terça-feira, 4 de agosto de 2026

Os Reis que Venham devagar (texto de Ronaldo Campos)


Desde o início do ano, venho lendo o jornal Minas Geraes — órgão oficial do Estado. Comecei pelos primeiros números e, hoje, dia 4 de agosto de 2026, cheguei às páginas de março de 1921. Nesses últimos dias, minha imaginação fugiu da realidade; pareço ter voltado, por alguns instantes, ao início do século XX.

Ao olhar para as imagens em preto e branco daqueles jornais amarelados de outubro de 1920, fico imaginando o frenesi diplomático que tomava conta de Minas, São Paulo e, principalmente, do Rio de Janeiro. As notícias sobre a vinda de Sua Majestade, o Rei Alberto, e da Rainha Elisabeth ganhavam as páginas desde os primeiros meses de 1920. Ali descobri que o presidente Epitácio Pessoa mandou cartas manuscritas, trocou telegramas e pediu créditos ao Congresso para hospedar com pompa a realeza que atravessaria o Atlântico.

Em um mundo pós primeira guerra, a burocracia (ainda) se movia com a cadência solene das coisas graves. O século XIX permanecia por inercia no determinar das coisas: diplomatas em Bruxelas acertando ponteiros; embaixadores combinando se o príncipe herdeiro viria ou se ficaria por causa dos estudos; ministros preparando o couraçado São Paulo para escoltar os ilustres visitantes. Preparavam-se trens de luxo com peroba e imbuia, estofados de marroquim, salões envidraçados e espelhos reluzentes só para levá-los de Minas a São Paulo. No Rio, limpava-se o prédio do Supremo Tribunal, organizavam-se bailes venezianos na Baía de Botafogo, paradas militares de treze mil homens e passeios até as alturas da Tijuca e do Corcovado.

E, no entanto, fico pensando no rei e na rainha pisando no convés do São Paulo, contemplando o mar infinito da Europa se desdobrar até o nosso calor tropical. Reis de um país distante, ferido pela guerra recente, vindo em busca de abraços, acordos e talvez um pouco do nosso sol esquecido.

A vida oficial planejava cada minuto: o banquete no Catete, as saudações no Palácio Monroe, a viagem a Teresópolis. Mas o que realmente importava para esses viajantes de longe? Talvez o cheiro de maresia ao entrar na Baía de Guanabara, a brisa fresca da serra ao anoitecer em Petrópolis, ou o silêncio antigo das minas de ouro em Morro Velho.

Governantes e generais organizavam protocolos e marchas; o povo nas ruas, com seus chapéus e curiosidade ingênua, só queria ver se um rei de carne e osso andava de trem do mesmo jeito que a gente.

Em Belo Horizonte, o Dr. Arthur Bernardes pedia ao Congresso aprovação para receber com dignidade a comitiva real. Mas o povo — ah, o povo mineiro — olhava para os trilhos. Antes mesmo de os soberanos pisarem no chão de poeira e modernidade da recém-nascida capital mineira, a viagem já acontecia no imaginário urbano. Noticiavam-se as minúcias de um trem lendário, montado nas oficinas do Engenho de Dentro e do Norte para conduzir a realeza até a Serra do Curral. Havia o "Carro do Rei", esculpido em imbuia e canela, com poltronas de marroquim e varanda de observação; e o "Carro da Rainha", adornado em peroba e estilo renascença português, com espelhos de toilette e aquecedores. Pelas janelas envidraçadas desse comboio iluminado à eletricidade, previa-se a cena: os heróis da reconstrução europeia admirando os morros e os cafezais de Minas.

E então, o rumor dos trilhos virou apoteose.

Depois das estrondosas saudações no porto do Rio de Janeiro, onde tiros de canhão cortavam o ar e aviões rasgavam o céu azul puríssimo, o destino irrevogável era o coração do estado minerador. Belo Horizonte, jovem, planejada e orgulhosa, preparou-se como quem veste terno de domingo para receber a história. Quando a locomotiva finalmente apontou na estação, trazendo consigo o "Rei-Soldado" e sua esposa, o protocolo cedeu lugar ao calor das ruas.

Entre a solenidade de estado e o assombro popular, os reis não viram apenas uma cidade em construção ou as minas profundas de Morro Velho; viram a alma de uma gente que ornamentou sacadas, agitou bandeirinhas auriverdes e amarelas e transformou telegramas oficiais em uma celebração viva de afeto e curiosidade. A visita real não foi apenas um registro na imprensa da época — foi o dia em que a jovem Belo Horizonte sentiu o mundo bater à sua porta.


Um mártir da ciência - texto extraído do jornal Minas Geraes, 15 de março de 1921, p. 4-5

 



Um mártir da ciência

No ano que findou, cessou a carreira de um sábio que, morrendo no seu posto de combate, deu o exemplo da mais sublime e da mais comovedora lição de heroísmo pacífico.

Refiro-me ao Dr. Charles Infroit, morto em Paris na idade de 46 anos, pelos raios X.

Consagrou a sua existência ao estudo e à aplicação prática desses raios, e os seus trabalhos já eram citados quando, em 1898, foi nomeado chefe do Laboratório Central de Radiografia, na Salpêtrière, em Paris.

A partir dessa data, começou o seu longo martírio. No espaço de dez anos, trabalhando e lutando sem preocupar-se com a vida, sofreu nada menos de vinte e duas operações, devidas a queimaduras nos braços, causadas pelos raios X.

Sobreveio a guerra. O Dr. Infroit continuou a sua obra humanitária nos laboratórios do exército, que não ofereciam as mesmas garantias de segurança dos laboratórios normais. Em 1918 perdeu um dos mais preciosos instrumentos do seu trabalho: o seu braço direito, que foi amputado.

Não cessou, por isso, a sua indomável energia. Serviu-se do outro braço. Mas a sorte reservara o mais cruel e o mais injusto dos castigos: no ano seguinte foi amputado do punho esquerdo!

Horrivelmente mutilado, o sábio, substituindo por um aparelho as suas mãos ausentes, ainda continuou por algum tempo seu trabalho, dando ao seu ideal, a ciência, o pouco que lhe restava de vida, torturada por sofrimentos de mártir.

A sua existência foi toda de abnegação pela humanidade e o seu nome é digno da admiração mundial.

Ecoou por toda a parte a notícia dolorosa da sua morte, mas não teve essa notícia a expansão devida; por isso, era dever nosso ampliá-la, dando-lhe relevo da mais respeitável homenagem

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Texto de Mário de Lima, extraído do Minas Geraes, 16 de fevereiro de 1921, p5


 

A reabilitação de Jeca-tatu

Alberto Torres afirmou, em várias páginas de seus livros, notadamente no "Problema Nacional Brasileiro", a confiança que lhe despertavam a capacidade de trabalho e a resistência das formações étnicas constitutivas da população brasileira.

Falta-nos apenas organização, escrevia o eminente sociólogo. De fato, as qualidade naturais do nosso povo nem sempre se manifestam, em todo o seu vigor, pela ausência de orientação que as encaminhe pelo rumo mais consentâneo aos interesses da coletividade.

O egrégio pensador recordava a soma de energias despendida, nos tempos da escravidão, pelas nossas donas de casa; o excessivo labor do brasileiro, em todos os ramos das profissões liberais, representando um esforço contínuo maior que o dos profissionais europeus, os quais, em determinados períodos de férias, suspendem os seus trabalhos, fecham os seus gabinetes e escritórios para repousar.

Sobre o valor da energia latente do habitante dos nossos sertões não era outra a opinião de Euclides da Cunha.

Há poucos anos, o Sr. Monteiro Lobato, com o seu Jeca-tatu, veio, por instantes, contrariar esse conceito favorável ao caboclo brasileiro.

A página célebre dos "Urupês" deu a Ruy Barbosa uma repercussão nacional. Passado, porém, o primeiro momento, à generalização do escritor paulista opôs o Sr. Ildefonso Albano os seus embargos restritivos, na figura de Mané Chique-Chique, o sertanejo do norte. Outras contraditas apareceram no sul do país. E o próprio Sr. Monteiro Lobato reconheceu, nas páginas vibrantes do "Problema Vital", que a indolência do Jeca-tatu não era um produto da raça e sim a consequência de "um longo e ininterrupto estado de doença transmitido de pais a filhos e agravado dia por dia". E, no pequeno prefácio da 3.ª edição dos "Urupês", aproveitou o lance "para implorar perdão ao pobre Jeca". "Eu ignorava, escreve Monteiro Lobato, que eras assim, meu Tatú, por motivo de doença."

Hoje é com piedade infinita que te encara quem, naquele tempo, só via em ti um "mamparreio de marca".

Jeca-Tatu é, portanto, um caso mórbido e não o tipo normal das populações sertanejas. Convenientemente medicado, poderá transformar-se em valor econômico de primeira ordem. Não é visceral a sua inferioridade.

É apenas a resultante do meio endêmico em que vive e do abandono moral em que se tem encontrado, completamente esquecido, até bem pouco, pelos patrícios civilizados do litoral.

Não são raros os exemplos da perfeita adaptabilidade dos nossos caboclos e sertanejos a certos gêneros de atividade, em que nos habituamos, por um falso julgamento, a considerá-los inferiores aos estrangeiros.

Há, em S. Paulo, uma colônia dirigida pelos trapistas, que nos fornece a prova do asserto.

Em Tremembé, os religiosos da Trapa mantêm um verdadeiro laboratório de experimentação sociológica, no qual puderam apurar a injustiça do preconceito corrente em relação ao valor do trabalhador nacional.

Quando ali chegaram, há anos, encontraram os trapistas uma população enfermiça e indolente, incapaz do menor esforço e vivendo ao Deus dará. Pesava sobre ela a fatalidade de um meio físico hostil.

Os trapistas iniciaram, logo, com fervor apostólico, o serviço de saneamento da região. Curando das almas dos caipiras, não descuidavam de sua saúde.

Em período relativamente curto, confortadores foram os resultados conseguidos. Enrijou-se para a luta dos campos aquela gente até então enfraquecida pelas endemias. E prosperou, dentro em pouco, a agricultura na colônia de Tremembé, que é, hoje, no dizer de quantos a visitam, um dos núcleos agrícolas mais florescentes do país e, ao mesmo tempo, a afirmação pujante de quanto é capaz o braço brasileiro, quando revigorado pela regeneração física e por inteligentes processos educativos que lhe aproveitem, convenientemente, as energias adormecidas pelas doenças e pela ignorância.

É opinião dos trapistas que o trabalhador nacional não é excedido por nenhum outro. Um pouco de saneamento e um pouco de educação profissional conseguiram operar o milagre.

A alguns quilômetros desta capital, na Companhia Inglesa do Morro Velho, tem-se verificado, em outro gênero de trabalho, a resistência do operário brasileiro.

Ali trabalham, em maior número, operários italianos, espanhóis e nacionais. Estes em nada são inferiores aos outros. E, segundo parece, há serviços de natureza mais extenuante e perigosa, para os quais os nossos trabalhadores são inigualáveis.

Há poucos anos, tentaram os ingleses empregar no serviço da mina várias dezenas de japoneses. Estes, a despeito da famosa resistência física da raça nipônica, não puderam suportar o peso daqueles trabalhos. Foi uma experiência de poucos meses. E os brasileiros lá estão, vantajosamente competindo com os espanhóis e italianos.

Na Companhia Siderúrgica Mineira, não há muitos meses instalada em Sabará, tem sido posta à prova a inteligência do operário nacional.

Patrícios nossos, que não tiveram conveniente educação profissional, dão completo desempenho a incumbências de natureza técnica, revelando, assim, admirável inteligência.

Contou-nos um dos diretores da mesma Companhia que, há meses, havendo falta de práticos estrangeiros para desmontar, em cidade do Estado do Rio, uma complicação da máquina adquirida para a Siderúrgica, resolveu a diretoria escalar para tal fim alguns operários naturais de Sabará de onde jamais haviam saído. Esses operários desmontaram a máquina e, o que é mais, tornaram a montá-la, em Sabará, como se fossem velhos conhecedores daquelas engrenagens. A máquina funciona, desde então, perfeitamente.

Essa habilidade do operário nacional nem sempre chega a revelar-se, pela desconfiança com que, em regra, julgamos do valor de tudo que é nosso.

Em relação a certas ocupações, vamos decretando, preliminarmente, a incapacidade do trabalhador brasileiro.

Preferimos quase sempre, o estrangeiro, enlevados pelo prestígio de um nome arrevesado e pela crença, tantas vezes desmentida, de que o nacional não poderá concorrer com ele.

É necessário acabar com esse preconceito que tanto nos degrada. A valorização da nossa terra e da nossa gente deve ser a base do verdadeiro nacionalismo.

Continuemos a receber com deferência e carinho os estrangeiros que nos trazem o concurso do seu esforço e da sua inteligência. Nada de xenofobia, nada de jacobinismo, porque não podemos dispensar a colaboração alienígena.

Mas, acolhendo bem o estrangeiro, preocupemo-nos, desveladamente, com a reabilitação dos nossos patrícios, que, em estado hígido e com o treinamento necessário, não invejam os trabalhadores e operários de outras pátrias.

Livremos Jeca-tatu do anquilostomo, do "barbeiro", da anofelina e do analfabetismo, integrando-o na comunhão brasileira, de que ele tem vivido afastado por culpa nossa.

Serão milhões de braços e de inteligências conquistados à inação e à ignorância. Serão outras tantas forças econômicas concorrendo para a grandeza e a glória do Brasil. Esta deve ser a preocupação principal de uma campanha nacionalista bem orientada.

MARIO DE LIMA

Histórias atribuídas a D. Pedro II

Texto extraído do jornal Minas Geraes, 10 de fevereiro de 1921 (p. 2) 

Anedotas atribuídas ao ex-imperador Pedro II

Andam agora na imprensa de Minas várias anedotas atribuídas a D. Pedro II e entre elas estão as seguintes:

O Dr. Chrispiniano Tavares, Baiano, formado em engenharia pela Escola de Ouro Preto e que residiu por muitos anos em Uberaba, foi, como muitos outros, afilhado de conta de S. M. (Sua Majestade).

O Dr. Chrispin, como era mais conhecido quando estudante, sempre que ia ao Rio, deixava sua primeira visita ao Imperador. Certa vez, descendo a gare da E. F. D. P. II (Estrada de Ferro Dom Pedro II), dirigiu-se ele ao Palácio, em trajes de viagem e, como nesse dia houvesse reunião de conselho, ali estavam ministros e conselheiros. O moço Chrispin teve a entrada sustentada pelo contínuo que não o conhecia. O rapaz porém forçou a entrada e colocou-se entre a porta e o sapateiro, à espera de que chegasse S. M. Estupefação geral. Os conselheiros e ministros entreolharam-se e como que indignados da intrusa visita, murmuravam talvez sobre a insolência e o descaro do impertinente sem lhes dirigirem a palavra todavia. Eis que aparece S. M. que ao avistá-lo narra a atração:

— Como vai você, meu bom Chrispin?... Já sei, já sei: trouxe-me as notas da Escola; dez-me, onze-me, doze-me... Dá-me um abraço e venha ver o Imperador que mais saudades de ti. Já sei, já sei: vem dar-nos o prazer da hospedagem conosco, sê bem-vindo, etc., etc.

O pessoal grande que até então se mantivera rancoroso com o suposto intruso, levantou-se e foi numa hora apertar-lhe a mão, dando as boas-vindas e congratulando-se com S. M. pelos esforços feitos pela sua proteção e pelas brilhantes notas adquiridas na Escola de Ouro Preto.

O Dr. Chrispin morreu assassinadono Rio Verde, Goiás, sendo o fato que acabo de relatar conhecido em toda Uberaba.

Na inauguração de uma ponte entre o Tietê e Porto Feliz, achava-se presente o imperador Pedro II. Depois dos festejos, o monarca foi visitar a antiga escola do professor Julião Ferraz. Este mestre, já bem velho, para mostrar aos soberanos o preparo dos seus alunos, perguntou aos meninos João Bâmara e Salvador Filardi:

— Qual de vocês dois é capaz de dizer o nome do nosso Imperador?

João, sendo mais ativo que o Salvador, vendo ao lado do monarca o veterano do Paraguai, Sr. Sebastião Toledo e, julgando haver parentesco entre eles, respondeu:

— Eu sei, é... é D. Pedro II de Toledo.

O professor errou, mas D. Pedro riu gostosamente.

Visitando a cadeia de Tietê, D. Pedro II manifestou o desejo de conhecer a prisão dos loucos. Sendo conduzido a esse recinto pelo carcereiro João do Amaral Castro, o monarca foi surpreendido por um louco que lhe bateu nos ombros e disse:

— Tolo, tu estás mais louco do que eu!