sexta-feira, 7 de agosto de 2026

RESGATANDO A HISTÓRIA DE FIRMINO COSTA

À MARGEM DE UM LIVRO, TEXTO DE MÁRIO DE LIMA - PUBLICADO NO MINAS GERAES EM 05 DE MAIO DE 1921




Acabamos de ler, com prazer e proveito, a "Gramática Portuguesa" do professor Firmino Costa, ultimamente publicada.

Simples curioso em assuntos filológicos, não temos a pretensão de fazer a crítica desse interessante trabalho, fruto de longos anos de estudo de quem se especializou na matéria e é considerado como um dos mais conscienciosos sabedores da língua vernácula, entre nós.

Compulsamos com atenção a "Gramática" do professor Firmino Costa e é do resultado dessa leitura que darão conta as linhas abaixo, mera apreciação pessoal, desautorizada mas sincera.

O livro do professor Firmino Costa não dispensa o auxílio do professor.

Se o trabalho didático "é uma colaboração do professor e do aluno, a cuja atividade pertencem principalmente as aplicações das regras e dos pontos estudados", o compêndio "não passa de ser um resumo, que a ação inteligente e metódica do professor fará desenvolver e aclarar para melhor aproveitamento da classe".

Dentro desse critério, condensa o autor os diversos assuntos, procurando e conseguindo imprimir ao volume um cunho prático, pela multiplicidade dos exemplos elucidativos.

Sob esse ponto de vista, excelente é o método empregado pelo professor Firmino Costa.

Manifestando-se contrário à demasiada extensão da tecnologia gramatical, a fim de facilitar o trabalho do aluno e impedir que os termos ocupem o lugar dos factos, evita o autor várias denominações consagradas, prescindindo, igualmente, da sinonímia gramatical, que, segundo pensa, dificulta o ensino.

É louvável, sem dúvida, essa simplificação. A complicação tecnológica, tão do agrado de certos gramáticos, entre os quais alguns de valor como Júlio Ribeiro, concorre, sobremodo, para tornar pouco atraente o estudo dessa disciplina.

Fiel a essa orientação, uniformiza o autor os nomes das palavras e os das funções por elas exercidas, distinguindo assim as famílias pelos seus cognomes.

O adjunto atributivo passa a denominar-se adjunto adjetivo; o objeto recebe a nova denominação de adjunto substantivo etc. O pronome deixa de constituir uma categoria gramatical, para enquadrar-se na do substantivo, como substantivo pronominal.

Firmado no critério de que o sentido, e não a forma vocabular, preside à organização de seu compêndio, adota o professor Firmino Costa uma inovação, passível de controvérsia: — o adjunto substantivo direto ou objeto direto regido, não só da preposição a, mas também de outras. "Nos exemplos 'ele gosta de Julieta' e 'ele ama Julieta'", pergunta o autor, "por que a mesma Julieta, recebendo o mesmo amor, há de ser objeto indireto ou objeto direto?"

Contrastando com os seus propósitos de simplificação da tecnologia gramatical, o autor se compraz, às vezes, em multiplicar, sem grande proveito, as classificações, como acontece com o substantivo comum, que ele divide em cinco grupos, entre os quais os superlativos, pejorativos e correlativos.

Afiguram-se-nos francamente bizantinas essas subclassificações.

Tratando do adjetivo qualificativo, apresenta o professor Firmino Costa listas bastante completas de designativos de cores e sinais de bois e de cavalos, que, embora assunto estranho a um compêndio de gramática, não deixam de constituir curiosa coletânea informativa.

Outra inovação de sua gramática, que nos parece pouco lógica, é a de considerar a contração uma categoria vocabular distinta, "por não se enquadrar, pelo seu sentido, em nenhuma das outras." A razão não parece procedente porque, sendo, por definição, a contração o resultado da fusão, numa palavra, de dois ou mais termos, se enquadra sempre, pela sua natureza, em duas categorias gramaticais. Não tem, portanto, o caráter de irredutibilidade, necessário para constituir uma categoria à parte.

"Se deixássemos de inserir as contrações entre as categorias de palavras, escreve o autor, não poderíamos classificar o vocábulo daquele, dando-lhe denominação própria". Como não? A denominação própria de daquele será contração da preposição de com o adjetivo aquele.

Classificando as cláusulas, dá o autor numerosos exemplos, o que facilitará ao estudante compreendê-las sem grande dificuldade.

Entre os exemplos de cláusulas substantivas, figura uma cláusula evidentemente adjetiva, incluída, por um lapso com certeza, entre aquelas. É a seguinte: "Morreu o Sebastião, que era professor de latim". Essa cláusula é um adjunto adjetivo do substantivo Sebastião. Não pode ser, portanto, cláusula substantiva.

Entre as cláusulas adjetivas, há uma que é irretorquivelmente substantiva: "Não tenho com que me alimente", cuja função objetiva é manifesta.

Tratando dos adjuntos, exemplifica abundantemente o professor Firmino Costa. Essa preocupação constitui, como vimos, um dos méritos de seu trabalho.

Entre os exemplos de adjuntos predicativos figuram, porém, alguns duvidosos.

"O menino vai alegre como um passarinho", equivale a "O menino vai alegremente como um passarinho". Alegre é adjunto adverbial e não predicativo, pois acrescenta uma circunstância ao verbo, que modifica.

Em "o doente não pode dormir", dormir não é adjunto predicativo, porquanto pode dormir é um verbo perifrástico.

Não são convincentes as explicações, dadas às páginas 266, 267 pelo autor, para justificar a inclusão, entre os adjuntos predicativos, de adjuntos, que, pela sua função, deveriam figurar entre os adverbiais.

Tratando de particípios duplos, escreve o professor Firmino Costa que "se vão tornando obsoletos os particípios regulares abrido, cobrido, descalçado e escrevido."

Quanto a abrido, cobrido e escrevido são já obsoletos, substituídos de vez, e não simplesmente preferidos, pelos irregulares. Descalçado não se vai tornando obsoleto, sendo de uso corrente o seu emprego em frases como "não tinha ainda descalçado as botas" etc.

Os capítulos sobre Concordâncias e Colocação dos pronomes são todos muito interessantes e documentados com profusos exemplos.

Sobre a possibilidade do se sujeito, escreve o autor algumas linhas convincentes.

O longo capítulo "Particularidades sintáticas" é um dos mais interessantes, principalmente a parte referente ao emprego do infinito pessoal, onde o autor teve a felicidade de reunir os melhores exemplos dos clássicos, que conhecemos sobre a matéria.

Escreve, com razão, o professor Firmino Costa, que esses exemplos "espargem certa luz sobre o emprego das duas formas do infinito, a pessoal e a impessoal". "São construções curiosas, que pelo seu contraste põem de manifesto a adaptabilidade das duas formas infinitas a fins idênticos."

O valor desses exemplos é encerrarem, no mesmo período, as duas formas do infinito, a par uma da outra, sob a mesma regência, dentro de igual concordância, no meio de colocações diversas.

Desses exemplos, deduz o autor a regra geral (adotada também por outros gramáticos) de que deve ser empregado o infinito pessoal quando este for exigido pela clareza ou pela euphonia e algumas regras especiais, à luz daquela.

Pela admirável seleção dos exemplos é essa a parte mais original da "Gramática" do professor Firmino Costa.

Longe iríamos, se fôssemos apontar outros capítulos do livro, dignos de encômio.

A "Gramática Portuguesa" do professor Firmino Costa é, como se vê, um trabalho de valor, do qual tivemos a ousadia de discordar em alguns pontos, prova do interesse e atenção com que lhe percorremos as páginas e da sinceridade com que traçamos estas linhas, portadoras também dos nossos agradecimentos pela gentileza da oferta de um exemplar com que nos distinguiu o autor.


21 de abril ou 3 de maio? Quando foi que o ocorreu a chegada de Cabral as terras brasileiras?

 


Durante séculos, a Carta de Pero Vaz de Caminha permaneceu "desaparecida" nos arquivos do Torre do Tombo, em Portugal, e só foi redescoberta e publicada no final do século XVIII (em 1773 pelo historiador Manuel Ayres de Cazal). Antes dessa descoberta, a principal referência sobre o achamento do Brasil era o relato do historiador português Gaspar Correia (na obra Lendas da Índia), que registrou erroneamente a chegada da esquadra de Cabral no dia 3 de maio de 1500 — dia em que o calendário católico celebrava a Invenção da Santa Cruz (daí o primeiro nome dado à terra ser Terra de Santa Cruz).

Quando a República foi proclamada em 1889, os novos governantes buscaram criar um calendário de "festas cívicas" para substituir as datas da Monarquia. O Marechal Deodoro da Fonseca assinou o Decreto nº 155-B, de 14 de janeiro de 1890, instituindo formalmente o dia 3 de maio como feriado nacional para comemorar a "descoberta do Brasil".Portanto, em 3 de maio de 1921, a data oficial estabelecida pela legislação federal republicana para comemorar o achamento do Brasil era o dia 3 de maio, e não 22 de abril.

Embora os historiadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) já soubessem desde o século XIX que a Carta de Caminha indicava o dia 22 de abril, a data de 3 de maio permaneceu no imaginário popular e no calendário oficial da Primeira República até 1930. Foi somente durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas, por meio do Decreto nº 19.488, de 15 de dezembro de 1930, que o calendário de feriados nacionais foi reformulado, corrigindo oficialmente a data do Descobrimento do Brasil para 22 de abril e abolindo o feriado do dia 3 de maio.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Texto de Gustavo Penna , do livro Educação, publicado no Minas Geraes, de 24 de março de 1921


Lendo o Minas Geraes, descobri esse texto que transcrevo alterando o português da época para a norma atual 

A escola de hoje

Figuremos uma sala de aula do grupo escolar, na mesma cidade, onde há meio século se passaram as cenas que foram descritas.

A sala apresenta o mais gracioso aspecto de asseio, de conforto. Mobília muito envernizada, á americana. Em uma das paredes, uma tela verde, enfaixando-a de uma extremidade a outra, muitos mapas de geografia, de historia natural, etc. Uma pequena mesa com um globo grande, jarra com muitas flores.

A professora, d. Mariquinhas, veste-se com bastante apuro, mostra pelas crianças o maior carinho. Quando lhes fala, procura ameigar a voz, e se dirige de proposito ás mais atrasadas Digamos o que está dizendo.

— Entre muita gentezinha, hoje com chuva, apesar da chuva torrencial desta manhã, vieram muitas á aula.

— Mas a senhora mesma é que nos diz sempre que o dever antes de tudo.

Uma hora desse dia é destinada pelo regulamento á inspecção moral e cívica. Todavia, ela aproveitou a ocasião de lembrar a alguns alunos quanto é elevada a organização da Liga da Bondade, mostrando-lhes que muitas das suas coleguinhas não têm um par de sapatos, e faz pena ver uma menina descalça. Muitas não podem trazer a merenda, por serem muito pobrezinhas.

Nesse instante, a porteira do grupo traz muitas tiras de papel, tiradas de uma das caixinhas penduradas no corredor. A professora lê, em voz alta, os actos de bondade que mais lhe agradam, dos meninos da liga, e vae comentando os factos narrados pelos alunos, sem saber quem os escreveu, porque a caridade deve sempre se ocultar.

— Vejamos esta prova, que foi escrita por um aluno do segundo ano, talvez da outra sala:

"Eu estive com o joelho ferido, porque tive muita pena de uma negra velha que levava na cabeça uma grande trouxa de roupa, e tomei a trouxa mais leve; um grande tombo por causa do peso da trouxa."

No momento de ler outra prova, a servente vem anunciar que duas senhoras idosas desejam assistir ás aulas.

— Diga-lhes que entrem, ordenou a professora, embora seja tão impropria a hora, e quando há tão poucos alunos por causa da chuva.

Entraram as duas senhoras. Eram brancas e idosas e estavam aposentadas no emprego de professoras de pequenos arraiais de uma região de Minas...

Todas as alunas se levantaram, e somente tornaram a sentar-se, depois de um aceno de d. Mariquinhas.

Disseram então, as duas senhoras que, tendo vindo á cidade, ouviram falar tanto grátis sobre o ensino primário, tão diverso do seu tempo, e desejavam assistir a algumas aulas do grupo.

E quando a professora se desculpou de haver poucos alunos, nesse dia, uma das velhas disse que em seu tempo, era a mais díficil tarefa conseguir que os alunos comparecessem á escola.

— Como a senhora consegue tamanha frequência?

D. Mariquinhas respondeu muito naturalmente:

— Se a senhora voltar aqui, e assistir ás minhas aulas, verá que tudo se consegue, facilmente, das crianças. Notará que quase todas não se esqueceram de trazer uma florzinha para a aula, e as lições bem preparadas. Hoje, minha senhora, é um castigo em casa para o menino, que ele não vem ao grupo, quando, sei que, antigamente, os meninos choravam para não ir á escola. O meu dever levantar o mais possível o nível moral dos nossos patricinhos, de modo a torna-los briosos, educados, sensíveis aos actos nobres. E como nenhum castigo corporal é agora permitido...

— Então aqui não há palmatoria?

D. Mariquinhas respondeu com veemência: — Oh, minha senhora! Castigar uma criança é assassinar um homem. Pois, acha que um menino que é espancado pelo mestre, ainda mais na presença de seus companheiros, possa tornar-se por isso, um bom aluno, sem odiar o professor, e sem conservar uma sombra mil de humilhação, quando for homem? Mas, as senhoras, acrescentou, mais serenamente, vieram para observar algumas vantagens do moderno sistema de ensino, como demonstra o programa dos grupos. Pelo horário de hoje, devemos ter uma aula, lição de moral cívica.

Voltando-se para os alunos, disse-lhes:

— Amanhã é o dia 14 de julho, um dia feriado. Que significa esse dia?

Muitos alunos responderam: A tomada da Bastilha.

D. Mariquinhas: — Isso mesmo. E qual de vocês é capaz de explicar porque nós também festejamos esse dia?

Diversos alunos levantam a mão direita:

— Eu.

A professora, muito benevolamente, lhes disse:

— Mas nem todos podem falar ao mesmo tempo, sobre o 14 de julho. Vá você, Justinho, por ser o menor da classe.

Tornou as senhoras, acrescentou, voltando-se para as relevadas visitantes, que esta aula é do segundo ano.

Levantou-se o Justinho e falou com muito desembaraço:

— Havia em Paris da França uma grande fortaleza, chamada Bastilha, onde o rei mandava prender todos os que lhe aborreciam. E no dia 14 de julho, o povo, que já estava ficando muito republicano, entendeu que aquilo era um descalabro, e justamente quando a praça esteve tapada de gente, arrasou e esmigalhou a Bastilha, e depois pôs o rei em outra prisão. Depois disto, a França ficou republica.

E' por esse motivo que nós brasileiros somos tão amigos da França.

Uma das senhoras, (chamava-se d. Exclastica), exclamou espantada: — Com efeito! Como é que este quiristo já sabe destas coisas, gente, sendo apenas do segundo ano!?

Assim, quando ele chegar ao ultimo, já terá quase um doutor!...

— Nem tanto, obtemperou a professora. Mas, como a senhora sabe melhor do que eu, antigamente a escola apenas se ensinava a ler, por meio da soletração, um modo tão condenado agora; a escrever, as quatro operações, e a doutrina cristã, e tudo isso, poder de muita pancada nas pobres criancinhas, desanimando-as, e por isso tinham elas verdadeiro horror á escola. Hoje, sem fatigar a inteligência do menino, intercalando as ideias com os cantos e exercícios de ginástica, recreio, aulas curtas para lhes não cansar o espirito, conseguimos verdadeiros milagres, créa-me.

— No meu tempo, disse d. Anna, era uma piedade ver aquelas criancinhas tão magrinhas, descalças, vindas de longe, ás vezes, d'alguma casinha á beira córrego, meia légua da escola.

Uma até foi mordida por uma jararaca, no caminho. Morreu muito distante da minha aula, e chegou já meio morta, carregada por seis homens e só durou um dia. Outras vinham da escola mortas de fome, porque eu não podia dar quitanda a elas todas, muito tendo que caminhar meia légua até chegarem á casa.

D. Mariquinhas, muito penalizada, com aquelas palavras, disse então: — E' porque nesse tempo, não havia Caixa Escolar. Se as senhoras querem prestar aos meninos da sua terra o maior dos serviços, levem daqui este folheto, onde estão as instruções para a organização da Caixa, e estou certa de que qualquer pessoa curiosa negará um auxilio a essa instituição. Ouvirão, entretanto, que o aluno favorecido pela Caixa Escolar ignora que deve, ás vezes, á generosidade de seus colegas de classe o calçado ou o fatozinho humilde, que recebeu por ocasião da ultima festa escolar. Isso, todavia, é natural!

D. Exclastica, comovida pelo que via e ouvia, examinava com muita atenção o globo. Afinal perguntou á professora: E esta bola, para que serve?

— Para ensinar a geografia, explicou, mal sustentando o riso e receando também que as crianças não se motivassem. — Olha, minha senhora, aqui está, mais ou menos, o lugar onde estamos. Veja como é grande o nosso Estado de Minas, perto de muitos outros. Até no estado de geografia o menino aprende a amar a sua terra natal e a venerar a sua pátria.

D. Exclastica ouvia, espantada. — Eu já tinha ouvido dizer que o mundo era redondo, disse, e agora estou vendo que é verdade. Mas, como é que a gente não escorrega por esta bola abaixo?

D. Mariquinhas mal disfarça o riso, e segredando com o olhar os alunos, que estão espirando umas risadinhas abafadas.

— Qualquer destas crianças, poderia lhe explicar isso, disse então. Porém, quando as senhoras entraram na aula, eu ia começar a arguir os alunos sobre noções de historia natural, higiene e sobre moral cívica. (Voltando-se para os meninos). Na ultima lição de higiene, eu falei aos meninos sobre a necessidade de terem os dentes sempre muito bem tratados; quais são os órgãos mecânicos á alimentação; mas, antes de começar a nova lição, quero mostrar a estas senhoras os seus trabalhos de cartografia.

Abriu-se, então, um grande rolo de mapas, que está sobre a mesa, lhes disse: São feitos pelos meus alunos. Olhem este. E' o Estado do Amazonas, trabalho do Pedrinho — (Mostrando um pequeno menino). E' aquele.

As duas senhoras não podiam ocultar verdadeiro espanto.

— O que está dizendo, d. Mariquinhas? Isto é feito só pelo menino?

— Sim, senhora, porque d'aqui um tom de preparar o seu aqui, vae tonto, na hora dos trabalhos.

D. Anna, muito admirada, adiantou-se tamb´rm a fazer uma pergunta:

— O que é este risquinho que vae por aqui fora, parecendo uma cobrinha?

— E' o rio Amazonas, que tem mil e duzentas léguas de comprimento e na embocadura, é tão largo, que empurra o mar, por mais de cinquenta  léguas. Veja agora o nosso grande Estado. Foi feito por aquele pequeno, que estão vendo lá. E' um menino muito caprichoso e aplicado.

O menino, assim elogiado, levanta-se, contente com o elogio da professora e para os mostrar ás visitas.

— Eu até estou embaraçada, confessou d. Exclastica.

— Sabem as senhoras a summa de paciência, de dedicação, que a professora precisa ter hoje?

Ensinar tanta cousa sem livros, sem nunca maltratar os alunos, e nem castiga-los... Mas, acrescentou delicadamente, são horas de recreio, e d'aqui a três minutos a campainha, elétrica vae dar o sinal.

Voltando-se então para os alunos, disse:

— A nossa lição de moral ficou um tanto prejudicada pela visita, destas minhas anteveis colegas. Todavia, antes de lhes mandar brincar, para descanso, quero que me respondam mais uma pergunta. Já conhecem o corpo humano; quais são os órgãos principais da respiração, da digestão etc.; contudo, lá dentro de nós uma cousa, que nos remorde, se procedemos mal, que nos consolos quando praticamos uma boa acção; que vê, nos espia, mesmo quando todos nos enganam. Sabem o que é?

Muitos alunos levantam a mão direita. Cada um parece ter mais desejo de responder.

— Vocês, digam o que é.

E eles responderam com firmeza: A consciência.

GUSTAVO PENNA.

(Do livro "Educação", no prélo).

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Os Reis que Venham devagar (texto de Ronaldo Campos)


Desde o início do ano, venho lendo o jornal Minas Geraes — órgão oficial do Estado. Comecei pelos primeiros números e, hoje, dia 4 de agosto de 2026, cheguei às páginas de março de 1921. Nesses últimos dias, minha imaginação fugiu da realidade; pareço ter voltado, por alguns instantes, ao início do século XX.

Ao olhar para as imagens em preto e branco daqueles jornais amarelados de outubro de 1920, fico imaginando o frenesi diplomático que tomava conta de Minas, São Paulo e, principalmente, do Rio de Janeiro. As notícias sobre a vinda de Sua Majestade, o Rei Alberto, e da Rainha Elisabeth ganhavam as páginas desde os primeiros meses de 1920. Ali descobri que o presidente Epitácio Pessoa mandou cartas manuscritas, trocou telegramas e pediu créditos ao Congresso para hospedar com pompa a realeza que atravessaria o Atlântico.

Em um mundo pós primeira guerra, a burocracia (ainda) se movia com a cadência solene das coisas graves. O século XIX permanecia por inercia no determinar das coisas: diplomatas em Bruxelas acertando ponteiros; embaixadores combinando se o príncipe herdeiro viria ou se ficaria por causa dos estudos; ministros preparando o couraçado São Paulo para escoltar os ilustres visitantes. Preparavam-se trens de luxo com peroba e imbuia, estofados de marroquim, salões envidraçados e espelhos reluzentes só para levá-los de Minas a São Paulo. No Rio, limpava-se o prédio do Supremo Tribunal, organizavam-se bailes venezianos na Baía de Botafogo, paradas militares de treze mil homens e passeios até as alturas da Tijuca e do Corcovado.

E, no entanto, fico pensando no rei e na rainha pisando no convés do São Paulo, contemplando o mar infinito da Europa se desdobrar até o nosso calor tropical. Reis de um país distante, ferido pela guerra recente, vindo em busca de abraços, acordos e talvez um pouco do nosso sol esquecido.

A vida oficial planejava cada minuto: o banquete no Catete, as saudações no Palácio Monroe, a viagem a Teresópolis. Mas o que realmente importava para esses viajantes de longe? Talvez o cheiro de maresia ao entrar na Baía de Guanabara, a brisa fresca da serra ao anoitecer em Petrópolis, ou o silêncio antigo das minas de ouro em Morro Velho.

Governantes e generais organizavam protocolos e marchas; o povo nas ruas, com seus chapéus e curiosidade ingênua, só queria ver se um rei de carne e osso andava de trem do mesmo jeito que a gente.

Em Belo Horizonte, o Dr. Arthur Bernardes pedia ao Congresso aprovação para receber com dignidade a comitiva real. Mas o povo — ah, o povo mineiro — olhava para os trilhos. Antes mesmo de os soberanos pisarem no chão de poeira e modernidade da recém-nascida capital mineira, a viagem já acontecia no imaginário urbano. Noticiavam-se as minúcias de um trem lendário, montado nas oficinas do Engenho de Dentro e do Norte para conduzir a realeza até a Serra do Curral. Havia o "Carro do Rei", esculpido em imbuia e canela, com poltronas de marroquim e varanda de observação; e o "Carro da Rainha", adornado em peroba e estilo renascença português, com espelhos de toilette e aquecedores. Pelas janelas envidraçadas desse comboio iluminado à eletricidade, previa-se a cena: os heróis da reconstrução europeia admirando os morros e os cafezais de Minas.

E então, o rumor dos trilhos virou apoteose.

Depois das estrondosas saudações no porto do Rio de Janeiro, onde tiros de canhão cortavam o ar e aviões rasgavam o céu azul puríssimo, o destino irrevogável era o coração do estado minerador. Belo Horizonte, jovem, planejada e orgulhosa, preparou-se como quem veste terno de domingo para receber a história. Quando a locomotiva finalmente apontou na estação, trazendo consigo o "Rei-Soldado" e sua esposa, o protocolo cedeu lugar ao calor das ruas.

Entre a solenidade de estado e o assombro popular, os reis não viram apenas uma cidade em construção ou as minas profundas de Morro Velho; viram a alma de uma gente que ornamentou sacadas, agitou bandeirinhas auriverdes e amarelas e transformou telegramas oficiais em uma celebração viva de afeto e curiosidade. A visita real não foi apenas um registro na imprensa da época — foi o dia em que a jovem Belo Horizonte sentiu o mundo bater à sua porta.


Um mártir da ciência - texto extraído do jornal Minas Geraes, 15 de março de 1921, p. 4-5

 



Um mártir da ciência

No ano que findou, cessou a carreira de um sábio que, morrendo no seu posto de combate, deu o exemplo da mais sublime e da mais comovedora lição de heroísmo pacífico.

Refiro-me ao Dr. Charles Infroit, morto em Paris na idade de 46 anos, pelos raios X.

Consagrou a sua existência ao estudo e à aplicação prática desses raios, e os seus trabalhos já eram citados quando, em 1898, foi nomeado chefe do Laboratório Central de Radiografia, na Salpêtrière, em Paris.

A partir dessa data, começou o seu longo martírio. No espaço de dez anos, trabalhando e lutando sem preocupar-se com a vida, sofreu nada menos de vinte e duas operações, devidas a queimaduras nos braços, causadas pelos raios X.

Sobreveio a guerra. O Dr. Infroit continuou a sua obra humanitária nos laboratórios do exército, que não ofereciam as mesmas garantias de segurança dos laboratórios normais. Em 1918 perdeu um dos mais preciosos instrumentos do seu trabalho: o seu braço direito, que foi amputado.

Não cessou, por isso, a sua indomável energia. Serviu-se do outro braço. Mas a sorte reservara o mais cruel e o mais injusto dos castigos: no ano seguinte foi amputado do punho esquerdo!

Horrivelmente mutilado, o sábio, substituindo por um aparelho as suas mãos ausentes, ainda continuou por algum tempo seu trabalho, dando ao seu ideal, a ciência, o pouco que lhe restava de vida, torturada por sofrimentos de mártir.

A sua existência foi toda de abnegação pela humanidade e o seu nome é digno da admiração mundial.

Ecoou por toda a parte a notícia dolorosa da sua morte, mas não teve essa notícia a expansão devida; por isso, era dever nosso ampliá-la, dando-lhe relevo da mais respeitável homenagem

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Texto de Mário de Lima, extraído do Minas Geraes, 16 de fevereiro de 1921, p5


 

A reabilitação de Jeca-tatu

Alberto Torres afirmou, em várias páginas de seus livros, notadamente no "Problema Nacional Brasileiro", a confiança que lhe despertavam a capacidade de trabalho e a resistência das formações étnicas constitutivas da população brasileira.

Falta-nos apenas organização, escrevia o eminente sociólogo. De fato, as qualidade naturais do nosso povo nem sempre se manifestam, em todo o seu vigor, pela ausência de orientação que as encaminhe pelo rumo mais consentâneo aos interesses da coletividade.

O egrégio pensador recordava a soma de energias despendida, nos tempos da escravidão, pelas nossas donas de casa; o excessivo labor do brasileiro, em todos os ramos das profissões liberais, representando um esforço contínuo maior que o dos profissionais europeus, os quais, em determinados períodos de férias, suspendem os seus trabalhos, fecham os seus gabinetes e escritórios para repousar.

Sobre o valor da energia latente do habitante dos nossos sertões não era outra a opinião de Euclides da Cunha.

Há poucos anos, o Sr. Monteiro Lobato, com o seu Jeca-tatu, veio, por instantes, contrariar esse conceito favorável ao caboclo brasileiro.

A página célebre dos "Urupês" deu a Ruy Barbosa uma repercussão nacional. Passado, porém, o primeiro momento, à generalização do escritor paulista opôs o Sr. Ildefonso Albano os seus embargos restritivos, na figura de Mané Chique-Chique, o sertanejo do norte. Outras contraditas apareceram no sul do país. E o próprio Sr. Monteiro Lobato reconheceu, nas páginas vibrantes do "Problema Vital", que a indolência do Jeca-tatu não era um produto da raça e sim a consequência de "um longo e ininterrupto estado de doença transmitido de pais a filhos e agravado dia por dia". E, no pequeno prefácio da 3.ª edição dos "Urupês", aproveitou o lance "para implorar perdão ao pobre Jeca". "Eu ignorava, escreve Monteiro Lobato, que eras assim, meu Tatú, por motivo de doença."

Hoje é com piedade infinita que te encara quem, naquele tempo, só via em ti um "mamparreio de marca".

Jeca-Tatu é, portanto, um caso mórbido e não o tipo normal das populações sertanejas. Convenientemente medicado, poderá transformar-se em valor econômico de primeira ordem. Não é visceral a sua inferioridade.

É apenas a resultante do meio endêmico em que vive e do abandono moral em que se tem encontrado, completamente esquecido, até bem pouco, pelos patrícios civilizados do litoral.

Não são raros os exemplos da perfeita adaptabilidade dos nossos caboclos e sertanejos a certos gêneros de atividade, em que nos habituamos, por um falso julgamento, a considerá-los inferiores aos estrangeiros.

Há, em S. Paulo, uma colônia dirigida pelos trapistas, que nos fornece a prova do asserto.

Em Tremembé, os religiosos da Trapa mantêm um verdadeiro laboratório de experimentação sociológica, no qual puderam apurar a injustiça do preconceito corrente em relação ao valor do trabalhador nacional.

Quando ali chegaram, há anos, encontraram os trapistas uma população enfermiça e indolente, incapaz do menor esforço e vivendo ao Deus dará. Pesava sobre ela a fatalidade de um meio físico hostil.

Os trapistas iniciaram, logo, com fervor apostólico, o serviço de saneamento da região. Curando das almas dos caipiras, não descuidavam de sua saúde.

Em período relativamente curto, confortadores foram os resultados conseguidos. Enrijou-se para a luta dos campos aquela gente até então enfraquecida pelas endemias. E prosperou, dentro em pouco, a agricultura na colônia de Tremembé, que é, hoje, no dizer de quantos a visitam, um dos núcleos agrícolas mais florescentes do país e, ao mesmo tempo, a afirmação pujante de quanto é capaz o braço brasileiro, quando revigorado pela regeneração física e por inteligentes processos educativos que lhe aproveitem, convenientemente, as energias adormecidas pelas doenças e pela ignorância.

É opinião dos trapistas que o trabalhador nacional não é excedido por nenhum outro. Um pouco de saneamento e um pouco de educação profissional conseguiram operar o milagre.

A alguns quilômetros desta capital, na Companhia Inglesa do Morro Velho, tem-se verificado, em outro gênero de trabalho, a resistência do operário brasileiro.

Ali trabalham, em maior número, operários italianos, espanhóis e nacionais. Estes em nada são inferiores aos outros. E, segundo parece, há serviços de natureza mais extenuante e perigosa, para os quais os nossos trabalhadores são inigualáveis.

Há poucos anos, tentaram os ingleses empregar no serviço da mina várias dezenas de japoneses. Estes, a despeito da famosa resistência física da raça nipônica, não puderam suportar o peso daqueles trabalhos. Foi uma experiência de poucos meses. E os brasileiros lá estão, vantajosamente competindo com os espanhóis e italianos.

Na Companhia Siderúrgica Mineira, não há muitos meses instalada em Sabará, tem sido posta à prova a inteligência do operário nacional.

Patrícios nossos, que não tiveram conveniente educação profissional, dão completo desempenho a incumbências de natureza técnica, revelando, assim, admirável inteligência.

Contou-nos um dos diretores da mesma Companhia que, há meses, havendo falta de práticos estrangeiros para desmontar, em cidade do Estado do Rio, uma complicação da máquina adquirida para a Siderúrgica, resolveu a diretoria escalar para tal fim alguns operários naturais de Sabará de onde jamais haviam saído. Esses operários desmontaram a máquina e, o que é mais, tornaram a montá-la, em Sabará, como se fossem velhos conhecedores daquelas engrenagens. A máquina funciona, desde então, perfeitamente.

Essa habilidade do operário nacional nem sempre chega a revelar-se, pela desconfiança com que, em regra, julgamos do valor de tudo que é nosso.

Em relação a certas ocupações, vamos decretando, preliminarmente, a incapacidade do trabalhador brasileiro.

Preferimos quase sempre, o estrangeiro, enlevados pelo prestígio de um nome arrevesado e pela crença, tantas vezes desmentida, de que o nacional não poderá concorrer com ele.

É necessário acabar com esse preconceito que tanto nos degrada. A valorização da nossa terra e da nossa gente deve ser a base do verdadeiro nacionalismo.

Continuemos a receber com deferência e carinho os estrangeiros que nos trazem o concurso do seu esforço e da sua inteligência. Nada de xenofobia, nada de jacobinismo, porque não podemos dispensar a colaboração alienígena.

Mas, acolhendo bem o estrangeiro, preocupemo-nos, desveladamente, com a reabilitação dos nossos patrícios, que, em estado hígido e com o treinamento necessário, não invejam os trabalhadores e operários de outras pátrias.

Livremos Jeca-tatu do anquilostomo, do "barbeiro", da anofelina e do analfabetismo, integrando-o na comunhão brasileira, de que ele tem vivido afastado por culpa nossa.

Serão milhões de braços e de inteligências conquistados à inação e à ignorância. Serão outras tantas forças econômicas concorrendo para a grandeza e a glória do Brasil. Esta deve ser a preocupação principal de uma campanha nacionalista bem orientada.

MARIO DE LIMA

Histórias atribuídas a D. Pedro II

Texto extraído do jornal Minas Geraes, 10 de fevereiro de 1921 (p. 2) 

Anedotas atribuídas ao ex-imperador Pedro II

Andam agora na imprensa de Minas várias anedotas atribuídas a D. Pedro II e entre elas estão as seguintes:

O Dr. Chrispiniano Tavares, Baiano, formado em engenharia pela Escola de Ouro Preto e que residiu por muitos anos em Uberaba, foi, como muitos outros, afilhado de conta de S. M. (Sua Majestade).

O Dr. Chrispin, como era mais conhecido quando estudante, sempre que ia ao Rio, deixava sua primeira visita ao Imperador. Certa vez, descendo a gare da E. F. D. P. II (Estrada de Ferro Dom Pedro II), dirigiu-se ele ao Palácio, em trajes de viagem e, como nesse dia houvesse reunião de conselho, ali estavam ministros e conselheiros. O moço Chrispin teve a entrada sustentada pelo contínuo que não o conhecia. O rapaz porém forçou a entrada e colocou-se entre a porta e o sapateiro, à espera de que chegasse S. M. Estupefação geral. Os conselheiros e ministros entreolharam-se e como que indignados da intrusa visita, murmuravam talvez sobre a insolência e o descaro do impertinente sem lhes dirigirem a palavra todavia. Eis que aparece S. M. que ao avistá-lo narra a atração:

— Como vai você, meu bom Chrispin?... Já sei, já sei: trouxe-me as notas da Escola; dez-me, onze-me, doze-me... Dá-me um abraço e venha ver o Imperador que mais saudades de ti. Já sei, já sei: vem dar-nos o prazer da hospedagem conosco, sê bem-vindo, etc., etc.

O pessoal grande que até então se mantivera rancoroso com o suposto intruso, levantou-se e foi numa hora apertar-lhe a mão, dando as boas-vindas e congratulando-se com S. M. pelos esforços feitos pela sua proteção e pelas brilhantes notas adquiridas na Escola de Ouro Preto.

O Dr. Chrispin morreu assassinadono Rio Verde, Goiás, sendo o fato que acabo de relatar conhecido em toda Uberaba.

Na inauguração de uma ponte entre o Tietê e Porto Feliz, achava-se presente o imperador Pedro II. Depois dos festejos, o monarca foi visitar a antiga escola do professor Julião Ferraz. Este mestre, já bem velho, para mostrar aos soberanos o preparo dos seus alunos, perguntou aos meninos João Bâmara e Salvador Filardi:

— Qual de vocês dois é capaz de dizer o nome do nosso Imperador?

João, sendo mais ativo que o Salvador, vendo ao lado do monarca o veterano do Paraguai, Sr. Sebastião Toledo e, julgando haver parentesco entre eles, respondeu:

— Eu sei, é... é D. Pedro II de Toledo.

O professor errou, mas D. Pedro riu gostosamente.

Visitando a cadeia de Tietê, D. Pedro II manifestou o desejo de conhecer a prisão dos loucos. Sendo conduzido a esse recinto pelo carcereiro João do Amaral Castro, o monarca foi surpreendido por um louco que lhe bateu nos ombros e disse:

— Tolo, tu estás mais louco do que eu!