sábado, 27 de junho de 2026

O Exílio das Sombras Familiares

Esta história aconteceu de fato comigo hoje, sábado, 27 de junho de 2026



A morte, hoje em dia, tem pressa. Não a pressa do desenlace, que esta sempre foi impiedosa e pontual, mas a pressa do depois. Antigamente, o luto era um casarão de portas fechadas, um tempo suspenso onde as coisas do falecido permaneciam no mesmo lugar, ganhando uma respeitável camada de poeira e dignidade. Hoje, não. Mal o corpo baixa à terra, aciona-se o mecanismo da liquidação sumária. A vida de alguém — acumulada em décadas de afetos, leituras e miudezas — é empacotada em caixas de papelão e despachada para o esquecimento das calçadas. É a desidratação da memória.
Foi num sábado desses, caminhando sem rumo pela feira de antiguidades do Colégio Arnaldo, que trombei com esse veredicto do nosso tempo. Entre ferros velhos, relógios que já não marcam as horas e cristais opacos de heranças rejeitadas, vi de longe um vislumbre familiar. Um pôster. Uma foto emoldurada que me fitava com uma gravidade mansa.
Era o rosto de Helena Antipoff.
Aproximei-me com o coração em sobressalto, como quem reencontra um parente vivo no meio de um naufrágio. Perguntei ao feirante, com aquela falsa indiferença que usamos nesses balcões de resgastes, de onde viera o quadro.
— Veio do bota-abaixo da casa de uma tal dona Elza de Moura — respondeu ele, displicente.
Naquele instante, a feira ao meu redor emudeceu. Fui violentamente transportado para a Rua Tenente Anastácio. Vi-me de volta à biblioteca de dona Elza, cercado pelo cheiro de papel antigo e pela densidade das conversas generosas que ali tínhamos. E, ao fundo, exatamente como naquele momento na feira, éramos ambos observados pelo olhar pedagógico, firme e profundamente humano de dona Helena. Meus olhos, confesso, traíram-me e encheram-se d’água. Como pode o sagrado de uma vida virar mercadoria de calçada?
O vendedor, percebendo meu interesse, apontou para o chão:
— Tem mais coisas dela ali naquela caixa.
Olhei para o fundo da barraca. Uma caixa de papelão, vulgar e amassada, guardava o que restara de uma biografia: fotos soltas, papéis aleatórios, fragmentos de uma existência que perdera o teto. Agachei-me. Há um lado de arqueólogo e outro de confessor em revirar o lixo alheio que o tempo transformou em relíquia. Pacientemente, fui separando o que a sensibilidade pedia para ser salvo.
Escolhi os papéis, separei as fotos, fechei o preço. Mas, no instante de pagar, olhei novamente para o quadro de dona Helena, que continuava ali, encostado na poeira do sábado. Pensei comigo: não posso deixá-la aqui. Não posso permitir que essa presença tão fulgurante na história de nossa gente fique jogada no meio do nada, anônima, esquecida e desrespeitada por quem passa entre um pastel e um bibelô. Helena Antipoff não pertencia ao comércio dos desamparados.
Levei tudo. Comprei o lote da memória. Afinal, dona Helena precisava voltar para o seu habitat natural; ela precisava de uma biblioteca.
Agora, enquanto escrevo estas linhas, ergo os olhos e a vejo. Ela está aqui, na parede do meu escritório, resgatada do exílio da feira de antiguidades. Olha-me com a mesma bonomia e o mesmo rigor de quando nos víamos na casa de dona Elza. A família desfez-se dos objetos, o mundo moderno limpou as gavetas para dar espaço ao vazio, mas a memória, essa velha teimosa, encontrou uma fresta para continuar existindo. Dona Helena voltou para casa.


Belo Horizonte, 27 de junho de 2026

Ronaldo Campos