domingo, 29 de março de 2026

O Óculos de Enxergar o Invisível (ou: Para que Serve a Filosofia, Afinal?)

 Sabe, outro dia eu estava pensando: muita gente acredita que Filosofia é coisa de quem vive no mundo da lua, batendo papo com Platão e Aristóteles enquanto a vida real passa lá fora. Uma espécie de esporte olímpico para o cérebro, cheio de regras complicadas e utilidade zero.

Mas, caríssimo leitor, se olharmos com atenção, a Filosofia não é um bicho de sete cabeças. Ela (assim como as outras ciências também) é mais como um par de óculos especial. Um par de óculos que, quando a gente coloca, o mundo para de ser "assim mesmo" e passa a ser "por que é assim?". É a recusa ciente de se satisfazer com o mínimo, com a resposta pronta, com a explicação que o vizinho deu ou que a TV repetiu. Filosofia é a arte de fazer perguntas incômodas e ter a coragem de procurar respostas que, às vezes, nem existem — ou, se existem, são bem mais complexas do que gostaríamos.

Chauí já dizia que é uma "disposição interior", um desejo de saber. Não é algo distante, não. Filosofar é o sujeito conseguir ler a realidade e, a partir dali, rabiscar seu próprio pensamento. É o contrário de ser um robô repetidor de frases de efeito. Qualquer um pode filosofar? Sim! Mas, atenção: nem tudo é Filosofia. Não basta sair por aí dando palpites. É preciso transformar a afirmação chata numa interrogação curiosa. É preciso ver o mundo de um jeito diferente.

Aí você me pergunta: "E o que isso tem a ver com o Assistente Social?". Eu lhe respondo: Tudo! O trabalho desse profissional exige argumentos, exige uma visão que enxergue além do óbvio, além da ficha cadastral. A Filosofia é o antídoto contra o conformismo, contra o olhar preguiçoso que se acostuma com a injustiça. É ela que ajuda a formar um olhar cada vez mais interrogador sobre a realidade que grita na porta.

Pense em Platão. O homem elaborou sua teoria no meio de uma crise pesada em Atenas. Ele olhava para a bagunça e se perguntava: "Como seria a cidade ideal?". Buscava o Bem não como algo abstrato, mas como uma ideia para ser vivida por todos. Ao ler sua obra, a gente topa com o conceito de cidadania. E cidadania, leitor, não é só ter um documento. É ter a liberdade de ir e vir, de participar, de ser.

É exatamente aqui que a Filosofia aperta o cinto do Assistente Social. Quando estamos lutando para mostrar que uma pessoa com deficiência visual pode fazer tudo — lógico, com as dificuldades naturais, mas com os direitos assegurados —, estamos fazendo Filosofia pura. Estamos questionando a exclusão. Estamos enxergando a cidadania que o mundo, muitas vezes, faz questão de tornar invisível.

Aristóteles, o outro "gigante", acreditava que o que formava a cidade era justamente a diferença. E quando uma pessoa não tem direito à cidadania, quando ela é invisibilizada, ela se isola. O isolamento pode levar à depressão, e a depressão, sabemos, pode até matar. O papel do Assistente Social é, portanto, o de um "anti-isolante". Não permitir a exclusão, mas brigar pela inclusão. Porque quando você está incluído, você não está só. Você cria motivos para superar.

E para fazer tudo isso, caríssimo leitor, precisa de persuasão. Uma persuasão boa, construtiva, que mude as coisas sem machucar o outro. E é com a Filosofia que aprendemos a melhor forma de fazer isso. Não é gritar, não é impor; é saber fazer a pergunta certa que ilumina o caminho da mudança.

Questões antropológica

 


“No sábado, 12.9, chegada à Nova Guiné. Pela manhã, viam-se as montanhas enevoadas a distância. Uma cordilheira muito alta atrás das nuvens, com várias outras cordilheiras abaixo dela. Penhascos rochosos chegando até o mar. O vento estava bastante frio. Ao largo, um recife de coral, os destroços do Merry England a minha direita. Um morro atrás do qual fica Port Moresby. Eu me sentia cansado e vazio por dentro, de forma que minha impressão foi muito vaga. Entramos no porto e esperamos o médico, um homem de cabelos escuros, gordo e desagradável. Deixei minhas coisas no camarote e desembarquei. [...] Na aldeia [...], os anciãos haviam se reunido para me passar informações. Agacharam-se em fila ao longo da parede, carapinhas sobre torsos negros, vestidos com camisas velhas e rasgadas, roupas de caça remendadas e pedaços de uniformes caqui, e sob essas vestimentas civilizadas se entreviam sibis, uma espécie de cinto que cobre as costas e partes adjacentes do corpo. O cachimbo de bambu circulou rapidamente. Um pouco intimidado por esse conclave, sentei-me à mesa e abri um livro. Consegui informações sobre iduhu, genealogia, perguntei sobre o chefe da aldeia, etc. ao crepúsculo, os anciãos partiram.” (MALINOWSKI, Bronislaw. Um diário no sentido estrito. Rio de Janeiro: Record, 1997. P.46-47)

 

O trecho acima é uma transcrição literal do diário de campo de Malinowski. Considerado o responsável pela sistematização metodológica da pesquisa antropológica e por salientar que os dados coletados deveriam ser registrados em um diário de campo para que o material pudesse ser rememorado. Avalie as informações abaixo sobre o diário de campo como instrumento de pesquisa de análise antropológico.

 

I – O diário de campo surgiu como método de pesquisa inicialmente no campo da antropologia (amplamente utilizado em pesquisas etnográficas). Pode ser descritivo ou reflexivo. No primeiro caso, busca captar uma imagem da realidade, com seu máximo detalhamento No segundo caso, busca-se apreender o ponto  de vista  do observador,  suas percepções, suas ideias e preocupações.

II - O diário de campo permite anotar todos os detalhes observados no cotidiano da tribo, observar as regularidades da vida tribal, assim como seus imponderáveis, buscar apreender apenas a organização social, desconsiderando a sua visão de mundo do grupo estudado.

II - Todos os detalhes observados devem ser registrados em um diário de campo pelo antropólogo, sobretudo o contexto no qual o observador recolheu o dado, constituindo-se o material bruto, de onde, depois de analisados e interpretados, irão tomar a forma textual de uma descrição o mais densa possível e que recebe o nome de etnografia.

IV – O diário de campo não deve ser combinado com outras técnicas de investigação, isto por que não contribuirá para o aprofundamento da busca de informações e não garantirá a coerência do conjunto de técnicas conceituais e princípios  metodológicos  que fundamentam as práticas sociais em  questão.

 

É correto apenas o que se afirmam em


A)          I e II

B)          I e III

C)          II e III

D)         II e IV

E)          III e IV


Fonte da imagem: disponível no site: <http://1.bp.blogspot.com/-K_0NDpm4bIg/Uf58S6I20TI/AAAAAAAAAJ8/ZtK639Vc5ig/s640/diversidade+cultural.jpg>, acessado em março de 2015.

 

Etnocentrismo é um preconceito que cada sociedade ou cada cultura produz ao mesmo tempo em que procura incutir, em seus membros, normas e valores peculiares. Se sua maneira de ser e proceder é a certa, então as outras estão erradas, e as sociedades que as adotam constituem “aberrações”. Assim o etnocentrismo julga os outros povos e culturas pelos padrões da própria sociedade, que servem para aferir até que ponto são corretos e humanos os costumes alheios. Desse modo, a identificação de um indivíduo com sua sociedade induz à rejeição das outras. O idioma estrangeiro parece “enrolado” e ridículo; seus alimentos, asquerosos; sua maneira de trajar, extravagante ou indecente; seus deuses, demônios; seus cultos, abominações; sua moral, uma perversão etc.

 

Correlacionando a charge e o texto avalie as informações a seguir.

 

I - O  fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural e é responsável por muitos conflitos sociais.

II - O olhar etnocêntrico considera que cada escolha cultural não pode estar subordinada a uma perspectiva cultural e significa que nenhum sistema social-cultural pode ser considerado como certo ou adequado.

III - O etnocentrismo é um preconceito, e suas derivações doutrinárias (racismo, evolucionismo cultural etc.) são ideologias (consciência falsa e falsa ciência), o relativismo cultural pertence à esfera da ciência.

IV – O etnocentrismo é uma crença relativista que impossibilita determinar um grupo como superior em relação aos demais e pode  tomar formas perigosas e  socialmente destrutivas.

 

 

É correto apenas o que se afirma em


A)     III e IV 

B)       II e IV

C)       I e IV

D)       II e III

E)       I, III 


Italo Calvino escreveu em sua obra Seis propostas para o próximo milênio: “(...) quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras” (CALVINO, Itálo. Seis propostas para o próximo milênio: Lições Americanas. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 138).

Analisando essa afirmação de Calvino, podemos deduzir que na realidade o ser humano é produto da cultura ao mesmo tempo que ajuda a produzir a cultura na qual está inserido.

PORQUE

 

De acordo com a antropologia, o conceito de cultura é uma expressão simbólica das linguagens, da imensa diversidade que caracteriza o processo e os modos como os povos definem as suas identidades. A cultura é um elemento fundamental de resgate dos valores sem os quais a experiência humana torna-se uma experiência empobrecida e amarga

 

A respeito dessas asserções, assinale a opção correta

 

 

 

A)         As duas asserções são proposições verdadeiras e a segunda é uma justificativa correta da primeira.

B)          As duas asserções são proposições verdadeiras, mas a segunda não é uma justificativa correta da primeira;

C)          A primeira asserção é uma proposição verdadeira e a segunda uma proposição falsa.

D)         A primeira asserção é uma proposição falsa e a segunda uma proposição verdadeira

E)          Tanto a primeira quanto a segunda asserções são proposições falsas.


O mundo é pequeno pra caramba\ Tem alemão, italiano e italiana\ O mundo filé milanesa\ Tem coreano, japonês e japonesa\ O mundo é uma salada russa\ Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia\ O mundo é uma esfiha de carne \Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire\ O mundo é azul lá de cima \O mundo é vermelho na China\ O mundo tá muito gripado\ O açúcar é doce, o sal é salgado\ O mundo caquinho de vidro\ Tá cego do olho, tá surdo do ouvido \O mundo tá muito doente \O homem que mata, o homem que mente\ Por que você me trata mal \Se eu te trato bem \Por que você me faz o mal \Se eu só te faço o bem \Todos somos filhos de Deus \Só não falamos as mesmas línguas \Todos somos filhos de Deus \Só não falamos as mesmas línguas \ Everybody is filhos de God \Só não falamos as mesmas línguas \Everybody is filhos de Ghandi \Só não falamos as mesmas línguas

 

A canção O mundo de de Andre Abujamra (gravada originalmente pelo grupo Karnak) reproduzida acima mostra uma série de questões e temas trabalhados pela antropologia cultural, entre eles, podemos citar os conceitos de etnocentrismo e relativismo cultural, ambos muito em voga nos dias de hoje, uma vez que vivemos num mundo globalizado. Tais conceitos estão relacionados ao exercício da tolerância entre os povos. Isto é algo extremamente imprescindível para a construção de um mundo sem violências, espacialmente mais humanizado, apesar das diferenças geográficas e, principalmente, culturais.

 

Nessa perspectiva, podemos afirmar que:

 

A) a letra da música mostra um comportamento pouco comum conhecido como apatia, ou sejam há a negação da superestima dos valores de sua própria sociedade e a perda da motivação que os mantém os grupos culturais unidos.


B) a letra da música reafirma uma série de preconceitos etnocêntricos e o autor desconhece o princípio do relativismo cultural. Pois, nos exemplos citados, não há a defesa do direito de outros de conservar a sua própria cultura frente o processo de aculturamento.


C) de acordo com a letra da música, é possível afirmar que não há culturas superiores nem inferiores (relativismo cultural). Os sistemas de valores devem compreender-se dentro do contexto de cada cultura e não de acordo com os padrões da cultura do antropólogo.

         

D)         a ideia central da letra da música é o conceito de etnocentrismo. Ideia fundada no fato de que todos os sistemas culturais não são essencialmente iguais em relação ao seu valor, e as diferenças entre as diversas sociedades surgiram como resultado de suas próprias condições históricas, sociais e / geográficas.

E)          a letra da música faz referência direta ao conceito de aculturação que pode ser definido como o processo pelo qual duas ou mais culturas diferentes, entrando em contato contínuo, originam mudanças importantes em uma delas ou em ambas.


 

Associe as duas colunas, relacionando o conceito ao seu significado

 

 

Conceitos

 

(1) Antropologia Cultural

(2) Cultura

(3) Espaço Social

(4) Adaptação

(5) Assimilação

 

 

Significados

 

(___) Totalidade de padrões aprendidos e desenvolvidos pelo ser humano. É um complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade

(___) É uma espécie de universo constituído pela população humana. É totalmente contrário do espaço geográfico, cuja existência de seres humanos é indiferente.

(___) É o ajustamento biológico do ser humano em relação ao ambiente físico em que vive. Pode ser também aplicado à vida em sociedade, que ocasiona o surgimento de certo denominador comum entre os componentes de uma sociedade particular, certo grau de adesão e conformidade às normas estabelecidas, que são variáveis de acordo com a margem de liberdade e de autonomia que o meio social permite ao indivíduo.

(___) Processo social em virtude do qual indivíduos e grupos diferentes aceitam e adquirem padrões comportamentais, tradição, sentimentos e atitudes de outra parte. É um ajustamento interno e indício da integração sócio-cultural, ocorrendo principalmente nas populações que reúnem grupos diferentes.

(___) Abordagem integrativa que objetiva levar em consideração as múltiplas dimensões do ser humano em sociedade, isto é como ser biológico, social e cultural. É uma forma de conhecimento sobre a diversidade cultural.

 

A sequência correta dessa associação é

A)         (2)(3)(4)(5)(1)

B)          (1)(2)(3)(4)(5)

C)          (3)(2)(4)(1)(5)

D)         (4)(2)(1)(3)(5)

E)          (5)(1)(2)(4)(3)

Gabarito 

1 B

2 E

3 A

4 C

4 A

O Brasil que a Gente Esconde na Calçada


 

Hoje, fiquei pensando: e se Monteiro Lobato vivesse nos tempos atuais? Certamente, ele não gastaria tinta com o Jeca Tatu. Outros problemas, bem mais graves, o afligiriam, levando-o a escrever sobre o feminicídio ou sobre a "infância desvalida" — como se dizia em sua época.

Caríssimo leitor, se nosso querido autor de Taubaté escrevesse sobre a violência contra a criança, fatalmente o Visconde de Sabugosa, com toda a sua sabedoria de milho, iria analisar as estatísticas disponíveis. E se ele escolhesse a nossa querida Belo Horizonte, certamente derrubaria a cartola de tanto susto. É que o Brasil, esse país que adora fazer leis com imensa dificuldade de sair do papel para o mundo das pessoas reais, escreveu no tal do Estatuto da Criança e do Adolescente que nossos meninos e meninas são "prioridade absoluta". Mas, entre o papel do livro e o asfalto do centro de BH, parece que o caminho foi cortado por um bando de onças famintas.

Dona Benta, com seu olhar de avó que tudo compreende, diria que não se pode culpar o passarinho por cair do ninho quando o galho está podre. O que leva um adolescente de 17 anos a trocar a escola pelo emprego de vendedor de balas? Não é falta de vontade ou uma escola "(des)interessante"; é o estômago gritando e a falta de um programa de educação real e exequível que busque transformar a vida dos jovens. O menino não frequenta a aula porque o sono da rua é tardio e a fome não espera o sinal bater.

Dizem os entendidos — e aqui o Visconde ajustaria os óculos — que existem as "crianças na rua" e as "crianças de rua". As primeiras ainda têm um ninho para onde voltar à noite; as segundas têm apenas a marquise e o vício, que chega de mansinho como um lobo em pele de cordeiro. Em Belo Horizonte, a coisa é curiosa: o trabalho infantil adora um bairro nobre. Os meninos do Aglomerado da Serra descem para o Centro-Sul, onde o dinheiro circula, mas o respeito muitas vezes fica guardado no bolso.

O que me revolta, e aqui o Lobato falaria com a língua de fogo, é o tal do "higienismo". Muitas vezes, buscam qualquer pretexto para cortar gastos. São capazes de fechar um projeto voltado para as crianças em situação de rua alegando goteira no prédio! Ora, goteira se conserta com telha, não com o fechamento de um porto seguro para quem só tem a intempérie como teto. É a velha mania das autoridades de querer limpar a cidade varrendo gente para debaixo do tapete.

A verdade, leitor, é que a criança de rua não é um "fenômeno", é uma denúncia. É o reflexo de famílias desestruturadas e de um Estado que prefere bater metas de arrecadação a bater metas de dignidade. O serviço de abordagem tenta, mas enquanto a sociedade fechar o vidro do carro e achar que o problema é "do juiz ou da OAB", continuaremos sendo esse país de faz-de-conta onde o futuro dorme ao relento.

Precisamos de uma abordagem que não seja apenas "retirar da rua", mas "incluir na vida". Que o diga a Constituição! Que o diga o ECA! Mas, enquanto a "pátria do saber grave" de Herculano não chegar por aqui, ficaremos assim: vendo nossos pequenos malabaristas queimando a juventude em troca de trocados, enquanto o Brasil oficial finge que não vê a fumaça.

O Brasil no Papel é um Luxo; o Problema é o Aluguel

 

Sabe aquele ditado que diz que "o papel aceita tudo"? Pois bem, a nossa Constituição de 1988 é uma obra de arte. Se ela fosse um anúncio de imobiliária, o Brasil seria a cobertura mais cobiçada do planeta: "Direito à moradia digna para todos, com vista para a Declaração Universal dos Direitos Humanos e varanda gourmet para a cidadania". O problema é que, na hora de pegar as chaves, a realidade brasileira nos entrega um puxadinho com infiltração.

A gente vive nesse compasso de espera desde 1930. Antes disso, moradia era problema de quem não tinha onde cair morto — e o Estado achava que não tinha nada com isso. Foi só em 1938 que o governo percebeu que, se todo mundo vinha do campo para a cidade, alguém precisaria levantar umas paredes. Mas, como no Brasil a gente adora uma desigualdade com pedigree, herdamos aquela velha mania das grandes propriedades e das monoculturas. Resultado? Sobra terra para o gado e falta teto para o gente.

É aí que entra o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), que surgiu nos anos 90 para lembrar que "invasão" é um termo relativo quando o que está em jogo é o "direito de existir debaixo de um telhado". Muita gente olha e diz: "Mas isso é anarquia!". Outros dizem que são "massas de manobra". Mas, se pararmos para analisar com o rigor de quem olha o microscópio, veremos que as ocupações são o grito de quem cansa de ser espectador de um banquete onde nunca é convidado.

O nó da questão é que a política habitacional no Brasil parece aquele vizinho que promete consertar a cerca, mas nunca traz a caixa de ferramentas. Falta vontade política, sobra repressão policial e a integração entre política urbana e social continua sendo um sonho tão distante quanto a casa própria sem juros.

O MTST luta contra o capital, contra o Estado e contra a ideia de que a miséria nos centros urbanos é um acessório inevitável da paisagem. Eles se organizam, ocupam e reivindicam porque, no fim das contas, a Constituição é um livro lindo, mas não protege da chuva.

Se quisermos resolver o problema, não basta dar tinta para pintar a fachada da lei. É preciso reformar os alicerces da nossa política urbana. Enquanto a moradia for tratada como um privilégio de poucos e não como o fundamento de muitos, continuaremos sendo esse país de "sem-tetos" com diplomas de cidadania debaixo do braço.

sábado, 28 de março de 2026

Carta ao Leitor: O Bordado da Memória e o Casarão Rosado - O Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG)


Carta ao Leitor: O Bordado da Memória e o Casarão Rosado

Advertência: Hoje, resolvi escrever uma carta para os meus leitores (aqui do blog) para falar um pouco da minha relação com um lugar de memória importante para todos nós aqui de Belo Horizonte


Caro leitor,

Sempre tive comigo que a memória é um bordado feito de fios particulares que, no fim, desenham o rosto de todo um povo. Gosto de olhar para trás não por melancolia, mas por uma curiosidade mansa de entender como chegamos até aqui. Escrevo-lhe como professor e pesquisador que vive em Belo Horizonte, essa cidade que ainda carrega a tradição de liberdade de Minas Gerais e guarda, em certas esquinas, o peso e a elegância de séculos que se misturam.

Dentre todos os recantos que o meu olhar de mestre aprendeu a amar, nenhum me fala tão alto quanto o casarão rosado da Rua Pernambuco. É um prédio de uma fidalguia antiga, com suas escadarias de mármore que parecem esperar o passo de damas de outras épocas e jardins que guardam o rigor francês sob o sol das Minas Gerais. Dizem que foi feito para ser tribunal, mas o destino — que sabe das coisas — tratou de convertê-lo em templo de ensinar: o nosso Instituto de Educação (IEMG).

A imagem daquela fachada imponente me perseguia desde menino, como um gigante adormecido no centro da cidade. Mas foi no início de 2002 que a vida me deu a chave daquela porta. Lembro-me, como se fosse hoje, do impacto de cruzar o hall de entrada pela primeira vez, já investido da missão de mestre e estudioso. Havia ali um silêncio que não era vazio; era um silêncio cheio de ecos.

Com o passar dos dias, o Instituto deixou de ser apenas um endereço para se tornar um "lugar". E lugar, no meu dicionário de afetos, é o espaço que a gente batiza com a convivência. Conhecer um lugar leva tempo, pede paciência e uma certa entrega. É preciso repetir os mesmos passos, subir as mesmas escadas e notar como a luz do fim da tarde bate nos relevos de Jeanne Milde, até que as paredes comecem a nos contar seus segredos.

Percebi, então, que a alma daquele casarão não morava no mármore de Carrara, mas no capital humano que ali floresceu. Sob aquele teto, formaram-se as mestras que alfabetizaram Minas; ali se pensou o Brasil; ali se recebeu o mundo. Como pesquisador, vi o monumento se transformar em documento. Descobri que as festividades cívicas e os grandes congressos do passado eram o coração pulsante da nossa cultura. O casarão guardou tudo: o móvel antigo, o livro raro, a fotografia amarelada e, principalmente, a marca de tantos personagens que ali deixaram um pedaço da própria trajetória.

Hoje, já não posso caminhar livremente por aqueles corredores. Desde o incêndio de 2023, o prédio fechou-se para reforma e restauração. Mas em fevereiro de 2026, tive o privilégio de visitá-lo para ver os progressos da obra. Foi como voltar ao passado. Senti, com a força da primeira vez, que o Instituto é uma extensão da nossa própria pele. Ele continua sendo o guardião das nossas lembranças, um tesouro em mãos seguras.

Ao sair do prédio e pisar novamente no asfalto da cidade, compreendi que ser professor e pesquisador naquele espaço é entender que somos todos fios desse mesmo bordado, unidos por um ideal superior. Convido você a mergulhar nestas páginas e descobrir como esse "jardim de saber" ainda floresce dentro de cada um de nós.

Com gratidão e esperança,

Ronaldo Campos

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Naufrágios Invisíveis: O que a Antropologia nos Ensina sobre a Rua (texto: Ronaldo Campos)

 Naufrágios Invisíveis: O que a Antropologia nos Ensina sobre a Rua




Sempre me intrigou essa mania que temos de olhar sem ver, ou seja, de não conseguir perceber que há outras pessoas além de nós (além dos nossos). Passamos pelas calçadas de passos apressados, desviando de volumes estendidos no chão como se fossem meros acidentes geográficos do concreto. Mas a Antropologia — essa ciência que é, no fundo, uma forma de paciência — nos ensina que o homem é um bicho vasto, infinito em suas dobras, e que não existe "o outro" sem que haja, antes, um espelho.

O antropólogo não é um turista do exótico. Ele é alguém que se despe de si mesmo para vestir a pele do mundo. Não quer mudar ninguém; quer, antes, entender por que o laço do sapato é dado daquela forma e não de outra. Para ele, a cultura não mora apenas nos museus ou nas óperas, mas no modo de comer, de rezar e, sobretudo, no modo de resistir. Quando esse estudioso se debruça sobre a rua, ele não vê o "viciado" ou o "vagabundo", categorias tão caras ao nosso preconceito de estimação. Ele vê um sobrevivente de naufrágios invisíveis.

A Arte de Estender a Mão (e o Ouvido)

Para quem trabalha com outro, tendo a empatia como base e sem confundir acesso aos direitos com caridade ao desvalido. Provavelmente, o melhor exemplo nesse caso se encontra naquelas pessoas que estão na vanguarda  da assistência social. Eu creio que o assistente social tem a Antropologia como uma das suas mais importantes ciências auxiliares. Por isso, posso afirmar que o pensamento antropológico é muito mais que teoria: é uma caixa de ferramentas para a alma. É ela que ensina que, para entrar no mundo de quem a vida trancou do lado de fora, é preciso pedir licença. Não se invade a subjetividade alheia com protocolos rígidos. É preciso empatia, essa palavra tão gasta, mas que aqui recupera seu brilho original: a capacidade de sentir o frio do outro sob a própria pele.

A rua, para o olhar treinado (do antropólogo e também do assistente social) , deixa de ser apenas o vazio entre dois prédios. Ela se torna um território simbólico, um palco de dramas e pequenas vitórias que a nossa pressa não nos permite aplaudir. Cada homem sentado num papelão carrega um inventário de perdas:

  • A revolta contra um Estado que é madrasta;

  • O cansaço de uma pobreza que mói o espírito;

  • O esfacelamento de famílias que não aguentaram o peso do mundo.


A Invisibilidade como Sentença

Há quem diga que o tráfico ou a prostituição são escolhas. Essas pessoas demonizam aqueles que têm a sua trajetória de vida nas ruas. A Antropologia, com seu olhar de cronista do real, sabe que muitas vezes são apenas as únicas portas abertas quando todas as outras foram fechadas com cadeados de indiferença. O sujeito que se sente incapaz acaba, por fim, acreditando na própria invisibilidade. E nada dói mais do que ser transparente para o semelhante.

Eu sei que o ato de aceitar a cultura do outro não é apenas concordar com a sua dor, mas é também (e sobretudo é) respeitar a sua humanidade para poder, quem sabe, ajudá-lo a se reintegrar na sociedade como um cidadão de fato republicano.

No fim das contas, o que essa ciência antropológica nos sopra ao ouvido é um segredo simples e devastador: todos somos iguais, ou deveríamos ser, sob o manto da lei e do sol. Se pararmos para observar com o tempo necessário — o tempo de um café, de um silêncio compartilhado —, perceberemos que o estigma é uma construção nossa, uma cerca que levantamos para não admitir que aquele homem no chão é, em tudo, rigorosamente igual a nós. Apenas teve menos sorte nos dados que a vida lançou sobre o asfalto.

Só Sei que Nada Sei (e o WhatsApp Também Não): O Resgate da Dúvida (Texto de Ronaldo Campos)



Só Sei que Nada Sei (e o WhatsApp Também Não): O Resgate da Dúvida (Texto de Ronaldo Campos) 

Olha, vou lhes dizer uma coisa com a sinceridade de quem já viu o Gabigol perder gol feito (e até perder penalti que era dado como certo): esse tal de "mundo pós-moderno" está mais confuso que trânsito na Savassi em dia de chuva. A gente corre, corre e, no fim das contas, fica se perguntando: ainda tem lugar para a Filosofia no Brasil do século XXI? Ou a Grécia Antiga virou apenas nome de prato caro em restaurante metido a besta?

Pois eu digo que sim. E digo mais: pensar a vida e o nosso ganha-pão é tarefa de quem tem coragem de subir a ladeira da memória sem olhar para trás.

Tudo começou com um sujeito chamado Sócrates. Não o craque da Seleção de 1982, aquele do calcanhar de ouro, mas o outro, o barbudo de Atenas. Ele inventou uma moda que, se fosse hoje, o povo ia dizer que era doidice: ele dizia que não sabia de nada. Imaginem só! Num mundo onde todo mundo tem certeza de tudo no WhatsApp, o homem chega e solta: "Só sei que nada sei".

Ali, meus amigos, nasceu a dúvida. E a dúvida é a mãe da sabedoria, assim como a paciência é a mãe da boa polenta. Sócrates tirou o tapete das certezas absolutas e nos ensinou que a pergunta vale mais que a resposta. Ele nos avisou: cuidado com a "doxa", que é essa opinião de orelha de livro, esse saber de ouvir dizer que não leva a lugar nenhum, feito bonde descarrilado.

Isso me faz lembrar — e como dói a lembrança! — daquele professor antigo, o "Dono da Verdade". Ele chegava na sala como se carregasse as Tábuas da Lei debaixo do braço. Não tinha conversa, não tinha prosa. Era o monólogo do saber. Coitado... mal sabia ele que o pensamento é como um namoro na beira do Arrudas: precisa de dois para acontecer. É o tal do diálogo, a tal da dialética. Professor e aluno, num balé de constrói-e-desconstrói, como se a gente estivesse sempre reformando o Edifício Levy.

O aprendizado, minha gente, é um trem que não tem estação final. É contínuo.

Nesses últimos meses, andei soltando uns textos e umas imagens por aqui. Confesso: vi gente coçando a cabeça. Teve e-mail chegando, comentário no blog e até sujeito me parando na rua para perguntar: "Ô Ronaldo, o que é que aquela foto antiga de BH tem a ver com esse filme que você indicou?" "E aquela história? Você passou por isso mesmo lá no Instituto?".

Fiquei feliz. A timidez mineira é o primeiro passo para a curiosidade de mestre. Se houve estranhamento, é porque a pulga atrás da orelha começou a pular. Uns viram uma coisa, outros viram outra, e todos estão certos. A verdade, quando é boa, tem mil caras, como uma multidão saindo do Mineirão.

Por isso, faço aqui uma convocação, com a urgência de quem espera o último ônibus: coloquem suas impressões no papel. Mandem textos, mandem imagens, mandem até desaforo, se for o caso. Vamos tirar a Filosofia do mofo e trazê-la para o nosso meio.

Afinal, se a gente não duvidar de vez em quando, como é que vai descobrir que o horizonte, além de Belo, é infinito?