica Klaiser. A sua formação teve início na cidade de Ouro Preto no Grupo Escolar D. Pedro II. O curso primário foi concluído em Belo Horizonte no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Em 1922 ingressou no curso de magistério na Escola Normal Modelo de Belo Horizonte. Na época, esse era considerado um destino obrigatório para as moças de boa família. Antes da sua formatura de normalista, no ano de 1926, iniciou sua carreira no magistério ao assumir o cargo de professora substituta de Música, Canto e Teoria Musical, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. O seu trabalho era preparar alunos para o exame final, cujos resultados seriam publicados no jornal “Minas Gerais”. Os seus alunos se destacaram com sucesso e, em virtude disso, recebeu inúmeros elogios.
Por seu desempenho brilhante como aluna da Escola Normal Modelo e como professora do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, aos 19 anos, foi convidada pelo então governador de Minas Gerais, Francisco Campos, para fazer parte de um grupo de bolsistas que seria enviado para a Teacher´s College, da Columbia University (Nova York). Essa instituição norte-americana era considerada "o maior centro educacional do mundo" e irradiador do idealismo liberal. Na universidade, especializou-se em Metodologia do Ensino da Língua Pátria.
Ao retornar ao Brasil, em parceria com Alda Lodi (uma das fundadoras do curso de Filosofia da UFMG) fizeram parte da criação e estruturação da Escola de Aperfeiçoamento, uma escola laboratório que tinha por objetivo formar uma nova classe de professores. Um local importante para a produção de conhecimento sobre a metodologia da linguagem e sedimentação da prática pedagógica. Essa escola correspondia ao curso pós-médio, direcionado a professoras que já exerciam o magistério. Ao fim de dois anos, voltariam às suas escolas de origem, como elementos multiplicadores das teorias e metodologias aprendidas no curso. O corpo docente da Escola de Aperfeiçoamento tinha uma formação teórico-prática originária dos Estados Unidos e da Europa
Lúcia Casasanta atuou como professora e trabalhou muito para concretizar a reforma de ensino proposta por Francisco Campos e para estabelecer uma nova forma metodológica no ensino\aprendizagem da leitura e da escrita, em um momento de muita incerteza pedagógica da nossa história. Defendeu de forma contundente a utilização do Método Global de Contos para o ensino da leitura. Enfatizou a ideia que as escolas deveriam trabalhar com a formação do leitor, incentivando os professores a se tornarem leitores e formadores de novos leitores. A educadora foi defensora do espírito científico na sala de aula. O processo de ensino-aprendizagem deixou de ser o resultado do “dom” natural (da “intuição”) do mestre para ser uma ação planejada, resultado de estudo e pesquisa. Especialista em metodologia da linguagem. É lembrada até os dias de hoje pela sua contribuição para a alfabetização. Defensora do método global de contos para aprendizagem da leitura. Um método revolucionário que obteve resultados surpreendentes no processo de alfabetização. Foi amplamente adotado dos anos 30  até a década de 70.
No ano de 1933, casou-se com o professor Mário Casasanta. E assumiu os quatro filhos do professor, com idades que variavam de 2 a 6 anos. Cinco anos mais tarde, ocupou a cadeira de professora adjunta de didática da linguagem na Universidade do Rio de Janeiro. Em 1946, atua no Curso de Administração Escolar (CAE). Em 1953, como integrante da Comissão Organizadora do Programa do Ensino Primário, foi responsável por elaborar a parte relativa à Língua Pátria. No ano seguinte, lançou o pré-livro “Os três Porquinhos” e deu início a série didática “As mais belas histórias”.  Em 1963, ficou viúva e assumiu o lugar do seu marido no Conselho Estadual de Educação (permaneceu até a sua aposentadoria em 1977). Participou também do Conselho Estadual de Educação no triênio 1969-1971. Em 1970, tornou-se a primeira diretora do Instituto de Educação de Minas Gerais depois do seu reconhecimento como entidade de ensino superior pelo Conselho Federal de Educação. Foi uma das fundadoras (1970) e a primeira reitora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Dentre as suas principais realizações, destaca-se a criação da primeira biblioteca infantil do Brasil e da primeira clínica para correção de problemas e leituras e linguagem.
Faleceu em 04 de junho de 1989. Mas a sua obra permanece viva na memória de educadores, antigos alunos e das inúmeras crianças que não se esquecem de “As mais belas histórias”


Alaíde Lisboa


Professora, escritora, pesquisadora, memorialista, política e figura de destaque no meio cultural brasileiro, Alaíde Lisboa de Oliveira nasceu no dia 22 de abril de 1904, na cidade de Lambari (sul de Minas Gerais), onde passou a sua infância. Filha de Maria Rita Vilhena Lisboa e do conselheiro João de Almeida Lisboa. É irmã da poetisa Henriqueta Lisboa e do poeta José Carlos Lisboa (a quem sucedeu na cadeira número seis da Academia Mineira de Letras). Fez o primário no Grupo Escolar Dr. João Bráulio Júnior. Foi uma aluna que gostava muito de estudar. Fez o curso normal no internato do Colégio Nossa Senhora de Sion (na cidade mineira de Campanha.), e desenvolveu uma carreira estudantil brilhante na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Minas Gerais, onde conviveu com a educadora e psicóloga Helena Antipoff, trazida para Minas Gerais graças ao empenho do professor José Lourenço de Oliveira, com quem Alaíde Lisboa veio a casar, em 1936. Helena Antipoff foi a sua madrinha de casamento. Teve quatro filhos: Abigail, José Carlos, Sílvio e Maria.
É autora de mais de trinta livros, entre didáticos, ensaios e literatura infantil. Atuou até 1957 como professora na Escola Normal Modelo (atual Instituto de Educação de Minas Gerais – IEMG) e na Universidade de Minas Gerais (que mais tarde daria origem a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG). Durante a sua carreira no magistério, desenvolveu um produtivo trabalho de base, não só nas funções de professora e de diretora, mas também como pedagoga e incentivadora dos movimentos de renovação do ensino no nosso estado. Foi professora em cursos de extensão em várias universidades brasileiras. Jornalista no jornal mineiro O Diário, durante quinze anos. Presidente da APPMG por dois mandatos.
Dezessete anos após a conquista do direito ao voto feminino no Brasil, foi a primeira mulher eleita para o cargo de vereadora em Belo Horizonte (em 1947, como suplente, assumindo efetivamente dois anos depois). Na época do seu mandato, conseguiu um aumento dos salários dos professores do Estado.
Em 1957, doutorou-se em didática pela UFMG, da qual se tornou catedtática por concurso público. Exerceu vários cargos de direção na universidade. Durante treze anos, foi diretora do Colégio de Aplicação da UFMG, além de exercer o cargo de vice-diretora da Faculdade de Educação, primeira coordenadora do mestrado em educação e, finalmente, professora emérita.
Deixou o seu nome gravado na história da literatura infantil com a obra A bonequinha preta que contribuiu para despertar o interesse pela leitura de várias gerações há sessenta e cinco anos.Sua obra, em especial o livro Nova didática, foi classificada por Carlos Drummond de Andrade como um trabalho altamente inovador e criativo, “um trabalho feito de experiência, reflexão e amor à tarefa, com apoio em um grande talento”.
Elza de Moura

Elza de Moura é uma das mais importantes educadoras do nosso país e uma das mulheres mais atuantes na segunda metade do século XX. Educadora, escritora, pesquisadora, maestrina, gestora e comunicadora de rádio e televisão. É reconhecida por sua vasta experiência e grande competência. Presenciou as modificações pelas quais a educação vem passando em nosso país e atuou de forma dinâmica. Trabalhou com nomes importantes como a psicóloga e educadora Helena Antipoff, José Oswaldo de Araujo, Abgar Renault, Mário Campos, Aníbal Matos, a escultora Jeanne Louise Milde, Mário e Lúcia Casassanta,
Nasceu na capital mineira no ano de 1915. Cresceu e vive até hoje no bairro Santa Ifigênia, em Belo Horizonte. Iniciou os seus estudos aos seis anos de idade no curso primário no Grupo Escolar Henrique Diniz. Repetiu a quarta série do ensino primário duas vezes por não ter a idade mínima de 12 anos para iniciar seus estudos como normalista ( repetiu não por reprovação, mas para completar a idade exigida para o ingresso na escola normal).
Estudou na Escola Normal Modelo (atual Instituto de Educação de Minas Gerais – IEMG) e na Escola de Aperfeiçoamento.  Após a sua formatura, ficou seis anos sem lecionar por opção pessoal. Nesta época, estudou piano e canto. Foi convidada por uma amiga para lecionar no Grupo Escolar Lúcio dos Santos e depois no Grupo Escolar Flávio dos Santos.
Adepta da Escola Nova e de métodos como a gramática funcional. Elza já gravou programas educacionais na extinta TV Itacolomi. Participou ativamente das atividades do Complexo Educacional Fazenda do Rosário. Foi Orientadora técnica no Grupo Escolar Sandoval de Azevedo. Orientadora técnica e diretora no Grupo Escolar Henrique Diniz. Ainda hoje ela é convidada para palestras e escreve artigos para jornais.
Destacou-se na imprensa mineira escrevendo para suplementos infantis e publicou diversos livros, dentre eles destacam: Lili e Paulinho estudam ciências naturais (Editora do Brasil), Pequeno Cientista (Editora do Brasil), Orientação Metodológica (Editora Bernardo Alvares), entre outros.
Em artigos para jornal, chamou atenção para as possibilidades que tem a escola primária de realizar um trabalho de reatamento das relações entre o poeta/poesia e o público/sociedade. Dizia a professora, que vários autores modernos brasileiros eram comumente utilizados pelo programa oficial do ensino primário em Minas Gerais. Através de leituras, declamações, corais falados e leituras silenciosas, os meninos tomavam conhecimento de poemas de Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, Vinícius de Morais e outros. Isto, bem se vê, é um avanço extraordinário; principalmente quando se considera que mais da metade de nossos professores secundários têm sólidos e impenetráveis preconceitos contra a poesia dita moderna ou qualquer sombra de inovações em arte.

REFERÊNCIAS
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CAMPOS, Regina Helena de Freitas (org.). Helena Antipoff: Textos escolhidos. São Paulo: Casa do Psicólogo; Brasilia: Conselho Federal de Psicologia, 2002
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