Desde o início do ano, venho lendo o jornal Minas Geraes — órgão oficial do Estado. Comecei pelos primeiros números e, hoje, dia 4 de agosto de 2026, cheguei às páginas de março de 1921. Nesses últimos dias, minha imaginação fugiu da realidade; pareço ter voltado, por alguns instantes, ao início do século XX.
Ao olhar para as imagens em preto e branco daqueles jornais amarelados de outubro de 1920, fico imaginando o frenesi diplomático que tomava conta de Minas, São Paulo e, principalmente, do Rio de Janeiro. As notícias sobre a vinda de Sua Majestade, o Rei Alberto, e da Rainha Elisabeth ganhavam as páginas desde os primeiros meses de 1920. Ali descobri que o presidente Epitácio Pessoa mandou cartas manuscritas, trocou telegramas e pediu créditos ao Congresso para hospedar com pompa a realeza que atravessaria o Atlântico.
Em um mundo pós primeira guerra, a burocracia (ainda) se movia com a cadência solene das coisas graves. O século XIX permanecia por inercia no determinar das coisas: diplomatas em Bruxelas acertando ponteiros; embaixadores combinando se o príncipe herdeiro viria ou se ficaria por causa dos estudos; ministros preparando o couraçado São Paulo para escoltar os ilustres visitantes. Preparavam-se trens de luxo com peroba e imbuia, estofados de marroquim, salões envidraçados e espelhos reluzentes só para levá-los de Minas a São Paulo. No Rio, limpava-se o prédio do Supremo Tribunal, organizavam-se bailes venezianos na Baía de Botafogo, paradas militares de treze mil homens e passeios até as alturas da Tijuca e do Corcovado.
E, no entanto, fico pensando no rei e na rainha pisando no convés do São Paulo, contemplando o mar infinito da Europa se desdobrar até o nosso calor tropical. Reis de um país distante, ferido pela guerra recente, vindo em busca de abraços, acordos e talvez um pouco do nosso sol esquecido.
A vida oficial planejava cada minuto: o banquete no Catete, as saudações no Palácio Monroe, a viagem a Teresópolis. Mas o que realmente importava para esses viajantes de longe? Talvez o cheiro de maresia ao entrar na Baía de Guanabara, a brisa fresca da serra ao anoitecer em Petrópolis, ou o silêncio antigo das minas de ouro em Morro Velho.
Governantes e generais organizavam protocolos e marchas; o povo nas ruas, com seus chapéus e curiosidade ingênua, só queria ver se um rei de carne e osso andava de trem do mesmo jeito que a gente.
Em Belo Horizonte, o Dr. Arthur Bernardes pedia ao Congresso aprovação para receber com dignidade a comitiva real. Mas o povo — ah, o povo mineiro — olhava para os trilhos. Antes mesmo de os soberanos pisarem no chão de poeira e modernidade da recém-nascida capital mineira, a viagem já acontecia no imaginário urbano. Noticiavam-se as minúcias de um trem lendário, montado nas oficinas do Engenho de Dentro e do Norte para conduzir a realeza até a Serra do Curral. Havia o "Carro do Rei", esculpido em imbuia e canela, com poltronas de marroquim e varanda de observação; e o "Carro da Rainha", adornado em peroba e estilo renascença português, com espelhos de toilette e aquecedores. Pelas janelas envidraçadas desse comboio iluminado à eletricidade, previa-se a cena: os heróis da reconstrução europeia admirando os morros e os cafezais de Minas.
E então, o rumor dos trilhos virou apoteose.
Depois das estrondosas saudações no porto do Rio de Janeiro, onde tiros de canhão cortavam o ar e aviões rasgavam o céu azul puríssimo, o destino irrevogável era o coração do estado minerador. Belo Horizonte, jovem, planejada e orgulhosa, preparou-se como quem veste terno de domingo para receber a história. Quando a locomotiva finalmente apontou na estação, trazendo consigo o "Rei-Soldado" e sua esposa, o protocolo cedeu lugar ao calor das ruas.
Entre a solenidade de estado e o assombro popular, os reis não viram apenas uma cidade em construção ou as minas profundas de Morro Velho; viram a alma de uma gente que ornamentou sacadas, agitou bandeirinhas auriverdes e amarelas e transformou telegramas oficiais em uma celebração viva de afeto e curiosidade. A visita real não foi apenas um registro na imprensa da época — foi o dia em que a jovem Belo Horizonte sentiu o mundo bater à sua porta.
APRENDER, (DES)APRENDER, (RE)APRENDER - BLOG DO PROFESSOR RONALDO CAMPOS
Esse blog escrito pelo professor de História e Filosofia, Ronaldo Campos, tem por objetivo discutir assuntos relacionados com os campos da filosofia e educação.
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Os Reis que Venham devagar (texto de Ronaldo Campos)
Um mártir da ciência - texto extraído do jornal Minas Geraes, 15 de março de 1921, p. 4-5
Um mártir da ciência
No ano que findou, cessou a carreira de um sábio que, morrendo no seu posto de combate, deu o exemplo da mais sublime e da mais comovedora lição de heroísmo pacífico.
Refiro-me ao Dr. Charles Infroit, morto em Paris na idade de 46 anos, pelos raios X.
Consagrou a sua existência ao estudo e à aplicação prática desses raios, e os seus trabalhos já eram citados quando, em 1898, foi nomeado chefe do Laboratório Central de Radiografia, na Salpêtrière, em Paris.
A partir dessa data, começou o seu longo martírio. No espaço de dez anos, trabalhando e lutando sem preocupar-se com a vida, sofreu nada menos de vinte e duas operações, devidas a queimaduras nos braços, causadas pelos raios X.
Sobreveio a guerra. O Dr. Infroit continuou a sua obra humanitária nos laboratórios do exército, que não ofereciam as mesmas garantias de segurança dos laboratórios normais. Em 1918 perdeu um dos mais preciosos instrumentos do seu trabalho: o seu braço direito, que foi amputado.
Não cessou, por isso, a sua indomável energia. Serviu-se do outro braço. Mas a sorte reservara o mais cruel e o mais injusto dos castigos: no ano seguinte foi amputado do punho esquerdo!
Horrivelmente mutilado, o sábio, substituindo por um aparelho as suas mãos ausentes, ainda continuou por algum tempo seu trabalho, dando ao seu ideal, a ciência, o pouco que lhe restava de vida, torturada por sofrimentos de mártir.
A sua existência foi toda de abnegação pela humanidade e o seu nome é digno da admiração mundial.
Ecoou por toda a parte a notícia dolorosa da sua morte, mas não teve essa notícia a expansão devida; por isso, era dever nosso ampliá-la, dando-lhe relevo da mais respeitável homenagem
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Texto de Mário de Lima, extraído do Minas Geraes, 16 de fevereiro de 1921, p5
A reabilitação de Jeca-tatu
Alberto Torres afirmou, em várias páginas de seus livros, notadamente no "Problema Nacional Brasileiro", a confiança que lhe despertavam a capacidade de trabalho e a resistência das formações étnicas constitutivas da população brasileira.
Falta-nos apenas organização, escrevia o eminente sociólogo. De fato, as qualidade naturais do nosso povo nem sempre se manifestam, em todo o seu vigor, pela ausência de orientação que as encaminhe pelo rumo mais consentâneo aos interesses da coletividade.
O egrégio pensador recordava a soma de energias despendida, nos tempos da escravidão, pelas nossas donas de casa; o excessivo labor do brasileiro, em todos os ramos das profissões liberais, representando um esforço contínuo maior que o dos profissionais europeus, os quais, em determinados períodos de férias, suspendem os seus trabalhos, fecham os seus gabinetes e escritórios para repousar.
Sobre o valor da energia latente do habitante dos nossos sertões não era outra a opinião de Euclides da Cunha.
Há poucos anos, o Sr. Monteiro Lobato, com o seu Jeca-tatu, veio, por instantes, contrariar esse conceito favorável ao caboclo brasileiro.
A página célebre dos "Urupês" deu a Ruy Barbosa uma repercussão nacional. Passado, porém, o primeiro momento, à generalização do escritor paulista opôs o Sr. Ildefonso Albano os seus embargos restritivos, na figura de Mané Chique-Chique, o sertanejo do norte. Outras contraditas apareceram no sul do país. E o próprio Sr. Monteiro Lobato reconheceu, nas páginas vibrantes do "Problema Vital", que a indolência do Jeca-tatu não era um produto da raça e sim a consequência de "um longo e ininterrupto estado de doença transmitido de pais a filhos e agravado dia por dia". E, no pequeno prefácio da 3.ª edição dos "Urupês", aproveitou o lance "para implorar perdão ao pobre Jeca". "Eu ignorava, escreve Monteiro Lobato, que eras assim, meu Tatú, por motivo de doença."
Hoje é com piedade infinita que te encara quem, naquele tempo, só via em ti um "mamparreio de marca".
Jeca-Tatu é, portanto, um caso mórbido e não o tipo normal das populações sertanejas. Convenientemente medicado, poderá transformar-se em valor econômico de primeira ordem. Não é visceral a sua inferioridade.
É apenas a resultante do meio endêmico em que vive e do abandono moral em que se tem encontrado, completamente esquecido, até bem pouco, pelos patrícios civilizados do litoral.
Não são raros os exemplos da perfeita adaptabilidade dos nossos caboclos e sertanejos a certos gêneros de atividade, em que nos habituamos, por um falso julgamento, a considerá-los inferiores aos estrangeiros.
Há, em S. Paulo, uma colônia dirigida pelos trapistas, que nos fornece a prova do asserto.
Em Tremembé, os religiosos da Trapa mantêm um verdadeiro laboratório de experimentação sociológica, no qual puderam apurar a injustiça do preconceito corrente em relação ao valor do trabalhador nacional.
Quando ali chegaram, há anos, encontraram os trapistas uma população enfermiça e indolente, incapaz do menor esforço e vivendo ao Deus dará. Pesava sobre ela a fatalidade de um meio físico hostil.
Os trapistas iniciaram, logo, com fervor apostólico, o serviço de saneamento da região. Curando das almas dos caipiras, não descuidavam de sua saúde.
Em período relativamente curto, confortadores foram os resultados conseguidos. Enrijou-se para a luta dos campos aquela gente até então enfraquecida pelas endemias. E prosperou, dentro em pouco, a agricultura na colônia de Tremembé, que é, hoje, no dizer de quantos a visitam, um dos núcleos agrícolas mais florescentes do país e, ao mesmo tempo, a afirmação pujante de quanto é capaz o braço brasileiro, quando revigorado pela regeneração física e por inteligentes processos educativos que lhe aproveitem, convenientemente, as energias adormecidas pelas doenças e pela ignorância.
É opinião dos trapistas que o trabalhador nacional não é excedido por nenhum outro. Um pouco de saneamento e um pouco de educação profissional conseguiram operar o milagre.
A alguns quilômetros desta capital, na Companhia Inglesa do Morro Velho, tem-se verificado, em outro gênero de trabalho, a resistência do operário brasileiro.
Ali trabalham, em maior número, operários italianos, espanhóis e nacionais. Estes em nada são inferiores aos outros. E, segundo parece, há serviços de natureza mais extenuante e perigosa, para os quais os nossos trabalhadores são inigualáveis.
Há poucos anos, tentaram os ingleses empregar no serviço da mina várias dezenas de japoneses. Estes, a despeito da famosa resistência física da raça nipônica, não puderam suportar o peso daqueles trabalhos. Foi uma experiência de poucos meses. E os brasileiros lá estão, vantajosamente competindo com os espanhóis e italianos.
Na Companhia Siderúrgica Mineira, não há muitos meses instalada em Sabará, tem sido posta à prova a inteligência do operário nacional.
Patrícios nossos, que não tiveram conveniente educação profissional, dão completo desempenho a incumbências de natureza técnica, revelando, assim, admirável inteligência.
Contou-nos um dos diretores da mesma Companhia que, há meses, havendo falta de práticos estrangeiros para desmontar, em cidade do Estado do Rio, uma complicação da máquina adquirida para a Siderúrgica, resolveu a diretoria escalar para tal fim alguns operários naturais de Sabará de onde jamais haviam saído. Esses operários desmontaram a máquina e, o que é mais, tornaram a montá-la, em Sabará, como se fossem velhos conhecedores daquelas engrenagens. A máquina funciona, desde então, perfeitamente.
Essa habilidade do operário nacional nem sempre chega a revelar-se, pela desconfiança com que, em regra, julgamos do valor de tudo que é nosso.
Em relação a certas ocupações, vamos decretando, preliminarmente, a incapacidade do trabalhador brasileiro.
Preferimos quase sempre, o estrangeiro, enlevados pelo prestígio de um nome arrevesado e pela crença, tantas vezes desmentida, de que o nacional não poderá concorrer com ele.
É necessário acabar com esse preconceito que tanto nos degrada. A valorização da nossa terra e da nossa gente deve ser a base do verdadeiro nacionalismo.
Continuemos a receber com deferência e carinho os estrangeiros que nos trazem o concurso do seu esforço e da sua inteligência. Nada de xenofobia, nada de jacobinismo, porque não podemos dispensar a colaboração alienígena.
Mas, acolhendo bem o estrangeiro, preocupemo-nos, desveladamente, com a reabilitação dos nossos patrícios, que, em estado hígido e com o treinamento necessário, não invejam os trabalhadores e operários de outras pátrias.
Livremos Jeca-tatu do anquilostomo, do "barbeiro", da anofelina e do analfabetismo, integrando-o na comunhão brasileira, de que ele tem vivido afastado por culpa nossa.
Serão milhões de braços e de inteligências conquistados à inação e à ignorância. Serão outras tantas forças econômicas concorrendo para a grandeza e a glória do Brasil. Esta deve ser a preocupação principal de uma campanha nacionalista bem orientada.
MARIO DE LIMA
Histórias atribuídas a D. Pedro II
Texto extraído do jornal Minas Geraes, 10 de fevereiro de 1921 (p. 2)
Anedotas atribuídas ao ex-imperador Pedro II
Andam agora na imprensa de Minas várias anedotas atribuídas a D. Pedro II e entre elas estão as seguintes:
O Dr. Chrispiniano Tavares, Baiano, formado em engenharia pela Escola de Ouro Preto e que residiu por muitos anos em Uberaba, foi, como muitos outros, afilhado de conta de S. M. (Sua Majestade).
O Dr. Chrispin, como era mais conhecido quando estudante, sempre que ia ao Rio, deixava sua primeira visita ao Imperador. Certa vez, descendo a gare da E. F. D. P. II (Estrada de Ferro Dom Pedro II), dirigiu-se ele ao Palácio, em trajes de viagem e, como nesse dia houvesse reunião de conselho, ali estavam ministros e conselheiros. O moço Chrispin teve a entrada sustentada pelo contínuo que não o conhecia. O rapaz porém forçou a entrada e colocou-se entre a porta e o sapateiro, à espera de que chegasse S. M. Estupefação geral. Os conselheiros e ministros entreolharam-se e como que indignados da intrusa visita, murmuravam talvez sobre a insolência e o descaro do impertinente sem lhes dirigirem a palavra todavia. Eis que aparece S. M. que ao avistá-lo narra a atração:
— Como vai você, meu bom Chrispin?... Já sei, já sei: trouxe-me as notas da Escola; dez-me, onze-me, doze-me... Dá-me um abraço e venha ver o Imperador que mais saudades de ti. Já sei, já sei: vem dar-nos o prazer da hospedagem conosco, sê bem-vindo, etc., etc.
O pessoal grande que até então se mantivera rancoroso com o suposto intruso, levantou-se e foi numa hora apertar-lhe a mão, dando as boas-vindas e congratulando-se com S. M. pelos esforços feitos pela sua proteção e pelas brilhantes notas adquiridas na Escola de Ouro Preto.
O Dr. Chrispin morreu assassinadono Rio Verde, Goiás, sendo o fato que acabo de relatar conhecido em toda Uberaba.
Na inauguração de uma ponte entre o Tietê e Porto Feliz, achava-se presente o imperador Pedro II. Depois dos festejos, o monarca foi visitar a antiga escola do professor Julião Ferraz. Este mestre, já bem velho, para mostrar aos soberanos o preparo dos seus alunos, perguntou aos meninos João Bâmara e Salvador Filardi:
— Qual de vocês dois é capaz de dizer o nome do nosso Imperador?
João, sendo mais ativo que o Salvador, vendo ao lado do monarca o veterano do Paraguai, Sr. Sebastião Toledo e, julgando haver parentesco entre eles, respondeu:
— Eu sei, é... é D. Pedro II de Toledo.
O professor errou, mas D. Pedro riu gostosamente.
Visitando a cadeia de Tietê, D. Pedro II manifestou o desejo de conhecer a prisão dos loucos. Sendo conduzido a esse recinto pelo carcereiro João do Amaral Castro, o monarca foi surpreendido por um louco que lhe bateu nos ombros e disse:
— Tolo, tu estás mais louco do que eu!
sábado, 27 de junho de 2026
O Exílio das Sombras Familiares
Esta história aconteceu de fato comigo hoje, sábado, 27 de junho de 2026
domingo, 29 de março de 2026
O Óculos de Enxergar o Invisível (ou: Para que Serve a Filosofia, Afinal?)
Sabe, outro dia eu estava pensando: muita gente acredita que Filosofia é coisa de quem vive no mundo da lua, batendo papo com Platão e Aristóteles enquanto a vida real passa lá fora. Uma espécie de esporte olímpico para o cérebro, cheio de regras complicadas e utilidade zero.
Mas, caríssimo leitor, se olharmos com atenção, a Filosofia não é um bicho de sete cabeças. Ela (assim como as outras ciências também) é mais como um par de óculos especial. Um par de óculos que, quando a gente coloca, o mundo para de ser "assim mesmo" e passa a ser "por que é assim?". É a recusa ciente de se satisfazer com o mínimo, com a resposta pronta, com a explicação que o vizinho deu ou que a TV repetiu. Filosofia é a arte de fazer perguntas incômodas e ter a coragem de procurar respostas que, às vezes, nem existem — ou, se existem, são bem mais complexas do que gostaríamos.
Chauí já dizia que é uma "disposição interior", um desejo de saber. Não é algo distante, não. Filosofar é o sujeito conseguir ler a realidade e, a partir dali, rabiscar seu próprio pensamento. É o contrário de ser um robô repetidor de frases de efeito. Qualquer um pode filosofar? Sim! Mas, atenção: nem tudo é Filosofia. Não basta sair por aí dando palpites. É preciso transformar a afirmação chata numa interrogação curiosa. É preciso ver o mundo de um jeito diferente.
Aí você me pergunta: "E o que isso tem a ver com o Assistente Social?". Eu lhe respondo: Tudo! O trabalho desse profissional exige argumentos, exige uma visão que enxergue além do óbvio, além da ficha cadastral. A Filosofia é o antídoto contra o conformismo, contra o olhar preguiçoso que se acostuma com a injustiça. É ela que ajuda a formar um olhar cada vez mais interrogador sobre a realidade que grita na porta.
Pense em Platão. O homem elaborou sua teoria no meio de uma crise pesada em Atenas. Ele olhava para a bagunça e se perguntava: "Como seria a cidade ideal?". Buscava o Bem não como algo abstrato, mas como uma ideia para ser vivida por todos. Ao ler sua obra, a gente topa com o conceito de cidadania. E cidadania, leitor, não é só ter um documento. É ter a liberdade de ir e vir, de participar, de ser.
É exatamente aqui que a Filosofia aperta o cinto do Assistente Social. Quando estamos lutando para mostrar que uma pessoa com deficiência visual pode fazer tudo — lógico, com as dificuldades naturais, mas com os direitos assegurados —, estamos fazendo Filosofia pura. Estamos questionando a exclusão. Estamos enxergando a cidadania que o mundo, muitas vezes, faz questão de tornar invisível.
Aristóteles, o outro "gigante", acreditava que o que formava a cidade era justamente a diferença. E quando uma pessoa não tem direito à cidadania, quando ela é invisibilizada, ela se isola. O isolamento pode levar à depressão, e a depressão, sabemos, pode até matar. O papel do Assistente Social é, portanto, o de um "anti-isolante". Não permitir a exclusão, mas brigar pela inclusão. Porque quando você está incluído, você não está só. Você cria motivos para superar.
E para fazer tudo isso, caríssimo leitor, precisa de persuasão. Uma persuasão boa, construtiva, que mude as coisas sem machucar o outro. E é com a Filosofia que aprendemos a melhor forma de fazer isso. Não é gritar, não é impor; é saber fazer a pergunta certa que ilumina o caminho da mudança.
Questões antropológica
“No
sábado, 12.9, chegada à Nova Guiné. Pela manhã, viam-se as montanhas enevoadas
a distância. Uma cordilheira muito alta atrás das nuvens, com várias outras
cordilheiras abaixo dela. Penhascos rochosos chegando até o mar. O vento estava
bastante frio. Ao largo, um recife de coral, os destroços do Merry England a
minha direita. Um morro atrás do qual fica Port Moresby. Eu me sentia cansado e
vazio por dentro, de forma que minha impressão foi muito vaga. Entramos no
porto e esperamos o médico, um homem de cabelos escuros, gordo e desagradável.
Deixei minhas coisas no camarote e desembarquei. [...] Na aldeia [...], os
anciãos haviam se reunido para me passar informações. Agacharam-se em fila ao
longo da parede, carapinhas sobre torsos negros, vestidos com camisas velhas e
rasgadas, roupas de caça remendadas e pedaços de uniformes caqui, e sob essas
vestimentas civilizadas se entreviam sibis, uma espécie de cinto que cobre as
costas e partes adjacentes do corpo. O cachimbo de bambu circulou rapidamente.
Um pouco intimidado por esse conclave, sentei-me à mesa e abri um livro.
Consegui informações sobre iduhu, genealogia, perguntei sobre o chefe da
aldeia, etc. ao crepúsculo, os anciãos partiram.” (MALINOWSKI, Bronislaw. Um diário no sentido estrito. Rio de
Janeiro: Record, 1997. P.46-47)
O
trecho acima é uma transcrição literal do diário de campo de Malinowski.
Considerado o responsável pela sistematização metodológica da pesquisa
antropológica e por salientar que os dados coletados deveriam ser registrados
em um diário de campo para que o material pudesse ser rememorado. Avalie as
informações abaixo sobre o diário de campo como instrumento de pesquisa de
análise antropológico.
I –
O diário de campo surgiu como método de pesquisa inicialmente no campo da
antropologia (amplamente utilizado em pesquisas etnográficas). Pode ser
descritivo ou reflexivo. No primeiro caso, busca captar uma imagem da
realidade, com seu máximo detalhamento No segundo caso, busca-se apreender o
ponto de vista do observador, suas percepções, suas ideias e preocupações.
II -
O diário de campo permite anotar todos
os detalhes observados no cotidiano da tribo, observar as regularidades da vida
tribal, assim como seus imponderáveis, buscar apreender apenas a organização
social, desconsiderando a sua visão de mundo do grupo estudado.
II
- Todos os detalhes observados devem ser registrados em um diário de campo pelo
antropólogo, sobretudo o contexto no qual o observador recolheu o dado,
constituindo-se o material bruto, de onde, depois de analisados e
interpretados, irão tomar a forma textual de uma descrição o mais densa
possível e que recebe o nome de etnografia.
IV –
O diário de campo não deve ser combinado com outras técnicas de investigação,
isto por que não contribuirá para o aprofundamento da busca de informações e
não garantirá a coerência do conjunto de técnicas conceituais e princípios metodológicos
que fundamentam as práticas sociais em
questão.
É
correto apenas o que se afirmam em
A) I e II
B)
I e III
C)
II e III
D)
II e IV
E)
III e IV
Fonte
da imagem: disponível no site: <http://1.bp.blogspot.com/-K_0NDpm4bIg/Uf58S6I20TI/AAAAAAAAAJ8/ZtK639Vc5ig/s640/diversidade+cultural.jpg>, acessado em março de 2015.
Etnocentrismo
é um preconceito que cada sociedade ou cada cultura produz ao mesmo tempo em
que procura incutir, em seus membros, normas e valores peculiares. Se sua
maneira de ser e proceder é a certa, então as outras estão erradas, e as
sociedades que as adotam constituem “aberrações”. Assim o etnocentrismo julga
os outros povos e culturas pelos padrões da própria sociedade, que servem para
aferir até que ponto são corretos e humanos os costumes alheios. Desse modo, a
identificação de um indivíduo com sua sociedade induz à rejeição das outras. O
idioma estrangeiro parece “enrolado” e ridículo; seus alimentos, asquerosos;
sua maneira de trajar, extravagante ou indecente; seus deuses, demônios; seus
cultos, abominações; sua moral, uma perversão etc.
Correlacionando
a charge e o texto avalie as informações a seguir.
I - O fato
de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a
propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural
e é responsável por muitos conflitos sociais.
II - O olhar
etnocêntrico considera que cada escolha cultural não pode estar subordinada a
uma perspectiva cultural e significa que nenhum sistema social-cultural pode
ser considerado como certo ou adequado.
III - O
etnocentrismo é um preconceito, e suas derivações doutrinárias (racismo,
evolucionismo cultural etc.) são ideologias (consciência falsa e falsa
ciência), o relativismo cultural pertence à esfera da ciência.
IV – O etnocentrismo é uma crença relativista que impossibilita determinar um
grupo como superior em relação aos demais e pode tomar formas perigosas e socialmente destrutivas.
É correto
apenas o que se afirma em
A) III e IV
B) II e IV
C) I e IV
D) II e III
E) I, III
Italo
Calvino escreveu em sua obra Seis
propostas para o próximo milênio: “(...) quem somos nós, quem é cada um de
nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de
imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de
objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e
reordenado de todas as maneiras” (CALVINO, Itálo. Seis propostas para o próximo milênio: Lições Americanas. Trad. Ivo
Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 138).
Analisando
essa afirmação de Calvino, podemos deduzir que na realidade o ser humano é
produto da cultura ao mesmo tempo que ajuda a produzir a cultura na qual está
inserido.
PORQUE
De
acordo com a antropologia, o conceito de cultura é uma expressão simbólica das
linguagens, da imensa diversidade que caracteriza o processo e os modos como os
povos definem as suas identidades. A cultura é um elemento fundamental de
resgate dos valores sem os quais a experiência humana torna-se uma experiência
empobrecida e amarga
A respeito dessas asserções, assinale a opção correta
A)
As duas asserções são proposições verdadeiras e a segunda
é uma justificativa correta da primeira.
B)
As duas asserções são
proposições verdadeiras, mas a segunda não é uma justificativa correta da
primeira;
C)
A primeira asserção é
uma proposição verdadeira e a segunda uma proposição falsa.
D)
A primeira asserção é
uma proposição falsa e a segunda uma proposição verdadeira
E)
Tanto a primeira
quanto a segunda asserções são proposições falsas.
O mundo é pequeno pra
caramba\ Tem alemão, italiano e italiana\ O mundo filé milanesa\ Tem coreano, japonês e japonesa\ O mundo é uma salada russa\ Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia\ O mundo é uma esfiha de carne \Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire\ O mundo é azul lá de cima \O mundo é vermelho na China\ O mundo tá muito gripado\ O açúcar é doce, o sal é salgado\ O mundo caquinho de vidro\ Tá cego do olho, tá surdo do ouvido \O mundo tá muito doente \O homem que mata, o homem que mente\ Por que você me trata mal \Se eu te trato bem \Por que você me faz o mal \Se eu só te faço o bem \Todos somos filhos de Deus \Só não falamos as mesmas línguas \Todos
somos filhos de Deus \Só não falamos
as mesmas línguas \ Everybody is
filhos de God \Só não falamos as
mesmas línguas \Everybody is filhos de
Ghandi \Só não falamos as mesmas
línguas
A canção O mundo de
de Andre Abujamra (gravada originalmente pelo grupo Karnak)
reproduzida acima mostra uma série de questões e temas trabalhados pela
antropologia cultural, entre eles, podemos citar os conceitos de
etnocentrismo e relativismo cultural, ambos muito em voga nos dias de hoje, uma
vez que vivemos num mundo globalizado. Tais conceitos estão relacionados ao
exercício da tolerância entre os povos. Isto é algo extremamente imprescindível
para a construção de um mundo sem violências, espacialmente mais humanizado,
apesar das diferenças geográficas e, principalmente, culturais.
Nessa perspectiva, podemos afirmar que:
A) a letra da música mostra um comportamento pouco comum conhecido como apatia, ou sejam há a negação da superestima dos valores de sua própria sociedade e a perda da motivação que os mantém os grupos culturais unidos.
B) a letra da música reafirma uma série de preconceitos etnocêntricos e o autor desconhece o princípio do relativismo cultural. Pois, nos exemplos citados, não há a defesa do direito de outros de conservar a sua própria cultura frente o processo de aculturamento.
C) de acordo com a letra da música, é possível afirmar que não há culturas superiores nem inferiores (relativismo cultural). Os sistemas de valores devem compreender-se dentro do contexto de cada cultura e não de acordo com os padrões da cultura do antropólogo.
D) a ideia central da letra da música é o conceito de etnocentrismo. Ideia fundada no fato de que todos os sistemas culturais não são essencialmente iguais em relação ao seu valor, e as diferenças entre as diversas sociedades surgiram como resultado de suas próprias condições históricas, sociais e / geográficas.
E)
a letra da
música faz referência direta ao conceito de aculturação que pode ser definido
como o processo pelo qual duas ou mais culturas diferentes, entrando em contato
contínuo, originam mudanças importantes em uma delas ou em ambas.
Associe as duas colunas, relacionando o conceito
ao seu significado
Conceitos
(1) Antropologia Cultural
(2) Cultura
(3) Espaço Social
(4) Adaptação
(5) Assimilação
Significados
(___) Totalidade de padrões aprendidos e
desenvolvidos pelo ser humano. É um complexo
que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer
outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade
(___) É uma espécie de universo constituído
pela população humana. É totalmente contrário do espaço geográfico, cuja
existência de seres humanos é indiferente.
(___) É o ajustamento biológico do ser
humano em relação ao ambiente físico em que vive. Pode ser também aplicado à
vida em sociedade, que ocasiona o surgimento de certo denominador comum entre
os componentes de uma sociedade particular, certo grau de adesão e conformidade
às normas estabelecidas, que são variáveis de acordo com a margem de liberdade
e de autonomia que o meio social permite ao indivíduo.
(___) Processo social em virtude do qual indivíduos e grupos
diferentes aceitam e adquirem padrões comportamentais, tradição, sentimentos e
atitudes de outra parte. É um ajustamento interno e indício da integração
sócio-cultural, ocorrendo principalmente nas populações que reúnem grupos
diferentes.
(___) Abordagem integrativa que objetiva
levar em consideração as múltiplas dimensões do ser humano em sociedade, isto é
como ser biológico, social e cultural. É uma forma de conhecimento sobre a
diversidade cultural.
A sequência correta dessa associação é
A)
(2)(3)(4)(5)(1)
B)
(1)(2)(3)(4)(5)
C)
(3)(2)(4)(1)(5)
D)
(4)(2)(1)(3)(5)
E)
(5)(1)(2)(4)(3)
Gabarito
1 B
2 E
3 A
4 C
4 A






