Nas primeiras páginas de um dos últimos números publicados da Revista Pedagógica do IEMG, veiculamos o poema de Quitéria Oliveira intitulado "Ao IEMG Centenário". A primeira vez que vi esses versos foi em um banner exposto em frente ao teatro principal da instituição — se a memória não me falha, por ocasião de um projeto de leitura e escrita no qual os alunos lançavam seus próprios livros.
O poema — reproduzido ao final deste texto — articula uma oposição semântica fundamental entre a eternidade/permanência e a transitoriedade/decadência. Assim, o texto constrói a imagem do IEMG não apenas como um monumento arquitetônico centenário, mas como um mecanismo vivo de memória, maternidade social e resistência do saber diante da efemeridade do tempo.
A ideia de permanência remete à vida, à memória e à tradição, sendo representada pela preservação da instituição, pela esperança, pelo saber e pelo impacto geracional ("eterniza-te", "futuro", "energia de muitas vidas"). Já a transitoriedade — termo associado aos conceitos de morte, esquecimento e desgaste — expressa-se pela ação do tempo, pelo envelhecimento físico do prédio e pelo desbotar das estruturas ("tempo imperioso", "fraqueza e o desgaste que a idade no seu ciclo se impõe"). Logo, a tensão poética surge do desejo de suspender a entropia do tempo humano por meio da imortalidade da instituição educacional.
A autora fala a partir de uma posição dupla e privilegiada: a de especialista e supervisora (autoridade pedagógica) e a de sujeito apaixonado (pertencimento e devoção). A recorrência da interjeição "Oh!" ("Oh! Baluarte", "Oh! Casa Rosada", "Oh! Majestoso Instituto") marca a dimensão afetiva do discurso, aproximando o poema de um hino de louvor ou de uma oração laica. Além disso, a estrofe que menciona a travessia "entre o conto de fadas e o pranto" traduz a jornada educacional como uma experiência humana complexa, oscilando entre o idealismo romântico e as dificuldades reais do cotidiano escolar.
No nível discursivo, Quitéria Oliveira utiliza figuras e metáforas concretas para materializar conceitos abstratos de educação, afeto e história. A "Casa Rosada da Educação" atua tanto como ícone visual — o prédio histórico identificado por sua cor marcante e arquitetura imponente — quanto como símbolo de resistência, no qual o termo "Baluarte" eleva a estrutura física à condição de fortaleza moral e cultural que resiste às intempéries do tempo.
O IEMG é representado ainda como uma figura maternal, símbolo de acolhimento e equidade. Ao afirmar que o instituto, "como uma mãe, abraças os teus filhos, todos... sem sobrepujar nenhum", estabelece-se um signo de universalidade e inclusão democrática no ensino público: a escola deixa de ser mero espaço funcional para se tornar matriz geradora de cidadãos.
Por fim, o texto antropomorfiza o prédio secular ("como um ancião, não menoscabem a fraqueza e o desgaste"). A semiótica do envelhecimento traz o duplo sentido da sabedoria acumulada em contraposição à vulnerabilidade da infraestrutura física, gerando um apelo ético de cuidado e preservação. Ao recorrer a signos de nobreza e soberania ("Majestoso", "cetro"), o poema reafirma a liderança histórica do IEMG na formação docente e na educação mineira.
Ao IEMG
Centenário (1906-2006)
Quitéria
Oliveira
Especialista em educação e supervisora do ensino
fundamental do Instituto de Educação de Minas Gerais, turno manhã
Oh! Baluarte Casa Rosada,
Que o tempo imperioso,
não dissipe os teus encantos.
Fostes apoio e conforto nas
jornadas,
acalento para os que trilharam
tua juventude,
esperança para os que trilham
tua plenitude.
És o sonho...
Sonho dourado!
Dos que ouvem ressoar o teu
nome,
Mesmo nos longíquos rincões,
és a certeza,
de um futuro que vislumbra
uma manhã vitoriosa.
Como uma mãe, abraças
os teus filhos,
todos... sem sobrepujar nenhum.
Oh! Casa Rosada,
eterniza-te, para que sonhos,
sejam sonhados sempre.
Aos filhos teus, deixas
uma mensagem
de otimismo e bravura,
como um ancião, não menoscabem,
a fraqueza e o desgaste que
a idade no seu ciclo se impõe.
Oh! Casa Rosada
tens a energia de muitas vidas,
que passaram e admiraram
os teus encantos
com a mesma esperança e
fantasia,
entre o conto de fadas e o
pranto.
Oh! Majestoso Instituto,
não perca jamais o teu cetro
és o maior encanto e beleza.
Que sejas na altivez do bom
exemplo,
fazendo dos teus filhos,
todos...
Cidadãos verdadeiros...
guardiões do tempo.

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