segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Datas comemorativas: 20 de setembro

 O calendário é repleto de datas importantes. Se você for professor pode ter certeza que sempre irão cobrar a capacidade da sua memória de lembrar datas e fatos importantes. Uma data que gosto de lembrar é o dia  20 de setembro. Essa data pode ser o motivo para erguer os copos de vinho, afinal de contas esse dia é importante para uma das nações mais admirada do mundo: a Itália. Afinal é o grande dia da unificação da Itália!

Para quem faltou às aulas de história ou andava distraído, a unificação italiana não foi exatamente um jantar tranquilo de domingo em família. Foi um verdadeiro malabarismo geopolítico: sacrifícios imensos, batalhas sem fim e aquele drama digno de ópera para colocar todo mundo sob a mesma bandeira verde, branca e vermelha. Como se não bastasse todo esse contorcionismo histórico, os nossos irmãos italianos ainda tiveram que encarar os baques de uma guerra mundial recente, saindo do outro lado na base da garra, do empreendedorismo e de uma boa dose de orgulho nacional.

E o Brasil com isso? O Brasil observa tudo da arquibancada, batendo palmas e babando no molho de tomate. Afinal, a nossa dívida com o talento, o trabalho e a simpatia da comunidade italiana por aqui é gigantesca. Aliás, nesse dia celebramos também a data natalícia  de ninguém menos que Dante Alighieri — dia esse que sempre terá direito a debates calorosos e, com certeza, muita comida boa.

Mas vamos ao que interessa: a parte prática do patriotismo!

domingo, 16 de agosto de 2026

foto da turma

Sou professor há mais de trinta anos. E, em face das modernidades interconectadas, algumas lembranças surgem e me fazem pensar o quão rápido o tempo anda passando. Por exemplo, lembro de folhear os álbuns de fotografias e me deparar com aquela foto clássica: toda a turma com o seu professor no pátio da escola ou na sua própria sala de aula. Sempre havia uma plaquinha com o nome da escola, a turma e o ano. Isso acontecia provavelmente porque a escola não era só um prédio, era um marco na vida, e a fotografia da turma, ah, essa era o selo, o atestado da passagem. Não era um mero clique, mas um ritual solene, quase um juramento silencioso.

Exemplo vivo desse ritual é esta imagem de uma turma do curso normal do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG), registrada por volta dos anos 1960. Ela condensa com precisão cada elemento desse protocolo de época.



Acomodadas no pátio interno do prédio — com a balaustrada e a imponente porta de madeira ao fundo —, as alunas estão organizadas na clássica estrutura em patamares. As da primeira fileira aparecem sentadas em um banco comprido, com pernas cruzadas de lado e as mãos suavemente postas sobre o colo, vestindo a tradicional saia escura e camisa branca de colarinho com cinto. Acima delas, duas fileiras de jovens em pé completam a geometria perfeita do grupo.

No centro exato da imagem, como ponto focal e ancoreiro, está a professora. De traje sóbrio, cardigã escuro e uma pasta ou livro apoiado ao colo, ela encarna a presença serena da autoridade pedagógica. Ao seu redor, a estética dos anos 1960 se revela nos detalhes: os penteados volumosos com topetes e cortes estilo pixie, o alinhamento rigoroso dos uniformes e as feições que oscilam entre a timidez e a altivez de quem se preparava para assumir a missão de educar.

Aos seus pés, repousa o pequeno quadro com a identificação da turma (395 / ENAM - NORMALE), o "selo" definitivo que transforma aquele instante casual em um documento histórico e afetivo.


Eu tenho que confessar que também tenho uma foto dessa. A minha foi tirada no dia da minha formatura em Filosofia na Fafich\UFMG. Eu levei a máquina e pedi a minha tia para fazer a foto. Estão lá  eles, os alunos, enfileirados como pequenos soldados da civilidade, raramente sorrindo, porque a seriedade era a virtude da época. Nas fotos que via antigamente os mais baixos ficavam na frente, sentados no chão ou em banquinhos. Os do meio, nas cadeiras, e os mais altos, ou os maiores, em pé, lá atrás. E no centro, invariavelmente, estava ele ou ela: o Professor, com sua postura austera e o olhar que misturava autoridade e a esperança de ver aquelas sementes florescerem. Na minha foto, tirada no dia da formatura, no auditório Baesse (um grande professor que morreu de forma trágica e prematuramente), estamos todos em pé. Os meus colegas de sala e os professores Newton Bignotto, Terea Calvet de Magalhães, Telma de Souza Birchal. Essa foto é um trofeu. Como queria ter uma com os meus colegas e professores do curso de história. E do ensino médio! As fotos que tenho sáo poucas. Tenho aquela sentado na mesa com o mapa mundi, livros e bandeira do brasil. tirada na minha infância. Tenho uma foto só da minha formatura de história. Hoje nos tempos de instagram isso parece algo impossível.

Se hoje vivemos submersos em um mundo de pura imagem, antigamente, a fotografia de turma não era apenas um instantâneo; era a solenidade emoldurada. Um ritual que marcava, com precisão histórica, a travessia de um ciclo vital: o ano escolar.

A cena era sempre a mesma, ditada por um protocolo não escrito: os alunos dispostos em fileiras minuciosas – os mais miúdos sentados no chão, à frente; os medianos nas carteiras; e os maiores, em postura ereta, ao fundo. No centro dessa formação, qual epicentro da disciplina e do saber, estava o Professor. Sua pose, sempre austera, misturava a responsabilidade da autoridade com a esperança silenciosa que todo educador deposita no futuro.

O significado desse registro coletivo transcende a simples recordação e se divide em três pilares fundamentais:

1.  O Selo Institucional: A foto, muitas vezes ostentando uma plaquinha com o nome da escola, a turma e o ano, era a prova material do trabalho da instituição. Ela atestava o cumprimento de sua missão: formar cidadãos. Era o documento visual que dizia à comunidade e à história: "Esta é a colheita do nosso esforço".

2.  A Identidade Coletiva: Longe do individualismo, a imagem consolidava o espírito de corpo daquela classe. Todos os rostos, em sua seriedade quase obrigatória, reforçavam a unidade e a adesão às normas de conduta da época. A postura contida era a expressão do comportamento "desejável", um testemunho da civilidade incutida pela escola.

3.  O Portal da Afetividade: Mais que um registro formal, a foto era o elo mais terno com o passado. Guardada nos álbuns de família, ela carregava vestígios preciosos: o uniforme impecável, o corte de cabelo da moda, o quadro negro como cenário. Com o tempo, esses detalhes se transformam em portais de memória, acionando a saudade das amizades, do cheiro da sala de aula e da figura imponente do mestre.

 

Por isso, ao depararmo-nos com uma dessas imagens – em preto e branco ou no tom nostálgico do sépia –, sentimos mais do que a passagem do tempo. Sentimos o eco de uma geração inteira, a solenidade de um compromisso e a certeza de que a foto de turma é, essencialmente, a moldura em que a memória insiste em eternizar o tempo que se foi. É o troféu de um ciclo, insubstituível na era dos clicks instantâneos.

É por isso que, ao encontrarmos uma dessas fotos antigas, sentimos um eco. Não vemos apenas rostos distantes; vemos a história de uma geração, a solenidade de um tempo e, no semblante sério do Professor, o peso e a honra de ser o guardião do futuro que eles, ali, enfileirados, estavam prestes a construir. A foto da turma é, e sempre foi, a moldura do tempo que insiste em não passar.

Em tempo, quero deixar registrado que esse texto foi pensado depois de tanto procurar e não encontrar esse único registro de uma época que foi fundamental na minha formação. Queria mostrar para os meus alunos pois vamos fazer uma foto com toda a turma na Praça da Liberdade para a gincana que irá concluir as atividades pedagógicas do quarto bimestre.



sábado, 15 de agosto de 2026

Por que ler "A Normalista", de Adolfo Caminha?






Publicado em 1893, o romance A Normalista, do cearense Adolfo Caminha, é uma das obras mais marcantes e provocativas da literatura brasileira. Embora tenha recebido pouca atenção e certo rechaço na época do seu lançamento — em grande parte pelo incômodo que suas denúncias provocavam —, o livro foi posteriormente reconhecido como um dos pilares do Naturalismo no Brasil.

Com uma crítica social ácida e um tom visceral, Caminha traçou um quadro pessimista e cru da vida urbana em Fortaleza no final do século XIX, expondo sem pudores a podridão moral escondida sob os trajes alinhados da burguesia. A trama acompanha a trágica trajetória de Maria do Carmo. Após a morte de sua mãe, a jovem é entregue pelo próprio pai aos cuidados de seu padrinho, o influente tabelião João da Mata.

À primeira vista, Maria do Carmo tem a rotina de qualquer jovem de sua época: estuda para se tornar professora (daí o título "normalista"), conversa com sua amiga e confidente, e alimenta sentimentos por um pretenso namorado de nível social superior ao seu. Porém, sob o teto em que deveria encontrar proteção, a jovem passa a ser alvo da obsessão e da luxúria do próprio padrinho. O desenrolar é devastador: João da Mata a seduz e engravida. Para conter o escândalo e preservar as aparências perante uma sociedade profundamente hipócrita, o abuso é abafado. O desfecho sela o destino de Maria do Carmo, forçada a se casar com o Alferes Zuza — um homem da polícia por quem ela não nutre qualquer afeto.

A Normalista reúne as principais características do movimento naturalista do final do século XIX. Os personagens são retratados como frutos do meio em que vivem, da hereditariedade e de seus instintos mais primitivos. A razão dá lugar às compulsões físicas e mentais.

Adolfo Caminha desafiou os costumes de seu tempo ao tratar abertamente de temas chocantes para a época, como o incesto, a exploração do corpo feminino e a dominação patriarcal. O romance funciona como um raio-X das elites urbanas e das instituições morais (como a família e o clero), mostrando a distância entre o discurso de virtude e as práticas ocultas do cotidiano.

Por que a obra continua relevante?

Mais do que um clássico do passado, A Normalista oferece uma reflexão contundente sobre a vulnerabilidade feminina e o uso da moral como ferramenta de abafamento e controle social. Ao expor a jornada de Maria do Carmo com realismo brutos e sem floreios, Adolfo Caminha construiu um retrato duradouro das contradições humanas e sociais do Brasil.



Amae Educando: uma revista que marcou a educação brasileira


Ah, a rua Pernambuco! Número 47. Bairro Funcionários. Um endereço em Belo Horizonte que não é apenas um endereço, meu caro leitor. É uma fábrica de milagres.

Se aquele casarão falasse, não falaria. Cantaria. Primeiro foi Ginásio Mineiro. Depois vestiu a toga do Tribunal de Relação. Abriu portas para a lendária professora e escultora belga Jeanne Louise Milde. E viu nascer, entre giz, sonhos e a poeira luminosa das tardes de BH, o curso de Administração Escolar do velho Instituto de Educação de Minas Gerais — o nosso imortal IEMG!

Pois bem. Acontece que no ano em que nasci, o lendário ano de 1967, época em que o mundo parecia girar mais rápido que o Sputnik na imensidão azul do céu, um grupo de alunas decidiu cometer uma loucura. Uma doce e perigosa loucura chamada revista Amae Educando.

Veja você: sem dólares no bolso, sem redes sociais, sem algoritmo. Apenas com a cara, a coragem e a fé inabalável no poder transformador da educação. Era o nascimento da Associação Mineira de Administração Escolar.

A revista se tornou única. Foi, para muitas professoras, a Bíblia que introduzia as mais modernas novidades pedagógicas. A academia, em um dos seus grandes momentos de inovação, conseguiu construir uma ponte sólida entre o que se discutia nos cursos de magistério e pedagogia e o "chão" da escola. Não como uma mestra tradicional que declama o livro decorado para a sua aluna passiva, mas em uma relação horizontal e dialógica, em que a universidade traz teorias e apresenta análises, enquanto a escola mostra na prática o que é inovar e como se pode traduzir o "academês" para o dia a dia de professoras e alunos. Consolidou-se, assim, como um importante espaço de debate, repositório de informações e formação continuada de professores da educação básica.

Em um curto espaço de tempo, a revista alcançou circulação nacional e tornou-se um marco para os profissionais da área técnica e docente. Pelo seu papel fundamental no desenvolvimento da educação mineira e nacional, a Fundação AMAE chegou a receber homenagens oficiais de órgãos públicos, como a Câmara Municipal de Belo Horizonte, ao comemorar suas marcas históricas de publicação.

Anos passaram. Veio a inflação, vieram as crises econômicas, trocaram os governos, mudou o século. O cruzeiro virou cruzado, que virou real, e a revista ali: firme na peleja! Atravessando o Brasil de ponta a ponta, entrando na sala de aula do professor como quem pede licença para acender uma vela no escuro. Promovendo congressos, oficinas, jornais, encontros de almas pedagógicas. Mais de quarenta anos de circulação nacional ininterrupta! A revista era mais resistente que a defesa da seleção canarinho de 1970.

Em 2017, a cinquentona Amae Educando celebrou suas bodas de ouro. O tempo passou, a UEMG herdou o trono, mas nas páginas amareladas daquela edição número 83 ainda dá para ouvir o sussurro visionário das alunas de 1967.

Hoje, como muitas revistas brasileiras importantes, ela não circula mais. Quem sabe alguém poderia recriá-la em uma versão interativa na internet? Eu sei que as coisas mudam de nome e de forma. Mas certas paixões — ah, essas não envelhecem jamais!


Ao IEMG Centenário (1906-2006), de Quitéria Oliveira



Nas primeiras páginas de um dos últimos números publicados da Revista Pedagógica do IEMG, veiculamos o poema de Quitéria Oliveira intitulado "Ao IEMG Centenário". A primeira vez que vi esses versos foi em um banner exposto em frente ao teatro principal da instituição — se a memória não me falha, por ocasião de um projeto de leitura e escrita no qual os alunos lançavam seus próprios livros.

O poema — reproduzido ao final deste texto — articula uma oposição semântica fundamental entre a eternidade/permanência e a transitoriedade/decadência. Assim, o texto constrói a imagem do IEMG não apenas como um monumento arquitetônico centenário, mas como um mecanismo vivo de memória, maternidade social e resistência do saber diante da efemeridade do tempo.

A ideia de permanência remete à vida, à memória e à tradição, sendo representada pela preservação da instituição, pela esperança, pelo saber e pelo impacto geracional ("eterniza-te", "futuro", "energia de muitas vidas"). Já a transitoriedade — termo associado aos conceitos de morte, esquecimento e desgaste — expressa-se pela ação do tempo, pelo envelhecimento físico do prédio e pelo desbotar das estruturas ("tempo imperioso", "fraqueza e o desgaste que a idade no seu ciclo se impõe"). Logo, a tensão poética surge do desejo de suspender a entropia do tempo humano por meio da imortalidade da instituição educacional.

A autora fala a partir de uma posição dupla e privilegiada: a de especialista e supervisora (autoridade pedagógica) e a de sujeito apaixonado (pertencimento e devoção). A recorrência da interjeição "Oh!" ("Oh! Baluarte", "Oh! Casa Rosada", "Oh! Majestoso Instituto") marca a dimensão afetiva do discurso, aproximando o poema de um hino de louvor ou de uma oração laica. Além disso, a estrofe que menciona a travessia "entre o conto de fadas e o pranto" traduz a jornada educacional como uma experiência humana complexa, oscilando entre o idealismo romântico e as dificuldades reais do cotidiano escolar.

No nível discursivo, Quitéria Oliveira utiliza figuras e metáforas concretas para materializar conceitos abstratos de educação, afeto e história. A "Casa Rosada da Educação" atua tanto como ícone visual — o prédio histórico identificado por sua cor marcante e arquitetura imponente — quanto como símbolo de resistência, no qual o termo "Baluarte" eleva a estrutura física à condição de fortaleza moral e cultural que resiste às intempéries do tempo.

O IEMG é representado ainda como uma figura maternal, símbolo de acolhimento e equidade. Ao afirmar que o instituto, "como uma mãe, abraças os teus filhos, todos... sem sobrepujar nenhum", estabelece-se um signo de universalidade e inclusão democrática no ensino público: a escola deixa de ser mero espaço funcional para se tornar matriz geradora de cidadãos.

Por fim, o texto antropomorfiza o prédio secular ("como um ancião, não menoscabem a fraqueza e o desgaste"). A semiótica do envelhecimento traz o duplo sentido da sabedoria acumulada em contraposição à vulnerabilidade da infraestrutura física, gerando um apelo ético de cuidado e preservação. Ao recorrer a signos de nobreza e soberania ("Majestoso", "cetro"), o poema reafirma a liderança histórica do IEMG na formação docente e na educação mineira.




Ao IEMG Centenário (1906-2006)

 

Quitéria Oliveira

Especialista em educação e supervisora do ensino fundamental do Instituto de Educação de Minas Gerais, turno manhã

 

 

 

Oh! Baluarte Casa Rosada,

Que o tempo imperioso,

não dissipe os teus encantos.

Fostes apoio e conforto nas jornadas,

acalento para os que trilharam tua juventude,

esperança para os que trilham tua plenitude.

 

És o sonho...

Sonho dourado!

Dos que ouvem ressoar o teu nome,

Mesmo nos longíquos rincões,

és a certeza,

de um futuro que vislumbra

uma manhã vitoriosa.

 

Como uma mãe, abraças

os teus filhos,

todos... sem sobrepujar nenhum.

 

Oh! Casa Rosada,

eterniza-te, para que sonhos,

sejam sonhados sempre.

 

Aos filhos teus, deixas

uma mensagem

de otimismo e bravura,

como um ancião, não menoscabem,

a fraqueza e o desgaste que

a idade no seu ciclo se impõe.

 

Oh! Casa Rosada

tens a energia de muitas vidas,

que passaram e admiraram

os teus encantos

com a mesma esperança e fantasia,

entre o conto de fadas e o pranto.

 

Oh! Majestoso Instituto,

não perca jamais o teu cetro

és o maior encanto e beleza.

Que sejas na altivez do bom exemplo,

fazendo dos teus filhos, todos...

Cidadãos verdadeiros... guardiões do tempo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Dia em que Quase Fizemos a Revolução das Artes na Afonso Pena (texto de Ronaldo Campos)


 De tempos em tempos, eu me pego navegando pelas minhas "escrevivências". Esse meu blog com nome comprido, filosófico, quase um tratado pedagógico: De aprender, (des)aprender e (re)aprender. Mas o tempo, esse grande editor da vida, encurtou o título para o que ele realmente sempre foi: Blog do professor Ronaldo Campos.

Afinal, a gente muda o rótulo, mas o caderno de memórias continua pulsando. E hoje me veio à cabeça um daqueles episódios em que a vida resolveu imitar o teatro do absurdo.

Aconteceu nos anos dourados do UniBH, quando eu lecionava no Curso Normal Superior — meu verdadeiro xodó. Eu tinha no peito aquele ufanismo bonito dos pioneiros da educação. Olhava para as minhas alunas e enxergava nelas o mesmo DNA de Carvalho de Britto e João Pinheiro, os idealizadores da Escola Normal Modelo. Eu não queria dar aulas entre quatro paredes. O mundo era a minha sala.

Belo Horizonte vivia o primeiro mandato do governador Aécio Neves. E eu, em minhas peregrinações diárias rumo ao campus, passava em frente ao Palácio das Artes e namorava os cartazes. Vi na Grande Galeria o anúncio de uma exposição extraordinária. O coração de professor disparou: "Tá aí. É essa a minha aula!".

Passei uma semana inteira noites a fio desenhando o projeto. Levei para a coordenação. As saudosas professoras Geralda e Consolação — duas almas generosas — deram o carimbo de aprovação. As alunas vibraram. Marquei a aula secreta e gloriosa para uma segunda-feira à tarde, na porta da Fundação Clóvis Salgado.

O que eu não sabia — ah, a inocência dos homens apaixonados pela arte! — é que o destino já tinha armado sua teia na edição do MGTV daquela semana. O governador decidira fechar o Palácio das Artes para reformas e preparativos do Fórum das Américas. Tudo suspenso. Tudo trancado a sete chaves. A única exceção no prédio inteiro era a temporada comemorativa do Grupo Corpo no Grande Teatro. Mas quem assiste televisão quando se está planejando mudar o mundo com a educação?

Na hora marcada, a Afonso Pena parecia um formigueiro. Uma a uma, chegaram mais de quarenta alunas, compenetradas, cadernos em riste. Éramos uma verdadeira tropa da cultura.

Entramos no saguão com passos firmes de quem vai tomar a Bastilha. Marchamos direto para a Grande Galeria. E foi aí que o paredão da realidade nos parou na figura do segurança do Palácio.

— Pois não, professor. A exposição acabou.

— Como acabou? Eu agendei! Ninguém me avisou!

Iniciei uma peleja verbal digna de um clássico no Mineirão. E, veja você a força de Belo Horizonte: quanto mais eu argumentava, mais a calçada parava. O povo que passava de ônibus, de táxi, a pé, começou a se aglomerar atrás da nossa turma. Em dois minutos, formou-se uma multidão no saguão.

O problema é que os mineiros não queriam a minha exposição de arte contemporânea. Olharam para aquele mar de gente, viram o movimento e pensaram: "É fila de ingresso extra para o Grupo Corpo!".

O caos estava instalado. O povo gritando por ingressos para o dança, eu gritando pela minha exposição de artes visuais, as alunas sem entender nada e o segurança desesperado.

De repente, a cena ganha contornos de cinema de espionagem: surge a Polícia Militar.

— Circulando, circulando! Isso aqui é incitação ao tumulto! Estão querendo fazer uma rebelião contra o Governo do Estado!

Fomos desrespeitados. Expulsos com a glória dos incompreendidos. Não houve exposição, não houve Grupo Corpo, não houve diplomacia cultural.

Sem ter como dar a aula e com o orgulho levemente ferido, a minha tropa de futuras professoras tomou uma decisão épica: ir embora a pé. Afinal, da Afonso Pena até a Lagoinha, para o povo de Minas, é um pulinho só.

Caminhamos a passos largos pela avenida. No meio do trajeto, o olhar atento das alunas fisgou um portal para o paraíso consumista: no meio da Praça Sete, bem pertinho do Cine Brasil e do lado da primeira agência do Banco do Brasil, uma loja gigante com a placa Feira Shopping e dezenas de cartazes de promoção. Roupas da moda a preço de banana.

As quarenta e poucas alunas invadiram a loja com a mesma fúria com que tentamos invadir a galeria. Em menos de cinco minutos, a rua parou de novo. A população, vendo aquele mar de mulheres saindo com sacolas, achou que a loja estava dando mercadoria de graça. Formou-se uma nova multidão na porta.

E foi assim, entre uma suspeita de rebelião estatal na Fundação Clóvis Salgado e um tumulto de compras na Afonso Pena, que a nossa aula na galeria de arte terminou sem nunca ter acontecido.

Histórias de professor: o Maracanã das amarguras e o coreto da glória

 


Perder é uma arte dolorosa, mas perder jogos esportivos em uma gincana de escola é tragédia grega com uniforme de educação física.

Ninguém entende a dor de um professor de História até que ele se veja no comando da delegação de Curitiba — a turma mais famigerada, falada e derrotada do colégio nos jogos esportivos de 2024.

A culpa, veja você, era toda da expectativa. Tínhamos na sala o Garrincha do bairro, o Pelé da Savassi, um garoto prodígio que já tinha passado na peneira do Cruzeiro e dado entrevista na televisão. O rapaz não andava, flutuava. A turma já cantava vitória antes do apito inicial. Mas aí veio a burocracia do destino: "E se o garoto machuca o joelho precioso no parquet do ginásio?". O craque não jogou. Ficou no banco das ilusões, de banho tomado e chuteira sem lama.

Resultado? A tragédia do Paraná.

Perdemos no futebol. Perdemos no vôlei. Fomos massacrados no basquete. Eu não podia caminhar pelos corredores em paz. Bastava eu pisar na sala do Espírito Santo para os meninos levantarem a bandeira capixaba na minha cara, lembrando o massacre do futebol. Passava pela porta da Bahia e vinha o riso debochado por causa do vôlei. O Paraná devia a vida, a honra e a tabela de classificação.

Restavam ainda alguma esperança. Quem sabe nas provas de conhecimento... na tarefa relâmpago ou na tarefa gastronômica... O primeiro passo para reverter a onda de insucesso era uma única foto.

Se a turma inteira aparecesse na foto oficial no coreto da Praça da Liberdade, devidamente uniformizada, os pontos da tarefa entrariam na conta e salvariam Curitiba do rebaixamento moral.

Na quarta-feira à tarde, o milagre da assiduidade aconteceu. O bilhete aos pais surtiu efeito. Ninguém faltou. Éramos um exército de camisetas idênticas, estampadas com a Gralha Azul e as cores do Paraná, marchando a pé do prédio da escola rumo à praça.

Chegamos ao coreto com a solenidade de quem vai assinar um tratado de paz. E foi aí que o destino tropeçou na nossa comédia.

Um guarda municipal, com o garbo das autoridades atentas, se aproximou. Olhou para as nossas camisas reluzentes, olhou para a grande bandeira verde e branca aberta nas escadarias do coreto, olhou para a minha cara de professor compenetrado e decretou, comovido:

— Pode deixar, professor! Sejam muito bem-vindos a Belo Horizonte. Aqui a segurança é garantida para o turismo pedagógico do nosso país!

Ele achou que é tínhamos vindo de ônibus direto de Curitiba.

Eu, que trazia na alma as feridas do futebol e do basquete, não desmenti. A turma engoliu o riso e assumiu a postura do orgulho paranaense. O guarda municipal virou nosso embaixador. Postou-se em guarda de honra, afastou os curiosos e fez questão de ser ele mesmo o fotógrafo oficial da nossa delegação fictícia.

As pessoas passavam. Os ônibus reduziam a marcha na Avenida João Pinheiro. Passageiros debruçavam nas janelas para acenar para os "estudantes do Sul". E nós, rindo por dentro da maior farsa geopolítica da história da escola, posei-mos como campeões nobres e misteriosos.

Não ganhamos na quadra. O craque da TV não deu um chute a gol. Mas naquele enquadramento perfeito, debaixo do rendilhado de ferro do coreto da Praça da Liberdade, a turma de Curitiba foi, por cinco minutos inesquecíveis, a dona do mundo.

Se a foto valeu os pontos na gincana? Pouco importava. Naquela tarde, Belo Horizonte inteira aplaudiu a nossa derrota.