segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Texto de Mário de Lima, extraído do Minas Geraes, 16 de fevereiro de 1921, p5


 

A reabilitação de Jeca-tatu

Alberto Torres afirmou, em várias páginas de seus livros, notadamente no "Problema Nacional Brasileiro", a confiança que lhe despertavam a capacidade de trabalho e a resistência das formações étnicas constitutivas da população brasileira.

Falta-nos apenas organização, escrevia o eminente sociólogo. De fato, as qualidade naturais do nosso povo nem sempre se manifestam, em todo o seu vigor, pela ausência de orientação que as encaminhe pelo rumo mais consentâneo aos interesses da coletividade.

O egrégio pensador recordava a soma de energias despendida, nos tempos da escravidão, pelas nossas donas de casa; o excessivo labor do brasileiro, em todos os ramos das profissões liberais, representando um esforço contínuo maior que o dos profissionais europeus, os quais, em determinados períodos de férias, suspendem os seus trabalhos, fecham os seus gabinetes e escritórios para repousar.

Sobre o valor da energia latente do habitante dos nossos sertões não era outra a opinião de Euclides da Cunha.

Há poucos anos, o Sr. Monteiro Lobato, com o seu Jeca-tatu, veio, por instantes, contrariar esse conceito favorável ao caboclo brasileiro.

A página célebre dos "Urupês" deu a Ruy Barbosa uma repercussão nacional. Passado, porém, o primeiro momento, à generalização do escritor paulista opôs o Sr. Ildefonso Albano os seus embargos restritivos, na figura de Mané Chique-Chique, o sertanejo do norte. Outras contraditas apareceram no sul do país. E o próprio Sr. Monteiro Lobato reconheceu, nas páginas vibrantes do "Problema Vital", que a indolência do Jeca-tatu não era um produto da raça e sim a consequência de "um longo e ininterrupto estado de doença transmitido de pais a filhos e agravado dia por dia". E, no pequeno prefácio da 3.ª edição dos "Urupês", aproveitou o lance "para implorar perdão ao pobre Jeca". "Eu ignorava, escreve Monteiro Lobato, que eras assim, meu Tatú, por motivo de doença."

Hoje é com piedade infinita que te encara quem, naquele tempo, só via em ti um "mamparreio de marca".

Jeca-Tatu é, portanto, um caso mórbido e não o tipo normal das populações sertanejas. Convenientemente medicado, poderá transformar-se em valor econômico de primeira ordem. Não é visceral a sua inferioridade.

É apenas a resultante do meio endêmico em que vive e do abandono moral em que se tem encontrado, completamente esquecido, até bem pouco, pelos patrícios civilizados do litoral.

Não são raros os exemplos da perfeita adaptabilidade dos nossos caboclos e sertanejos a certos gêneros de atividade, em que nos habituamos, por um falso julgamento, a considerá-los inferiores aos estrangeiros.

Há, em S. Paulo, uma colônia dirigida pelos trapistas, que nos fornece a prova do asserto.

Em Tremembé, os religiosos da Trapa mantêm um verdadeiro laboratório de experimentação sociológica, no qual puderam apurar a injustiça do preconceito corrente em relação ao valor do trabalhador nacional.

Quando ali chegaram, há anos, encontraram os trapistas uma população enfermiça e indolente, incapaz do menor esforço e vivendo ao Deus dará. Pesava sobre ela a fatalidade de um meio físico hostil.

Os trapistas iniciaram, logo, com fervor apostólico, o serviço de saneamento da região. Curando das almas dos caipiras, não descuidavam de sua saúde.

Em período relativamente curto, confortadores foram os resultados conseguidos. Enrijou-se para a luta dos campos aquela gente até então enfraquecida pelas endemias. E prosperou, dentro em pouco, a agricultura na colônia de Tremembé, que é, hoje, no dizer de quantos a visitam, um dos núcleos agrícolas mais florescentes do país e, ao mesmo tempo, a afirmação pujante de quanto é capaz o braço brasileiro, quando revigorado pela regeneração física e por inteligentes processos educativos que lhe aproveitem, convenientemente, as energias adormecidas pelas doenças e pela ignorância.

É opinião dos trapistas que o trabalhador nacional não é excedido por nenhum outro. Um pouco de saneamento e um pouco de educação profissional conseguiram operar o milagre.

A alguns quilômetros desta capital, na Companhia Inglesa do Morro Velho, tem-se verificado, em outro gênero de trabalho, a resistência do operário brasileiro.

Ali trabalham, em maior número, operários italianos, espanhóis e nacionais. Estes em nada são inferiores aos outros. E, segundo parece, há serviços de natureza mais extenuante e perigosa, para os quais os nossos trabalhadores são inigualáveis.

Há poucos anos, tentaram os ingleses empregar no serviço da mina várias dezenas de japoneses. Estes, a despeito da famosa resistência física da raça nipônica, não puderam suportar o peso daqueles trabalhos. Foi uma experiência de poucos meses. E os brasileiros lá estão, vantajosamente competindo com os espanhóis e italianos.

Na Companhia Siderúrgica Mineira, não há muitos meses instalada em Sabará, tem sido posta à prova a inteligência do operário nacional.

Patrícios nossos, que não tiveram conveniente educação profissional, dão completo desempenho a incumbências de natureza técnica, revelando, assim, admirável inteligência.

Contou-nos um dos diretores da mesma Companhia que, há meses, havendo falta de práticos estrangeiros para desmontar, em cidade do Estado do Rio, uma complicação da máquina adquirida para a Siderúrgica, resolveu a diretoria escalar para tal fim alguns operários naturais de Sabará de onde jamais haviam saído. Esses operários desmontaram a máquina e, o que é mais, tornaram a montá-la, em Sabará, como se fossem velhos conhecedores daquelas engrenagens. A máquina funciona, desde então, perfeitamente.

Essa habilidade do operário nacional nem sempre chega a revelar-se, pela desconfiança com que, em regra, julgamos do valor de tudo que é nosso.

Em relação a certas ocupações, vamos decretando, preliminarmente, a incapacidade do trabalhador brasileiro.

Preferimos quase sempre, o estrangeiro, enlevados pelo prestígio de um nome arrevesado e pela crença, tantas vezes desmentida, de que o nacional não poderá concorrer com ele.

É necessário acabar com esse preconceito que tanto nos degrada. A valorização da nossa terra e da nossa gente deve ser a base do verdadeiro nacionalismo.

Continuemos a receber com deferência e carinho os estrangeiros que nos trazem o concurso do seu esforço e da sua inteligência. Nada de xenofobia, nada de jacobinismo, porque não podemos dispensar a colaboração alienígena.

Mas, acolhendo bem o estrangeiro, preocupemo-nos, desveladamente, com a reabilitação dos nossos patrícios, que, em estado hígido e com o treinamento necessário, não invejam os trabalhadores e operários de outras pátrias.

Livremos Jeca-tatu do anquilostomo, do "barbeiro", da anofelina e do analfabetismo, integrando-o na comunhão brasileira, de que ele tem vivido afastado por culpa nossa.

Serão milhões de braços e de inteligências conquistados à inação e à ignorância. Serão outras tantas forças econômicas concorrendo para a grandeza e a glória do Brasil. Esta deve ser a preocupação principal de uma campanha nacionalista bem orientada.

MARIO DE LIMA

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