Texto extraído do jornal Minas Geraes, 10 de fevereiro de 1921 (p. 2)
Anedotas atribuídas ao ex-imperador Pedro II
Andam agora na imprensa de Minas várias anedotas atribuídas a D. Pedro II e entre elas estão as seguintes:
O Dr. Chrispiniano Tavares, Baiano, formado em engenharia pela Escola de Ouro Preto e que residiu por muitos anos em Uberaba, foi, como muitos outros, afilhado de conta de S. M. (Sua Majestade).
O Dr. Chrispin, como era mais conhecido quando estudante, sempre que ia ao Rio, deixava sua primeira visita ao Imperador. Certa vez, descendo a gare da E. F. D. P. II (Estrada de Ferro Dom Pedro II), dirigiu-se ele ao Palácio, em trajes de viagem e, como nesse dia houvesse reunião de conselho, ali estavam ministros e conselheiros. O moço Chrispin teve a entrada sustentada pelo contínuo que não o conhecia. O rapaz porém forçou a entrada e colocou-se entre a porta e o sapateiro, à espera de que chegasse S. M. Estupefação geral. Os conselheiros e ministros entreolharam-se e como que indignados da intrusa visita, murmuravam talvez sobre a insolência e o descaro do impertinente sem lhes dirigirem a palavra todavia. Eis que aparece S. M. que ao avistá-lo narra a atração:
— Como vai você, meu bom Chrispin?... Já sei, já sei: trouxe-me as notas da Escola; dez-me, onze-me, doze-me... Dá-me um abraço e venha ver o Imperador que mais saudades de ti. Já sei, já sei: vem dar-nos o prazer da hospedagem conosco, sê bem-vindo, etc., etc.
O pessoal grande que até então se mantivera rancoroso com o suposto intruso, levantou-se e foi numa hora apertar-lhe a mão, dando as boas-vindas e congratulando-se com S. M. pelos esforços feitos pela sua proteção e pelas brilhantes notas adquiridas na Escola de Ouro Preto.
O Dr. Chrispin morreu assassinadono Rio Verde, Goiás, sendo o fato que acabo de relatar conhecido em toda Uberaba.
Na inauguração de uma ponte entre o Tietê e Porto Feliz, achava-se presente o imperador Pedro II. Depois dos festejos, o monarca foi visitar a antiga escola do professor Julião Ferraz. Este mestre, já bem velho, para mostrar aos soberanos o preparo dos seus alunos, perguntou aos meninos João Bâmara e Salvador Filardi:
— Qual de vocês dois é capaz de dizer o nome do nosso Imperador?
João, sendo mais ativo que o Salvador, vendo ao lado do monarca o veterano do Paraguai, Sr. Sebastião Toledo e, julgando haver parentesco entre eles, respondeu:
— Eu sei, é... é D. Pedro II de Toledo.
O professor errou, mas D. Pedro riu gostosamente.
Visitando a cadeia de Tietê, D. Pedro II manifestou o desejo de conhecer a prisão dos loucos. Sendo conduzido a esse recinto pelo carcereiro João do Amaral Castro, o monarca foi surpreendido por um louco que lhe bateu nos ombros e disse:
— Tolo, tu estás mais louco do que eu!

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