quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Casa Tem Memória: Resgatando um Conto Afetivo dos Tempos de Quinta Série






Uma pequena história para leitores pequenos: Casa tem história?

Como vocês já devem saber, me chamo Ronaldo Campos e trago o magistério no sangue desde o início dos anos noventa. Hoje, ao olhar pelo retrovisor da vida — e mesmo com quase duas décadas de caminhada no Ensino Superior —, sei que o meu canto preferido sempre foi o Ensino Fundamental.

Que orgulho guardo dos quase dez anos em que fui professor da quinta série! Revendo fotografias daquela época, em que eu transitava entre o papel de mestre e o carinho de "tio", fui invadido pela saudade. Lembrei-me de quando gestamos o projeto “Casa tem memória”. Para disparar o gatilho da curiosidade da turma — ou “detonar” o projeto, no nosso vocabulário da época —, escrevi um texto que hoje percebo ter alma de conto infantil. É essa memória afetiva que quero resgatar e compartilhar aqui com vocês.

Casa tem história?

Texto escrito por Ronaldo Campos


Olá! Meu nome é Maria. Vou contar uma história que é muito valiosa para mim. É do tempo em que era bem pequena. Naquela época, tinha só sete anos e tudo que vou contar  aconteceu comigo do jeitinho que escrevi. Vocês podem pensar que era muito pequena e inventei tudo isso, mas vão logo, logo, descobrir que sempre fui muito esperta e inteligente.

Hoje, tenho onze anos e estou na quinta série. Moro numa casa muito bonita que fica num condomínio, numa região chamada Vale do Sereno, em Nova Lima, Minas Gerais. A minha casa é grandona e confortável. Meu pai diz que é muito moderna e funcional. Eu nem sei direito o que é isso, viu?

As casas lá foram construídas seguindo algumas regrinhas do condomínio. Cada proprietário foi avisado que devia seguir umas normas. É por isso, talvez, que lá todas as casas são bem parecidas, mesmo tendo suas diferenças.

Na época em que tinha só sete anos, todos os meses, os meus pais me levavam até a casa da minha bisavó. A casa dela ficava num lugar conhecido como Renascença. É um bairro tradicional de Belo Horizonte, surgido em torno de uma famosa fábrica de tecidos. É um lugar com ares de cidade do interior, mesmo estando tão próximo da região central da capital mineira. Minha mãe sempre falava que estávamos indo para a região Nordeste da cidade. Só mais tarde, nas aulas de geografia, que descobri o que era essa tal região nordeste. O que sei é que no bairro da minha bisa era cheio de  ruas tortas e quase não havia prédios grandes. Dominavam  casas. 

A rua onde ficava a casa da minha bisa parecia uma montanha-russa, de tanto sobe e desce. O bairro inteiro era assim, com ruas que subiam e desciam. A calçada estava sempre muito limpa. Era comum as pessoas acordarem cedo e elas mesmas varrerem as folhas secas, uns papeizinhos e algum lixo que um desavisado resolveu jogar ali mesmo.

Nesse lugar, cada casa tem uma forma, um tamanho e um jeito diferente. Umas são coloridas, com muitos detalhes nas fachadas. Estreitas ou largas. Novas ou velhas. Outras, tão simples que mais pareciam com os sólidos geométricos do livro de matemática. E há outras ainda que misturam curvas e linhas. Algumas com jardim na frente da casa; outras com varandas e alpendres. Todas com quintais no fundo.

A minha bisa falava que a casa da dona Iraci, a vizinha da frente, “não tem eira nem beira” – que coisa engraçada de se falar! E que o seu Joaquim fez uma casa que parece um palácio, por dentro e por fora.

Certa vez, minha mãe disse:

— Eu gosto muito daqui! Tive uma infância maravilhosa! A Renascença é um lugar que tem história!

Desde então, eu não parei de pensar naquilo que mamãe falou. Como um lugar pode ter história? Uma casa tem memórias, tem lembranças? Por acaso, uma casa tem vida, tem alma? Como deve ser a vida de uma casa?

A Casa com Alma

Minha bisa também se chama Maria, mas ela é Maria do Carmo e eu sou Maria Júlia. A casa dela é muito especial! Lá, não havia grandes muros ou equipamentos modernos de segurança. Não tinha nem porteiros, como nos prédios em que meus tios moravam. O que separava uma casa da outra era um muro bem baixinho. Era tão baixo que eu podia ver do outro lado!

Naquela casa, viviam a minha bisa e uma tia-avó que se chama Doralice. A casa em que viveram toda a vida era bem simples, mas ao mesmo tempo muito especial. Toda pintada de azul, com detalhes em branco, com suas belas floreiras e as jardineiras bem pertinho da fachada.

Nas floreiras, sempre muito bem cuidadas, eram cultivadas umas flores chamadas Bela Emília, também conhecidas como Jasmim-azul. Elas são muito pequenas, com cinco pétalas delicadas e arredondadas, que se agrupam em pequenos buquês nas pontas dos ramos. A cor mais comum é um azul-claro vibrante. Além da beleza, as flores da Bela Emília atraíam muitas borboletas e abelhas. A floração ocorria por quase todo o ano, mas era mais intensa da primavera ao final do outono. O que deixava a casa ainda mais bonita!

Nas jardineiras, o grande destaque era o Manacá-de-Cheiro. Principalmente entre setembro e outubro, ocorria a sua floração. Nessa época, ficava tudo uma lindeza só! Isso porque as flores dele mudam de cor, do roxo ao azul até chegarem ao branco. As flores eram um verdadeiro tesouro e muito perfumadas.

O Grande Segredo das Casas

No dia da visita, a minha animação transbordava! Era tanta ansiedade que a viagem do condomínio até o bairro Renascença parecia não ter fim.

Ao chegarmos, saltava rapidamente do carro. Atravessava o portão e o jardim como um foguete. E pulava nos braços da minha bisa e dei um abraço tão forte nela que parecia que eu podia segurar o tempo.

Passado algum tempo, com todos já acomodados na sala conversando, fui para o jardim. Queria observar bem a casa. Prestar atenção em cada detalhe. Eu ia descobrir o segredo daquela casa!

Depois de muito observar, não consegui chegar a uma conclusão. Não entendia por que aquela casa (e as outras também) tinham tanta história. Foi então que resolvi pular o pequeno muro que dividia a casa da minha bisa e perguntar para a dona Amélia por que a casa dela tinha tanta vida.

Dona Amélia estava sentada na varanda, ocupada com um cachecol de tricô que fazia para a sua neta que estava na Inglaterra. De uma vez só, fiz a pergunta. Calmamente, ela me disse que as casas daquela vizinhança já viveram muito. Presenciaram as transformações. Viram cada morador chegar e fazer daquele lugar um lar onde os filhos cresceram.

Ainda não satisfeita com a resposta, fui, sem que os adultos vissem, até a casa do seu Joaquim — aquela que minha bisa dizia ser um palácio. Ele estava cuidando do seu jardim quando perguntei por que a sua casa era tão especial. Ele me disse que era porque o amor fez parte de cada pedacinho dela: formou cada cantinho e aqueceu a vida de todos aqueles que lá viveram.

Ouvindo a nossa conversa, aproximaram-se as irmãs Ana e Anita. Elas viviam na casa ao lado da do seu Joaquim. Ana se casou e teve uma vida feliz; seu marido faleceu há alguns anos, mas ela seguiu cercada pelo carinho dos filhos. Anita não se casou: viajou pelo mundo como jornalista. Hoje, moram juntas e se apoiam mutuamente. Naquele dia, estavam acompanhadas de Dona Josefina e de sua irmã mais nova, Rosa Maria.

Elas entraram na nossa conversa e disseram que a casa guarda os sentimentos de quem viveu nela — por isso a gente sente aquele aconchego quando entra. Dona Josefina completou dizendo que uma casa reflete a alma das pessoas que vivem nela. Cada casa tem o seu espírito protetor, que afasta tudo de mau ou negativo da vida dos moradores. Esse espírito vive praticamente para sempre: só desaparece quando os moradores se vão e a casa é demolida.

Rosa Maria, por sua vez, afirmou que a casa era como uma árvore frondosa — uma mangueira, um jatobá ou uma paineira. Do mesmo modo que uma árvore fincada no solo, a casa também cria raízes profundas, não na terra, mas nas vidas daqueles que a habitam. Seus alicerces são como o tronco forte que sustenta os galhos, onde cada cômodo se abre como uma folha em busca da luz, testemunhando o crescimento, as mudanças e as estações da vida. E assim como os anéis do tronco contam a idade da árvore, as marcas nas paredes, os arranhões no chão e os risos que ecoam pelos corredores revelam as histórias e os amores que ali floresceram ao longo do tempo.

A Grande Descoberta da Maria

Diante de tantas ideias, tão diferentes e ao mesmo tempo tão complementares, fiquei confusa. Amor? Família? Memórias? Sentimentos! Isso era tudo tão... de gente grande! Mas eu era esperta, não era? E se o segredo não estivesse nas casas, mas nas pessoas que viviam nelas?

Voltei para o jardim da bisa, pensativa. Sentei-me perto das Belas Emílias, que balançavam levemente com a brisa, como se estivessem cochichando segredos. De repente, um barulho! Era a bisa, na cozinha, cantarolando uma música antiga enquanto preparava o lanche. O cheirinho de bolo assado invadiu o ar, e eu sorri.

Então vi a tia-avó, sentada na sala, olhando um álbum de fotografias. As fotos estavam um pouco amareladas, mas ela sorria para cada uma delas, lembrando histórias de quando eram crianças, de festas e de Natais naquela mesma sala.

Olhei para o pequeno muro novamente. Podia ver a dona Amélia terminando o cachecol, imaginando o sorriso da neta do outro lado do mundo. E o seu Joaquim, lá no jardim, podando as roseiras com tanto carinho, como se cada flor fosse um pedacinho de sua própria história. Da casa das irmãs, ouvia-se uma melodia bonita tocada no piano por uma delas, enquanto as outras acompanhavam cantarolando.

Foi aí que entendi! As casas do Vale do Sereno, no condomínio, eram bonitas, modernas e funcionais, como dizia o pai. Mas eram... ainda um pouco incompletas; ou melhor, estavam em formação. Eram como sementes que estavam germinando. Algumas já tinham folhas e suas raízes começavam a ficar mais firmes. Outras já davam flores e frutos. Havia vazios, covas que ainda não foram semeadas. Esses vazios não eram de coisas ou móveis, claro, mas de gente que as tornasse cheias de vida. Algumas ainda estavam esperando que suas histórias começassem. Outras (como a minha própria casa) ainda estavam começando a tecer histórias.

Já as casas da Renascença... ah, essas sim! Elas não eram especiais só por serem coloridas, com varandas ou quintais. Não! Eram especiais porque estavam repletas de risadas, de conversas fiadas, de abraços apertados, de brigas de irmão e de cheiro de bolo no forno. Guardavam os segredos contados baixinho, as lágrimas choradas no ombro amigo e os sonhos sonhados em noites de chuva.

As casas eram como grandes potes de memórias, cheios até a tampa com os sentimentos de cada pessoa que morou ali. A Bela Emília e o Manacá-de-Cheiro não eram só flores; eram as testemunhas perfumadas de tudo isso! As calçadas limpas não eram só por causa da vassoura, mas porque cada um que varria estava cuidando do pedaço de chão onde a sua vida acontecia.

Levantei-me com os olhos brilhando. Corri de volta para a sala, onde a bisa e a mãe conversavam.

— Mamãe! Bisa! Eu descobri! — exclamei, com a voz cheia de alegria. — As casas não têm vida sozinhas! Quem dá vida para elas somos nós! É o amor, as lembranças, as risadas, as histórias que a gente vive dentro delas!

Minha mãe sorriu, orgulhosa. A bisa piscou um olho, como se dissesse: "Eu sabia que você ia descobrir, minha esperta!"

E eu percebi que, para uma casa ser especial, ela não precisava ser um palácio, nem ter a última moda em tecnologia. Ela só precisava ter coração. E o coração de uma casa, eu havia descoberto, era feito do coração das pessoas que a chamavam de lar. E isso, ah, isso era o segredo mais lindo de todos!

Trabalhando o Hino da Independência em Sala de Aula: Uma Análise Crítica e Histórica





 Trabalhar os símbolos nacionais em sala de aula pode ir muito além da memorização das letras ou da execução do hino no pátio da escola. Recentemente, desenvolvi com meus alunos uma proposta didática para analisar criticamente o Hino da Independência do Brasil (com letra de Evaristo da Veiga e música de Dom Pedro I).

O objetivo principal foi conectar a linguagem poética do hino ao seu contexto histórico real, incentivando os estudantes a questionarem quem eram os sujeitos históricos incluídos — e excluídos — naquele projeto de nação, além de refletirem sobre os "grilhões" do passado e do presente.

Abaixo, compartilho o roteiro de questões aplicado em sala acompanhado do gabarito comentado que resultou deste trabalho. Sinta-se à vontade para salvar, adaptar e utilizar com as suas turmas!




 Roteiro de Atividades e Gabarito Comentado



I. Análise da Linguagem e Mensagem Central

1. A primeira estrofe diz: "Já raiou a liberdade / No horizonte do Brasil". Que ideais de liberdade essa frase sugere para o período da Independência? A liberdade, nesse contexto, era para todos?

  • Ideais: A frase sugere a ruptura com o domínio colonial português, a conquista da autonomia política e o surgimento de uma nova nação soberana.

  • Para todos? Não. A liberdade proclamada atendia prioritariamente à elite agrária e comercial brasileira, interessada em maior autonomia econômica e política. Escravizados, povos indígenas e a grande maioria da população pobre (branca ou mestiça) não experimentaram essa liberdade nem tiveram suas condições materiais de vida alteradas.

2. O refrão convoca a "Brava gente brasileira" a deixar o "temor servil". O que seria esse "temor servil"? Contra quem ou o quê os brasileiros deveriam ser bravos, segundo o hino?

  • "Temor servil": Refere-se à submissão em relação à Coroa Portuguesa e ao sistema colonial. Era o medo de confrontar a metrópole ou de hesitar na luta pela autonomia.

  • Bravos contra: A "gente brasileira" deveria demonstrar bravura contra a dominação portuguesa, contra qualquer tentativa das Cortes de Portugal de reverter a autonomia conquistada e contra aqueles que hesitassem em defender a causa da independência.

3. A terceira estrofe menciona "Os grilhões que nos forjava / Da perfídia astuto ardil". Quais "grilhões" o hino se refere? Quem seria o responsável por esse "astuto ardil" e como ele foi "zombado" pelo Brasil?

  • "Grilhões": Simbolizam as restrições e imposições do sistema colonial português, como o Pacto Colonial (monopólio comercial, cobrança de impostos e limitações ao desenvolvimento de indústrias locais).

  • Responsável pelo "astuto ardil": A Coroa Portuguesa e seus representantes, que articulavam para manter o Brasil na condição de colônia.

  • "Zombado pelo Brasil": Significa que o Brasil conseguiu superar a dominação e frustrar as intenções recolonizadoras, consolidando sua autonomia.

4. Na quarta estrofe, o hino fala em "Não temais ímpias falanges / Que apresentam face hostil". Que grupos ou nações poderiam ser representados por essas "ímpias falanges" no contexto da Independência do Brasil?

  • "Ímpias falanges": Representam, sobretudo, as forças militares portuguesas que resistiram ao processo de independência no território nacional, além do próprio governo de Portugal. Em uma perspectiva mais ampla, estende-se a qualquer nação que pudesse ameaçar a soberania do recém-criado Império do Brasil.

II. Contexto Histórico e Sociedade

1. O hino foi escrito em um período de grande efervescência política. Pesquisem e expliquem brevemente qual era a situação política de Portugal e do Brasil no início do século XIX que levou ao processo de Independência.

  • Portugal: Enfrentava a Revolução Liberal do Porto (1820), que exigia o retorno de D. João VI à Europa e a recolonização do Brasil, propondo a restauração do Pacto Colonial.

  • Brasil: Havia sido elevado à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. A elite brasileira, adaptada à autonomia administrativa e econômica conquistada desde 1808, reagiu negativamente às pressões de Lisboa. D. Pedro I, na condição de príncipe regente, foi pressionado a liderar o movimento de separação definitiva.

2. A letra do hino exalta o "povo brasileiro". No entanto, quem era considerado "povo" nesse período? Quais grupos sociais foram incluídos e quais foram excluídos do processo de Independência?

  • O "povo": No discurso oficial e político da época, o termo referia-se prioritariamente à elite letrada, aos grandes proprietários de terras e aos comerciantes de destaque.

  • Incluídos (beneficiados): A elite agrária (latifundiários), os grandes comerciantes e setores do clero, que preservaram suas estruturas de poder, privilégios e a manutenção do trabalho escravo.

  • Excluídos: A maioria absoluta da população: escravizados (que permaneceram sob o regime de cativeiro), povos indígenas (que continuaram perdendo suas terras), libertos, pequenos agricultores e a população pobre urbana e rural.

3. O refrão apresenta uma escolha radical: "Ou ficar a Pátria livre / Ou morrer pelo Brasil". Que tipo de sentimento nacionalista o hino busca despertar? Comparem esse sentimento com outras manifestações de nacionalismo na história do Brasil.

  • Sentimento nacionalista: Desperta um nacionalismo de caráter ufanista e combativo, exigindo lealdade e sacrifício pessoal em nome da defesa da soberania nacional.

  • Comparações históricas:

    • Estado Novo (Era Vargas): Nacionalismo voltado para a integração nacional, valorização da cultura ufanista e o desenvolvimento industrial do Estado.

    • Ditadura Militar: Enfatizava a segurança nacional, o ufanismo ("Brasil: Ame-o ou deixe-o") e o desenvolvimento subordinado ao regime.

    • Nacionalismo Cívico/Democrático: Movimentos pela redemocratização (como as Diretas Já) e lutas por direitos sociais, onde o pertencimento nacional se traduz na busca por cidadania.

III. Simbolismo e Perspectivas Atuais

1. A última estrofe celebra: "Do universo entre as nações / Resplandece a do Brasil". O que essa afirmação revela sobre as expectativas para o Brasil recém-independente?

  • Expectativas e ambições: Revela o desejo de inserção do Brasil como uma nação de destaque e prestígio no cenário internacional. Havia o ideal de construir um país grandioso, que superasse a imagem de mera colônia explorada.

Em um segundo momento, perguntei a turma se  o Hino da Independência fosse escrito hoje, o que eles acham que seria mantido e o que seria mudado na letra? Quais novas "liberdades" poderiam ser cantadas e quais "grilhões" modernos seriam mencionados?

A turma gostou muito de responder essa questão. Estavam tão empolgados que ficava difícil entender e anotar tudo que falavam. Mas, no final, tivemos esse resultado:
  • Mantido: Os ideais de soberania, amor à terra e a valorização da determinação do povo.

  • Mudado: Atualização da linguagem poética oitocentista e maior inclusão da pluralidade social e cultural do povo brasileiro.

  • Novas "liberdades": Liberdade de expressão, justiça social, equidade racial e de gênero, acesso pleno à cidadania e preservação ambiental.

  • "Grilhões" modernos: A desigualdade social e econômica, a corrupção, a violência urbana, o preconceito e o racismo estrutural, a degradação ambiental e a polarização social.

Em outro momento, busquei trazer para os dias de hoje a discussão a partir da seguinte questão:

 Como a letra do Hino da Independência pode nos ajudar a entender desafios e conquistas da sociedade brasileira atual?

Um resumo do que falaram está apresentado a seguir:
  • Conquistas: A preservação da integridade territorial, o fortalecimento da autonomia política e a contínua construção de uma identidade nacional diversa.

  • Desafios: A persistência de abismos sociais nos lembra que a "liberdade" e a cidadania plena ainda não alcançam a todos. O hino nos ajuda a compreender que a independência não foi um evento isolado em 1822, mas sim um processo contínuo de construção de um país justo e democrático.


Ao aplicar essa atividade em sala, recomendo realizar a leitura compartilhada da letra original ou até mesmo reproduzir uma gravação do hino para os alunos acompanharem a métrica antes das discussões.

Dividir os estudantes em grupos para discutirem as questões  costuma gerar debates extremamente ricos sobre cidadania e o papel dos jovens na sociedade de hoje!


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Práticas Exitosas (e Outras Aventuras Docentes) - parte 1




 


A República do café com pão de queijo


Professor de História em escola pública é, antes de tudo, um profissional muito criativo e com muita fé. Quando Edva, a minha colega de área, me procurou no corredor para anunciar que faria uma atividade "diferente" sobre a Política do Café com Leite, meu lado cético acendeu uma luz amarela no painel.

O cenário escolhido para a empreitada foi a nossa majestosa biblioteca do Instituto de Educação. Digo majestosa porque, ao menos até esta atual reforma, o espaço era gigantesco. Tinha sala de reuniões com cara de auditório e uma área de consulta recheada de mesas e cadeiras daquelas de madeira tão pesada que parecem ter sido esculpidas no próprio século XIX. Vale dizer que o prédio passará por uma grande reviravolta: a biblioteca vai mudar de lugar e voltar para a ala direita, recuperando o layout de antes do incêndio de 1953 (se continuará do mesmo tamanho, só a engenharia e o tempo dirão).

Mas voltemos ao café. A ideia da professora era audaciosa: transformar a sala de consulta em uma autêntica cafeteria da Primeira República. A escola entraria com o café, a professora custearia o leite do próprio bolso, e os alunos trariam as quitandas. Para cada mesa, um tema da República Velha: Revolta da Chibata, Voto de Cabresto, Revolta da Vacina... A proposta? Os estudantes deveriam debater os tópicos incorporando personagens da época, como se estivessem num café elegante dos anos 1920.

Confesso que tremi nas bases. Na minha cabeça de historiador ortodoxo vacinado pelas agruras do cotidiano escolar, vi o fantasma do caos se aproximando. “Será que eles vão discutir História ou vão só liquidar o estoque de carboidratos?”, pensei. A desconfiança aumentou quando um aluno me perguntou, com a maior naturalidade do mundo, se poderia levar uma sanduicheira para a biblioteca. Imaginei a cena: fumaça, disjuntor caindo e o cheiro de queijo tostado rivalizando com o cheiro de livro antigo.

Como eu também participaria do projeto, apliquei logo a primeira medida protecionista do nosso "Governo": baixei um decreto proibindo eletrodomésticos e restringindo o cardápio às quitandas tradicionais mineiras, dignas da época.

E no dia D... o milagre pedagógico aconteceu.

Caminhar entre as mesas de madeira pesada foi uma experiência surreal e deliciosa. Em um canto, vi garotos de quinze anos engravatados pelo tom de voz, discutindo com a gravidade de velhos coronéis a queda no preço do saca de café frente à Crise de 1929. Na mesa ao lado, meninos e meninas encenavam um horror genuíno ao debaterem os bota-abaixas da Reforma Pereira Passos. O engajamento era tanto que só faltavam os figurinos de época — embora a postura já fosse digna de um folhetim de Lima Barreto.

No fim do horário, a surpresa derradeira: a sala estava impecavelmente limpa e organizada. Nenhuma migalha de broa para contar história, nenhum derramamento de leite, nenhum resquício de caos.

Aquele "Café da República" me provou algo precioso. Quando a gente sai do feijão-com-arroz da aula expositiva e propõe algo novo — uma sala de aula invertida misturada com teatro e um tiquinho de gastronomia —, os alunos não só abraçam a ideia, como tomam conta da cena. A História deixa de ser um punhado de datas mofadas e ganha vida, cheiro e sabor.

Se essa foi a primeira "prática exitosa" registrada aqui na coluna, que venham as próximas. Só espero que, na nova ala direita da biblioteca, o espaço continue amplo o suficiente para comportar tanto os nossos projetos quanto a imaginação dos nossos alunos.

Ouro Preto e a Escola de Minas: conferência realizada, no edifício da Escola de Minas, em Ouro Preto, pelo dr. Mario de Lima, no dia 12 de outubro de 1921










 Resolvi transcrever integralmente para o blog Aqui um artigo publicado no jornal MINAS GERAES (Domingo, 16 de Outubro de 1921), com as adaptações adequadas para que o texto tenha as regras ortográficas e de pontuação do português atual para facilitar a leitura.

MINAS GERAES — Domingo, 16 de Outubro de 1921 — N. 5

Ouro Preto e a Escola de Minas

(Tradições da cidade e do Instituto)

Conferência realizada, no edifício da Escola de Minas, em Ouro Preto, pelo dr. Mario de Lima, no dia 12 do corrente.

Há quatro dias, apenas, recebi o honrosíssimo convite da comissão de festejos comemorativos do 45.º aniversário da fundação da Escola de Minas, para proferir, hoje, nesta cidade, uma conferência.

Como preparar, em tão amesquinhado prazo, na exaustiva labuta diária do meu cargo, uma conferência digna da solenidade que se comemora? Era-me impossível fazê-lo.

Não é, por isso, propriamente, uma conferência que eu venho realizar.

É, antes, uma simples palestra, cujo tema será: — “Ouro Preto e a Escola de Minas: tradições da cidade e do instituto”.

Quando recebi o telegrama dos distintos moços promotores dos festejos de hoje, confesso que tive um momento de hesitação em aceitá-lo.

Grande era a honra da solicitação. Mas a anuência ao convite não importaria menor sacrifício, de minha parte.

Achava-me, então, em minha mesa de trabalho, submerso no dilúvio de papel do expediente cotidiano.

Depus sobre a mesa o telegrama que me inspirava a encantadora e idolatrada terra ouro-pretana!

Que outro assunto mais grato à minha alma do que falar de ti, da tua grandeza, das tuas tradições, entre as quais avulta este notável instituto, que é bem o teu cérebro e parte, igualmente, do teu generoso e nobre coração?

Eis como já te evoquei uma vez:

“Foco de onde irradiou pela terra mineira

A ideia liberal; microcosmo de um povo

De que serás perpétua e imarcescível bandeira,

Com a luz do teu passado o futuro ilumina...

E, ainda hoje, Vila Rica, — espiritual tesouro —

És, relíquia imortal, a pérola de Minas!”

Ou então:

“Cada ladeira tua é um Tabor. Cada palmeira

De terreno recorda um mártir... A glória

Dourou de suave luz o teu declínio calmo...

Cidade-templo, tens um destino sagrado:

Sobrevives ao tempo, heróica e cerimoniosa,

Aspirando e sonhar o aroma do passado.”

E assim que surges ao meu espírito. Não há, na pátria, ares mais livres que os teus. A própria Natureza dá aos teus filhos o exemplo das nobres rebeldias. O Itacolomy é um grito de pedra.

É uma projeção estratigráfica para os céus, consequente a remotíssima revolução geológica, que nestes sítios se operou.

“Atalaia granítica da serra,

E o emblema orográfico da Inconfidência!

És a intrépida heroína desta terra,

Que em Minas foi da liberdade a essência.”

Compor-me-as em ti um guia de guerra:

Há em ti imagem ingente em teu repouso,

E o teu altivo aprumo inda hoje encerra

Algo de teu início impetuoso.

A Natureza, em suas geniais modas,

Talhou a imagem da alma ouro-pretana,

Soberana às tiranias afoitas,

Cristalizando em ti, com parte de arte,

A acácia da própria terra, que se ergue

Em dois gritos agudos para o espaço.”

Em Ouro Preto, a imaginação não pode abstrair-se das meigas sombras do passado que povoam a cidade. Elas emergem de toda parte... São numes protetores da urbe... São os seus penates, os seus deuses familiares...

Surgem, envoltas, às vezes, nas brancas mantilhas dos poéticos nevoeiros noturnos... Cantam no murmúrio flébil do Funil... Soluçam no ciclo de aragem...

São as sentinelas espirituais da cidade.

Ouro Preto é uma terra de encantamentos!

Evoquemos alguns desses amados fantasmas.

Vestido de couro, facão à cinta, o rosto e as mãos tostados pelo sol, em longas travessias, eis Antônio Dias de Oliveira, o descobridor de Ouro Preto...

Energico e diferente, multiplicando a sua atividade, em empreendimentos diversos, eis o capitão-general Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, o fundador de Vila Rica...

Surge agora Paschoal da Silva... É o mais rico possuidor de lavras da terra há pouco descoberta... Tem todo o arraial de Ouro Preto... O morro de S. Sebastião é seu domínio. Às suas ordens trabalham 4.000 escravos...

Mas chegam os dias da revolta de 1720. Amotina-se o povo, inflamado pela palavra de um tribuno ousado.

Paschoal é um dos cabeças do movimento contra as casas de fundição...

Que horrendo espetáculo! A ira do Conde de Assumar manifesta-se formidável. Manda atear o incêndio ao povoado de Paschoal da Silva...

E um morro inteiro que pega fogo; daí o nome que ainda conserva de Morro da Queimada.

E, aos clarões das labaredas que devoram o arraial insubmisso, galopam cavalos bravos arrastando o Mamoppa da liberdade!

É Filipe dos Santos!

“Arde no alto o arraial de Ouro Podre...

(A intervalos,

Subem subindo o céu rubras línguas de fogo.)

E, enquanto lavra o incêndio, o heróico demagogo

Preso à cauda lá vai de indômitos cavalos.

Rangedoramente os cordéis, atalhos

De ossos disjuntos, mais se acalma o jogo

Dessas patas febris. Lá vai, em desafogo

Da corrida, a transpor praças, ruas e vallos.”

Pela estrada, marcando a dolorosa via,

Os frangalhos de corpo em chão profano e duro,

Jazem aqui, ali... Ver declinando o dia...

E um sudário de luz abre o sol moribundo

E, amortalhando o herói em pedaços, lhe envia,

Nos seus raios finais, as bênçãos do futuro.

Outras sombras se levantam do passado.

Eis o chefe da Inconfidência:

“Herói ou semi-louco? A um tempo, semi-louco

E herói. Da Inconfidência é o Quixote fidalgo.

Alma de sonhador, coração de soldado,

Tinha um tanto de heroísmo e de loucura um pouco.”

Alferes Mencionas, teu nome não padece,

Repetido da História o imparcial julgado;

A demência lograr fez-te obstinado:

Desta ardores de fava e assomos de venero.

Não te escaldasse a mente a febre da loucura,

Passarias a ter, na póstera memória,

De um leviano vulgar a simples figura.

Como intrépido réu foi que ganhaste a História:

Por isso é que, apesar de origem tão obscura,

Só teu nome imortal pôde afrontar a glória!

Agora é um casal de noivos, que passa, sussurrando, entre lágrimas os seus amores. Separam-se, em vida, o destino. Caíram no esquecimento, na obscuridade, a imortalidade.

“Poeta e juiz, meu apoio e meu triunfo...”

A função de escrever ficções e de sonhar.

Os albergues harmoniosos de sua lira,

Enaltecem Vila Rica engalanada, à busca do seu fim...

Gonzaga, foi teu acolhimento este meu mentir:

Desfalece, um dia, esta ingênua alma de amor.

Mas no peito obteve o destino te atirar.

Adeus Marília! Adeus amores de minha alma!

Noite, longo vigília em noite de vigília.

Bordada a ponta de ouro, não te esqueço...

Embora, sem razão, a calúnia acuse-a...

Esqueceste-te de mim. Mas tem nesta gleba,

Se inda força há em mim, ó graças a Marília,

Cujo amor inspirou tantas liras do céu...

D. Maria Dorothéa Joaquina de Seixas morreu com cerca de 80 anos, nesta cidade. A Marília, que passou à posteridade, é, porém, perpetuamente jovem. Não perdeu a formosura. Tão envelheceu?

“Vedes como Beatriz ou Laura, saídas da lenda

Gostam da história, Marília, a tua fama é infinda.

Vives na tradição gratuitamente linda.

Nenhuma pode haver de uma auréola assim estupenda.”

De um destino infeliz, em breve, a mão formidável

Te apartou de Dirceu. Porém, o noivado finda.

Ainda vive Gonzaga. A África espera ainda,

Toda a vida a esperar, na poética vivenda.

Mas a poetisa de Dirceu o sonhador das Liras...

E enquanto em Vila Rica, a desvairar, suspiras,

No exílio ele te olvida, em perjúrio nefando.

Que importa oferecer à infância o teu virgem facho

— Teu nome ficou unido a heptacórdio sonoro

Onde a idílio imortal refulge e cantando!

Um velho agora; velho tropeço, abatido, mas em cuja cabeça floresce a corda de louros dos poetas. É Cláudio Manuel:

“Poético e solitário, amaste a Nise. Um facho

Feminina vida, cujo perfil risonho

O amargor do teu pranto às vezes dulcifica.”

Três sombras que se abraçam: Alvarenga Peixoto, Bárbara Heliodora e Maria Efigênia. Alvarenga, inconfidente, quer inalar os amigos. Bárbara Heliodora corta-lhe os lábios, com um beijo, a chorar.

Gênio morre do pó e de vergonha! É um pequeno episódio pitoresco.

Pobre Maria Efigênia:

“Linda como a camélia e pura como o lírio,

Pendida sobre o hastil, antes do desabrochar...

E o que era para ser o roscio, em si, se tornou em tempestade,

Transformando-se a vida em martírio.

Aida de sua luz, que fora alegre e esbelta,

E onde veio pousar da desventura o fecho.

Era de mais de mais de espírito, de profusa,

Vatídico, drapejava como o clarão de um círio.

...E apagou-se... No exílio o pai inconfidente...

Ela definha e os frades... A mãe pobre e demente...

A vergonha, ao recesso do fausto e da fraqueza...

Rebelde vingador do gênio e da beleza,

Brilhas entre dois sóis, como uma permanente aurora:

Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora!”

Que sombra é essa que nos espreita? É o Quasimodo de Victor Hugo? Arrasta-se. Tem pés e mãos mutilados. É um monstro, mas um monstro de gênio, que deixou, em vários templos de Ouro Preto, a afirmação exuberante de seu talento artístico. É o Aleijadinho:

“Tarde, baixos, dolorosos, a catedral borbulha...

Num ritmo de ironia acende o fogo ardente...

Passante à história, ó grande e genial mutilado,

Transfigurou-se pelo apoteose da ferida.

Preso ao chão dos trilhos, na solidão da renda,

Quando o gênio latejou em um quase inaptidão:

Da tua misteriosa e enigma agonia

Queima essa primeira folha desvendada.”

Igrejas de S. João d'El-Rei e de Ouro Preto, templos da graciosa, por onde se ergue o martelo do Quasimodo da nossa arte.

Pedra à inspiração de um Bernini brasileiro!

Esta é uma cidade de memórias, cheia de lugares santos para a nossa história divina. Cada casa é uma recordação gravíssima.

Eis a Casa de Marília:

“Aqui morou — Julieta ouro-pretana —

Marília, a noiva de Gonzaga-Romeu...

Homem nobre de saber, que te engalanas,

Hoje em convento, onde a paixão se escondeu.”

Da terra aquecida e pelas mudo de estrada,

Onde doce efúvio da afeição passara...

E em frente da mesquita franciscana,

Um par de borboletas carinhosas vaga.

Onde em cativeiro, desde o dia triste

Em que Dirceu se ocultou na escura cela

Da imagem, a noiva pensativa viste...

E, atenta a circunstância afortunada,

Recorde-se a sonhar, Marília bela,

Senhora de amor no clássico da saudade.*

Aqui é a casa de Gonzaga, na Rua do Ouvidor.

“O velho casarão de Vila Rica,

Desprovido de arquitetônicos obsoletos,

O teu velho recinto testifica

Um dos cantos mais lindos de Ouro Preto.

Vês, de onde estás, o lar de Carmo-Abaeté?

A casa de Marília, alva e singela...

E com ela cantaria, em sua janela,

O idílio amigo, que vos glorifica.

Tem nas suas paredes imortal cada edifício.

Em ti revives de Thomaz Gonzaga

A alma lírica, em sonho e espontaneidade.

Sonhas, estranho à sorte ambiente e aziaga...

E então teu prístino epílogo,

Enquanto a sombra de Dirceu te afaga.”

Ainda em Antônio Dias, o barracão histórico onde se reuniam os Inconfidentes:

“Jazendo ao fundo da vivenda antiga

De Cláudio Manoel, velho balcão,

De flores trepadeiras não te abriga

A trama vidente e vulto ancião.

O petreo ouvido à escuta, sem fadiga,

Colheste os planos da Conjuração;

E, inda hoje, dessa voz heroica e amiga,

Os ecos vivem em teu seio estão.”

Que panorama esplêndido divisas! Ao luar, em frente vendo, ídola e baliza, as pedras gemeas do Itacolomy.

Cuidas ouvir Cláudio, Maciel, Toledo, Alvarenga, Dirceu... e ver, atrás, toda a mão do Alferes apoiada em ti.

Em outro local da cidade, a Cava dos Cintos, onde morreu Cláudio Manuel da Costa:

“Ângulo, vertente à antiga vertente,

Cova escura, onde o crime se opaca,

E a evaporação saudosa das cordas

Os tigres vibram em angústia fraquinha.”

De torturas e lágrimas transborda!

Há páginas de sangue em teus anais:

Chagas no selo em formidáveis bordas,

Do desespero as sombras espectrais.

Arca das estrofes do Real Contrato:

Outrora ouro roubado e um povo coacto!

Tens tradições mais negras que o terror!

Busto de Cláudio e Palácio-esquife,

E onde se deu glórias te alardeie,

Vem a vista do mártir-escritor.

Embaraça-se o ambiente. Escuta-se outra vez, no bairro de Antônio Dias, a Praça do Tiradentes:

“Praça de Antônio Dias, mais de um meio

De ano é de um mistério, de um segredo.

Guardas aos bancos de granito a medo,

Cujo relva em lívido tramoio.

Neles, em tempos que se vão, o ponto

De piratas ruim. Ouvias, desde então,

Confissões, remoques, sons que eram sem dolo,

Colado ao lábio, interrupção, gemido.

Quantos suspiros de Dirceu ouviste!

Quantas vezes o olhar Marília triste

Pousou em ti, à hora da trindade...

Sob os teus arcos de um fuzil velho...

Igual é o que susurra no teu seio

Albergue de lembranças e saudades!”

As torres das igrejas avultam no panorama da cidade — lembram-se das pompas orientais do “Triunfo Eucarístico” e das procissões de S. Jorge; evocando o esplendor e a fé viva dos nossos maiores:

“Templos de Vila Rica, afamados

Móveis da Fé, beldades da cidade, —

Brancas torres, — nichos da saudade —

Os teus sinos que carpideiras...”

“Chegando ao cume das ladeiras,

Vemos com doce comoção quem há de?

O fausto recordar de martiridade

E o amor das velhas gerações mineiras.

Lavras de cinzel, arcabouços de ouro,

Primores de arte, esplêndido tesouro,

Fazem ao olhar maravilhar...

E nós, de luto, ou a florir em ruínas,

Lápide da pátria, onde hoje soletramos

A piedade e a opulência de Passos!”

O edifício, em que se acha instalada a Escola de Minas, é uma das relíquias de Vila Rica:

“Por mais que se estrague o seu aspecto,

Velho Palácio dos Governadores,

Guardas no vulto e aprumo inesquecível

E no grave de teus painéis murais.

Cidadela de pedra, praça aceita

Para asilo e conforto de opressores,

Hoje agasalhas, sob o mesmo teto,

Da inteligência os ínclitos labores.

Mudaram de destino, mas a sombra

Do despotismo antigo te admira...

Teu ar de fortaleza inda lhe assombra...

E a lembrar do passado o ferro juga,

Junto fronteiro a secular cadeia,

Como um verdugo em frente a outro verdugo.”

II

Que grande mudança de destino! A legenda antiga desta casa, nos dias coloniais, bem podia ser o princípio absolutista do direito público romano: “Quod principi placuit legis habet vigorem.” (O que apraz ao príncipe tem força de lei).

A legenda de hoje é outra. É também latina, mas não significa opressão e tirania. São quatro palavras apenas, que encerram um vasto programa de trabalho e de abnegação pela ciência: Cum mente et malleo (Com a mente e o martelo).

Em seu destino primitivo, desta casa partiam para a Capitania as ordens iníquas, exigências de ouro, espoliações de toda a ordem.

O Palácio dos Governadores exauria Minas para abarrotar com suas riquezas a avidez da metrópole.

Como os tempos mudaram! Nesta casa, acha-se agora instalada a caserna que prepara soldados para as nobres lutas da ciência e para a grande obra da reorganização econômica da pátria.

A Escola de Minas é, sem dúvida, a mais gloriosa oficina da alta instrução profissional no Brasil.

Estabelecimento científico que honra o país, é tal o seu prestígio, tal a sua reputação, que, encravada, embora, no seio destas montanhas, tão longe do litoral, disputa, no estrangeiro, a fama, a adeptos como o de Oswaldo Cruz, situado à beira-mar, na capital da República.

Essa reputação é mantida pela Escola, desde os seus primeiros dias.

Evoquemos hoje, que se comemora o 45.º aniversário de sua fundação, a memória inesquecível de seu fundador.

Henri Gorceix é bem um grande nome, incorporado ao patrimônio científico da nossa pátria.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Datas comemorativas: 20 de setembro

 O calendário é repleto de datas importantes. Se você for professor pode ter certeza que sempre irão cobrar a capacidade da sua memória de lembrar datas e fatos importantes. Uma data que gosto de lembrar é o dia  20 de setembro. Essa data pode ser o motivo para erguer os copos de vinho, afinal de contas esse dia é importante para uma das nações mais admirada do mundo: a Itália. Afinal é o grande dia da unificação da Itália!

Para quem faltou às aulas de história ou andava distraído, a unificação italiana não foi exatamente um jantar tranquilo de domingo em família. Foi um verdadeiro malabarismo geopolítico: sacrifícios imensos, batalhas sem fim e aquele drama digno de ópera para colocar todo mundo sob a mesma bandeira verde, branca e vermelha. Como se não bastasse todo esse contorcionismo histórico, os nossos irmãos italianos ainda tiveram que encarar os baques de uma guerra mundial recente, saindo do outro lado na base da garra, do empreendedorismo e de uma boa dose de orgulho nacional.

E o Brasil com isso? O Brasil observa tudo da arquibancada, batendo palmas e babando no molho de tomate. Afinal, a nossa dívida com o talento, o trabalho e a simpatia da comunidade italiana por aqui é gigantesca. Aliás, nesse dia celebramos também a data natalícia  de ninguém menos que Dante Alighieri — dia esse que sempre terá direito a debates calorosos e, com certeza, muita comida boa.

Mas vamos ao que interessa: a parte prática do patriotismo!

domingo, 16 de agosto de 2026

foto da turma

Sou professor há mais de trinta anos. E, em face das modernidades interconectadas, algumas lembranças surgem e me fazem pensar o quão rápido o tempo anda passando. Por exemplo, lembro de folhear os álbuns de fotografias e me deparar com aquela foto clássica: toda a turma com o seu professor no pátio da escola ou na sua própria sala de aula. Sempre havia uma plaquinha com o nome da escola, a turma e o ano. Isso acontecia provavelmente porque a escola não era só um prédio, era um marco na vida, e a fotografia da turma, ah, essa era o selo, o atestado da passagem. Não era um mero clique, mas um ritual solene, quase um juramento silencioso.

Exemplo vivo desse ritual é esta imagem de uma turma do curso normal do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG), registrada por volta dos anos 1960. Ela condensa com precisão cada elemento desse protocolo de época.



Acomodadas no pátio interno do prédio — com a balaustrada e a imponente porta de madeira ao fundo —, as alunas estão organizadas na clássica estrutura em patamares. As da primeira fileira aparecem sentadas em um banco comprido, com pernas cruzadas de lado e as mãos suavemente postas sobre o colo, vestindo a tradicional saia escura e camisa branca de colarinho com cinto. Acima delas, duas fileiras de jovens em pé completam a geometria perfeita do grupo.

No centro exato da imagem, como ponto focal e ancoreiro, está a professora. De traje sóbrio, cardigã escuro e uma pasta ou livro apoiado ao colo, ela encarna a presença serena da autoridade pedagógica. Ao seu redor, a estética dos anos 1960 se revela nos detalhes: os penteados volumosos com topetes e cortes estilo pixie, o alinhamento rigoroso dos uniformes e as feições que oscilam entre a timidez e a altivez de quem se preparava para assumir a missão de educar.

Aos seus pés, repousa o pequeno quadro com a identificação da turma (395 / ENAM - NORMALE), o "selo" definitivo que transforma aquele instante casual em um documento histórico e afetivo.


Eu tenho que confessar que também tenho uma foto dessa. A minha foi tirada no dia da minha formatura em Filosofia na Fafich\UFMG. Eu levei a máquina e pedi a minha tia para fazer a foto. Estão lá  eles, os alunos, enfileirados como pequenos soldados da civilidade, raramente sorrindo, porque a seriedade era a virtude da época. Nas fotos que via antigamente os mais baixos ficavam na frente, sentados no chão ou em banquinhos. Os do meio, nas cadeiras, e os mais altos, ou os maiores, em pé, lá atrás. E no centro, invariavelmente, estava ele ou ela: o Professor, com sua postura austera e o olhar que misturava autoridade e a esperança de ver aquelas sementes florescerem. Na minha foto, tirada no dia da formatura, no auditório Baesse (um grande professor que morreu de forma trágica e prematuramente), estamos todos em pé. Os meus colegas de sala e os professores Newton Bignotto, Terea Calvet de Magalhães, Telma de Souza Birchal. Essa foto é um trofeu. Como queria ter uma com os meus colegas e professores do curso de história. E do ensino médio! As fotos que tenho sáo poucas. Tenho aquela sentado na mesa com o mapa mundi, livros e bandeira do brasil. tirada na minha infância. Tenho uma foto só da minha formatura de história. Hoje nos tempos de instagram isso parece algo impossível.

Se hoje vivemos submersos em um mundo de pura imagem, antigamente, a fotografia de turma não era apenas um instantâneo; era a solenidade emoldurada. Um ritual que marcava, com precisão histórica, a travessia de um ciclo vital: o ano escolar.

A cena era sempre a mesma, ditada por um protocolo não escrito: os alunos dispostos em fileiras minuciosas – os mais miúdos sentados no chão, à frente; os medianos nas carteiras; e os maiores, em postura ereta, ao fundo. No centro dessa formação, qual epicentro da disciplina e do saber, estava o Professor. Sua pose, sempre austera, misturava a responsabilidade da autoridade com a esperança silenciosa que todo educador deposita no futuro.

O significado desse registro coletivo transcende a simples recordação e se divide em três pilares fundamentais:

1.  O Selo Institucional: A foto, muitas vezes ostentando uma plaquinha com o nome da escola, a turma e o ano, era a prova material do trabalho da instituição. Ela atestava o cumprimento de sua missão: formar cidadãos. Era o documento visual que dizia à comunidade e à história: "Esta é a colheita do nosso esforço".

2.  A Identidade Coletiva: Longe do individualismo, a imagem consolidava o espírito de corpo daquela classe. Todos os rostos, em sua seriedade quase obrigatória, reforçavam a unidade e a adesão às normas de conduta da época. A postura contida era a expressão do comportamento "desejável", um testemunho da civilidade incutida pela escola.

3.  O Portal da Afetividade: Mais que um registro formal, a foto era o elo mais terno com o passado. Guardada nos álbuns de família, ela carregava vestígios preciosos: o uniforme impecável, o corte de cabelo da moda, o quadro negro como cenário. Com o tempo, esses detalhes se transformam em portais de memória, acionando a saudade das amizades, do cheiro da sala de aula e da figura imponente do mestre.

 

Por isso, ao depararmo-nos com uma dessas imagens – em preto e branco ou no tom nostálgico do sépia –, sentimos mais do que a passagem do tempo. Sentimos o eco de uma geração inteira, a solenidade de um compromisso e a certeza de que a foto de turma é, essencialmente, a moldura em que a memória insiste em eternizar o tempo que se foi. É o troféu de um ciclo, insubstituível na era dos clicks instantâneos.

É por isso que, ao encontrarmos uma dessas fotos antigas, sentimos um eco. Não vemos apenas rostos distantes; vemos a história de uma geração, a solenidade de um tempo e, no semblante sério do Professor, o peso e a honra de ser o guardião do futuro que eles, ali, enfileirados, estavam prestes a construir. A foto da turma é, e sempre foi, a moldura do tempo que insiste em não passar.

Em tempo, quero deixar registrado que esse texto foi pensado depois de tanto procurar e não encontrar esse único registro de uma época que foi fundamental na minha formação. Queria mostrar para os meus alunos pois vamos fazer uma foto com toda a turma na Praça da Liberdade para a gincana que irá concluir as atividades pedagógicas do quarto bimestre.



sábado, 15 de agosto de 2026

Por que ler "A Normalista", de Adolfo Caminha?






Publicado em 1893, o romance A Normalista, do cearense Adolfo Caminha, é uma das obras mais marcantes e provocativas da literatura brasileira. Embora tenha recebido pouca atenção e certo rechaço na época do seu lançamento — em grande parte pelo incômodo que suas denúncias provocavam —, o livro foi posteriormente reconhecido como um dos pilares do Naturalismo no Brasil.

Com uma crítica social ácida e um tom visceral, Caminha traçou um quadro pessimista e cru da vida urbana em Fortaleza no final do século XIX, expondo sem pudores a podridão moral escondida sob os trajes alinhados da burguesia. A trama acompanha a trágica trajetória de Maria do Carmo. Após a morte de sua mãe, a jovem é entregue pelo próprio pai aos cuidados de seu padrinho, o influente tabelião João da Mata.

À primeira vista, Maria do Carmo tem a rotina de qualquer jovem de sua época: estuda para se tornar professora (daí o título "normalista"), conversa com sua amiga e confidente, e alimenta sentimentos por um pretenso namorado de nível social superior ao seu. Porém, sob o teto em que deveria encontrar proteção, a jovem passa a ser alvo da obsessão e da luxúria do próprio padrinho. O desenrolar é devastador: João da Mata a seduz e engravida. Para conter o escândalo e preservar as aparências perante uma sociedade profundamente hipócrita, o abuso é abafado. O desfecho sela o destino de Maria do Carmo, forçada a se casar com o Alferes Zuza — um homem da polícia por quem ela não nutre qualquer afeto.

A Normalista reúne as principais características do movimento naturalista do final do século XIX. Os personagens são retratados como frutos do meio em que vivem, da hereditariedade e de seus instintos mais primitivos. A razão dá lugar às compulsões físicas e mentais.

Adolfo Caminha desafiou os costumes de seu tempo ao tratar abertamente de temas chocantes para a época, como o incesto, a exploração do corpo feminino e a dominação patriarcal. O romance funciona como um raio-X das elites urbanas e das instituições morais (como a família e o clero), mostrando a distância entre o discurso de virtude e as práticas ocultas do cotidiano.

Por que a obra continua relevante?

Mais do que um clássico do passado, A Normalista oferece uma reflexão contundente sobre a vulnerabilidade feminina e o uso da moral como ferramenta de abafamento e controle social. Ao expor a jornada de Maria do Carmo com realismo brutos e sem floreios, Adolfo Caminha construiu um retrato duradouro das contradições humanas e sociais do Brasil.