domingo, 9 de agosto de 2026

um passeio no Museu de Artes e Ofícios (Belo Horizonte - MG)

Tenho um amigo professor que resolveu, num rasgo de coragem digno de nota na imprensa local, levar a garotada do sexto ano de uma escola pública ao Museu de Artes e Ofícios. Não era uma sala comum de alunos comportados. Era uma sala que adorava provocar. Eram considerados o terror dos professores, principalmente, dos professores novatos ou aqueles que estão começando a sua carreira no magistério. O leitor há de concordar: para a maioria dos nossos jovens, museu ainda é aquele lugar misterioso onde os adultos guardam poeira e cobram ingresso. Se o sujeito mora longe do centro ou se o contracheque do pai não é exatamente uma apólice do Banco Central, a arte vira um mistério tão distante quanto as praias de Cancún. Aí entra a teoria. O homem me aparece com os compêndios debaixo do braço falando em "espaço educativo de aprendizagem não formal" e me cita, sem piscar os olhos, os doutos Falk e Storksdieck. Pelo que entendi da conversa, esses dois sujeitos catalogaram nada menos que 11 fatores para explicar por que alguém aprende algo dentro de um museu. Vai do interesse prévio do indivíduo até a arquitetura do prédio, passando pela boa vontade das legendas. Uma coordenação de tráfego mental que faria inveja ao Departamento de Trânsito. O plano, vejam vocês, era perfeito. Unir a sociologia, a filosofia, a história e a geografia para explicar a tal práxis humana e o tema transversal do "Trabalho e Consumo". Afinal, o museu tá cheio de enxadas, prensas, martelos e teares que contam os últimos três séculos da nossa lida diária. A operação, no entanto, exigiu logística de guerra. Primeiro, a preparação na sala de aula: — Meninos, nada de coxinha perto dos quadros, nada de guaraná nas engrenagens do século XVIII e, pelo amor de Deus, desliguem o flash das máquinas se não o guarda da portaria infarta. Dividiram a turma em subgrupos, porque colocar cinquenta adolescentes de uma vez num corredor cheio de antiguidades é pedir para transformar patrimônio histórico em sucinta lembrança. Cada bando seguiu seu monitor pelas "trilhas" do museu, numa romaria de uma hora e meia entre teares e ferramentas de carpintaria. Enquanto um grupo via o Brasil do trabalho braçal no piso de baixo, o outro especulava no piso de cima. No fim das contas, a bagunça organizada deu certo. A turma insubordinada ficou encantada com algo novo. Ficou feliz em ter uma aula fora da escola e descobriu que pode aprender de uma forma diferente. No museu que guarda a história do trabalho e das profissões, os meninos viram de perto a chave de fenda que o avô usava, o ferro de passar a carvão e entenderam que cidadania não é só decorar data de batalha em livro didático. De volta à sala de aula, no terceiro ato da epopeia, sentaram para debater o que viram. Se a escola moderno queria criar sujeitos críticos e autônomos, não sei. Mas que aquela turma voltou para o ônibus sabendo que a história da gente não é feita só por reis de estátua, mas por quem pegava no pesado — ah, isso voltou.
Texto da Revista Pedagógica do Instituto de Educação de Minas Gerais
Ano 2 \ Número 2\ maio 2013 \ Belo Horizonte – MG


Uma história de muitas histórias:
A presença feminina nas artes e na educação em Belo Horizonte


Texto e Pesquisa: Ronaldo Campos

Introdução


Nós somos finitos e marcados pela temporalidade. Sofremos uma espécie de condenação imposta pelo tempo que “como um inseto perseverante devora mecânica e inexoravelmente toda vida, realizando assim sua obra de decomposição” (CANDAU, 2011, p. 15) O que nos permite parar (ou pelo menos diminuir) as ações e os efeitos do fluxo do tempo sobre nós é a memória. Graças a ela o passado não está definitivamente inacessível ou perdido, porque é possível revivê-lo através da rememoração do que se passou. A memória atua sobre o tempo. Permitindo atribuir um novo significado ao sentido existencial, atualizando os conteúdos experimentados. A memória costura, tece o passado no presente, compondo tramas e enlaçando-se em novas possibilidades existenciais.
Não nos lembramos das memórias que não têm significado para nós. Pois, de acordo com Candau (2011), a memória ao mesmo tempo em que nos modela, é também modelada por nós. Memória e identidade se relacionam dialeticamente. Ambas se apoiam uma na outra com o intuito de gerar uma trajetória de vida, uma história, um mito ou uma narrativa. É um trabalho de reapropriação e negociação para que o nosso passado não se perca no esquecimento. Sem as lembranças e destituído da memória, o sujeito é aniquilado. Busca-se combater o medo do esquecimento a partir de estratégias de rememoração pública e privada. As biografias enquadram-se como uma delas.
O gênero biográfico é uma forma importante dentro dos estudos históricos. Pesquisar a vida de um determinado indivíduo abre um campo de possibilidades para se compreender a época em que essa pessoa viveu. Através da biografia é possível entender que todos nós nos organizamos em grupos que partilham certa sensibilidade diante das questões da época em que vivemos e da sociedade em que nos inserimos, por meio das trocas culturais, articulações e contatos. Escrever a biografia de uma determinada pessoa implica “arrastar” através da história , “como se fosse um imã em uma limalha. Implica situá-lo nos campos possíveis onde o indivíduo se move e se constitui. Implica também falar de uma série de assuntos que, de forma direta ou tangencial, refletem a sua trajetória.” (NASCIMENTO, 2009, p.146)
Quando reconstituímos as narrativas de vida, ainda que o foco esteja em assuntos particulares da trajetória de um individuo, requer uma mobilização da multiplicidade dos seus pertencimentos. A memória individual compõe a nossa memória social. E o ato de lembrar em conjunto, compartilhando a memória, é uma atividade que constrói pontes de relacionamento entre pessoas, associadas a uma bagagem cultural comum.
O Instituto de Educação de Minas Gerais (antiga Escola Normal Modelo) representa um lugar da memória da nossa cidade, da escola, da educação brasileira, da trajetória de professores, alunos e funcionários que passaram pelas suas salas de aulas e demais espaços. Contudo, com o passar dos anos, muitas dessas narrativas de memórias se perderam, uma vez que para as lembranças permanecerem vivas é necessário que sejam relembradas e revividas no presente.
Essas lacunas produzidas pelo tempo e pelo esquecimento podem ser preenchidas. Por que a partir do ato de (re)velar o esquecido, o passado pode ser recuperado e reconstruído com novas significações. A nossa realidade presente pode ser reconstruída com as centelhas do passado. Assim, a trajetória de grandes personalidades que foram responsáveis por momentos memoráveis da nossa história e que se encontram apagados, pode mais uma retomar o seu lugar no mundo. Redescobriremos a história de Jeanne Louise Milde, Helena Antipoff, Elza de Moura, Lúcia Casasanta e Alaíde Lisboa. E, por fim, perceberemos que a história delas é (a seu modo) a nossa história também..


Jeanne Louise Milde

Jeanne Louise Milde foi uma mulher a frente do seu tempo. Rompeu barreiras e abriu caminhos que mais tarde seriam seguidos por milhares de mulheres ao redor do mundo. A sua história tem início, em Bruxelas (Bélgica). Filha de Josse Milde e Mathilde Cammaerts Milde. Nasceu em 15 de julho de 1900. Estudou belas artes na Real Academia de Bruxelas, onde recebeu uma sólida e bem fundamentada formação acadêmica. Vivenciou e experenciou a grande revolução cultural que ocorreu nas primeiras décadas do século XX. Apesar de não estar diretamente ligada a nenhum movimento de vanguarda nas artes, assistiu (e a seu modo também atuou) a grande transformação ocorrida no campo das artes, da cultura e da sociedade.
Ser mulher e artista no início do século XX não era uma tarefa simples ou fácil. Enfrentou a oposição da sua família e da sociedade belga da sua época. A sua mãe não queria que estudasse e, provavelmente, se o seu pai soubesse, ele não teria permitido. Por isto, no início, frequentou a escola sem que soubessem. Em 24 de setembro de 1918, foi “a única mulher a ser aceita pela Escola de Belas Artes, a ser aluna com os jovens. E os jovens (...) criticavam muito (...) diziam essa mulher pequena se julga ser algum dia escultor (...)” (RODRIGUES, 2003, p.32) Com muito talento, dedicação e trabalho, conseguiu vencer as adversidades e ser aceita como artista num mundo majoritariamente masculino. Foi uma aluna dedicada e brilhante. Na Academia, se destacou e recebeu prêmios importantes.
Apesar do futuro promissor que se delineava em sua terra natal, Jeanne Milde muda radicalmente o seu destino ao aceitar em 1929 o convite de Alberto Alvares, enviado do governo mineiro, para compor a Missão Pedagógica Europeia que tinha por objetivo implementar a reforma do ensino em Minas Gerais. Com o professor Omer Buyse, veio para capital mineira para participar da implantação da Universidade do Trabalho. Nesta seria criada a Escola de Belas Artes, cuja direção ficaria sob a sua responsabilidade. Mas, com a eclosão da Revolução de 30, foram interrompidos esses projetos e a Missão foi desarticulada. Entretanto, Jeanne Milde permaneceu no país.
Apesar do projeto de criação da Universidade do Trabalho e da Escola de Artes ter sido abortado precocemente, Milde conseguiu conquistar um espaço significativo no panorama cultural-pedagógico da capital mineira. Tornou-se professora de modelagem e desenho na Escola de Aperfeiçoamento, na qual preparou professoras para ministrar a disciplina de trabalhos manuais, que inclui modelagem e pintura no currículo. Trabalhou também no Curso de Administração Escolar (do Instituto de Educação), na Escola de Polícia Rafael Magalhães, na Fazenda do Rosário e realizou muitos trabalhos em hospitais, junto a médicos e enfermeiros.
Algumas de suas ideias e da sua prática foram consideradas muito avançadas para a época. De acordo com o depoimento da ex-aluna Elza de Moura, apresentado no site da Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais: houve uma ocasião, um episódio desagradável com a Milde porque a direção da Escola de Aperfeiçoamento se insurgiu contra as projeções de nus artísticos, nas aulas. Mas Mademoiselle Reagiu à altura e os nus continuaram a ser projetados. Milde, antes de tudo era uma artista europeia e não se curvou ao ambiente mesquinho da época e a tradicional família mineira não perdia tempo, mas perdeu dessa vez. Durante as palestras com essas projeções, Mademoiselle as enriquecia fazendo comentários esclarecedores, diminuindo o pouco conhecimento das alunas com relação a história das artes. Elza Moura nos diz que o seu terceiro encontro com Mademoiselle. Milde foi como colegas, Moura, com as atividades de teatro de bonecos e a Milde com suas atividades específicas, usando material do ambiente para o enriquecimento de professoras alunas de zona rural, curso organizado pela professora Helena Antipoff. Mademoiselle Milde deu uma valiosa contribuição nesses cursos para professoras rurais, ampliando-lhes o horizonte estreito do meio em que viviam. Assim, de acordo com Elza Moura, esses cursos foram notáveis. E possibilitaram que essas professoras leigas de zona rural voltassem para seus municípios com outra visão do ensino da vida.
Jeanne Milde foi responsável por introduzir na educação mineira uma aprendizagem que unia teoria e a prática, onde, simultaneamente, se trabalhava com uma abordagem erudita da arte e uma arte mais aplicada (onde eram trabalhados elementos inerentes à realidade das Minas Gerais). Ao enfatizar os aspectos criativos, possibilitava a implantação de um ensino mais livre e formativo. Foi responsável, incialmente, na Escola de Aperfeiçoamento e, em seguida, no Instituto de Educação, de uma oficina de criação, onde as alunas tinha a sua disposição uma série de técnicas artísticas e expressivas. No fim de cada ano, as obras produzidas eram apresentadas numa grande exposição que sempre recebeu da mídia local um grande destaque.
Educadora e escultura, a sua atuação foi além da regência de sala de aula. Pensava a educação como um todo. Preocupava-se com todos os aspectos materiais e imateriais de uma escola. Por exemplo, ao perceber a inadequação do mobiliário escolar da época, projetou e construiu com recursos limitados em sua própria casa vários móveis utilitários e funcionais que atendiam às necessidades dos alunos da pré-escolar.
Jeanne Milde é considerada uma das precursoras do modernismo em Minas Gerais. Ajudou a criar espaços que permitiram encontros e incentivo às artes na capital mineira. Produziu esculturas para parques, órgãos públicos, praças, cemitérios e jardins residenciais. Desde o momento da sua chegada em Belo Horizonte, manteve aberto e acessível à comunidade, no Grande Hotel (que se localizava onde hoje temos o edifício Maleta) um ateliê de escultura. Em 1930, cria dois baixos-relevos decorativos para o prédio da Escola Normal Modelo, atual Instituto de Educação, em Belo Horizonte.

Concebia arte como sendo um instrumento para mobilizar a capacidade criativa que une imaginação e inteligência. “Trabalhava com sua arte, aplicando-a à realidade de uma nova sociedade que se pretendia construir tendo como um dos pilares a educação. A cadeira de artes objetivava o aprimoramento do espírito e da criatividade, mas voltava-se para a prática escolar.” (RODRIGUES, 2003, p.57) O trabalho ultrapassa as questões pedagógicas, abrangendo também as atividades artístico-socais e culturais da arte em Minas Gerais. Foi uma presença fundamental que legitimou salões e exposições de arte em Belo Horizonte. Pois, possuía um solido conhecimento acerca da história da arte e uma visão crítica em relação às mudanças nos movimentos da arte moderna-contemporânea.

A obra de Jeanne Louise Milde no IEMG

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Painel 2: alegoria do ensino das ciências, obra de Jeanne Louise Milde (Foto: Ronaldo Campos)

No hall de entrada do Instituto de Educação de Minas Gerais, há um amplo e belo salão ornamentado com elementos arquitetônicos neo-clássicos. Ao lado das escadarias que conduzem a parte superior do edifício, destacam-se os baixos-relevos decorativos de autoria da professora e artista belga Jeanne Louise Milde. Os painéis representam o ensino das artes e das ciências.
De modo geral, podemos caracterizar a obra de Mademoiselle Milde, a partir de uma temática refinada e vigorosa. Dotada de grande inspiração e liberdade de elaboração, com senso de harmonia e elegância que revela uma escultura pura, sensível e sensual. Pode-se perceber elementos influenciados pela art-déco e pelo expressionismo. A sua obra combina uma extraordinária percepção clássica formal com a leveza dos volumes e movimentos, o que confere uma magnifica longilineidade às suas peças. Milde se especializou nas figuras e mitos femininos, para onde são transpostos sensações, emoções e expressão próprias à mulher, transcendendo-se espiritualmente em seu trabalho
No caso específico dos painéis em baixo relevo do IEMG é uma alegoria intelectualmente refinada. Milde retratou (na forma de dois grupos de cinco mulheres) o sentimento de amor e dedicação dos alunos às artes, às ciências e à cultura. Cada uma das figuras femininas representadas tem a posse (e, por consequência, o domínio) de um elemento associado ao conhecimento. E todas estão iluminadas pela luz do sol (conhecimento). No painel do ensino das artes, a primeira jovem segura um martelo; a segunda, um formão; na parte central, o sol; a quarta mulher segura um livro; e a quinta uma paleta de pintor. No outro, na representação das ciências, há também um grupo de cinco mulheres: a primeira segura um galho de café; a segunda, um globo; na parte central, o sol, a quarta jovem segura um livro; e a última um compasso e um esquadro.
É uma obra que deve ser apreendida a partir do seu simbolismo, por que a artista se utilizou de uma linguagem cifrada e com muitas alegorias. Objetos facilmente reconhecíveis como um martelo, um livro ou o sol não representam apenas eles mesmos. São conceitos (ideias) de significado mais profundo ou abstrato. Assim, o martelo é o símbolo da razão orientando a vontade. É o símbolo da inteligência criativa. O sol é a glória, a espiritualidade, a iluminação e o conhecimento. Representa a vitalidade, a paixão, coragem e juventude eternamente renovada. O livro é um emblema auto evidente da sabedoria, ciência e erudição. O globo representa a primeira matéria (alquimia).
Ao associar a figura da mulher ao conhecimento, a artista belga nos mostra uma representação de mundo que rompe com a imagem tradicional da mulher e propõe uma nova representação do feminino. Ou seja, a mulher deixa de ser uma pessoa destinada à procriação, ao lar, para agradar o outro.
A figura feminina aqui não está associada nem a maternidade (representando os papeis de mãe e esposa) nem ao erotismo (representando a mulher como objeto de desejo do homem). E passa a ser sujeito do conhecimento. Nesse sentido, essa obra tem um caráter revolucionário e mostra a artista belga como uma mulher a frente do seu tempo. Pelo contrário, é uma imagem que simboliza a conquista dos direitos à educação e à profissionalização. A obra de Milde nos traz uma nova mulher inserida em uma sociedade em transformação. A mulher passa a ter uma identidade própria, com desejos e angústias que são próprios da condição humana.
Os dois painéis decorativos foram feitos por uma mulher especialmente para a Escola Normal Modelo. Certamente, porque era naquela época um dos raros espaços na capital mineira em que as mulheres poderiam desenvolver os seus talentos, as suas individualidades. Nos dias de hoje, essa bela obra ganha um novo significado. Passa a representar o lugar privilegiado que as mulheres conquistaram na nossa sociedade.

Helena Antipoff

A psicóloga e educadora Helena Antipoff nasceu em 1892, na cidade de Grodno, Russia. Filha de Sofia Constantinovna e de Wladimir Vassilevitch Antipoff. Em virtude da carreira do seu pai (um militar de alta patente) e pela origem materna aristocrática, viveu parte da infância na cidade de São Petersburgo e recebeu uma educação internacional. Com a separação dos pais, em 1909, foi viver com a mãe e os irmãos em Paris (França). Estudou na Sorbonne e no Collège de France. Formou-se em psicologia. Trabalhou no Instituto de Ciências da Educação e no Instituto Jean Jacques Rousseau em Genebra.
Em 1916, Helena Antipoff retornou a Rússia, na época da ocupação alemã, para reencontrar o seu pai que havia sido ferido durante a Primeira Grande Guerra. Assistiu os fatos históricos da Revolução Russa. Trabalhou em estações médico-pedagógicas em Viatka e em São Petersburgo com adolescentes abandonados, sem teto e sem rumo (na época, eles eram denominados como jovens delinquentes). Em 1921, atuou como colaboradora científica no Laboratório de Psicologia Experimental de São Petersburgo, fundado por Netschaieff.
Casou-se com Viktor Iretsky, jornalista e escritor russo, que foi perseguido e preso em decorrência das suas ideias literárias, consideradas nocivas à sociedade soviética. Essa situação levou o casal a se exilar em Berlim, na Alemanha. Como não oportunidades de trabalho para Helena Antipoff em território alemão, ela retornou a Suíça. E lá trabalhou no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra como assistente de Édouard Claparède e como professora de Psicologia da Criança na Escola de Ciências da Educação no Instituto Jean Jacques Rousseau. Foi colaboradora de Claparède na pesquisa sobre os processos de pensamento inteligente. Nessa época, recebeu o convite do governo de Minas Gerais para lecionar na Escola de Aperfeiçoamento. Inicialmente, recusou o convite. Mas, em 1929, aceitou assinar o contrato por dois anos para lecionar psicologia na Escola de Aperfeiçoamento de professores de Minas Gerais. Ficou responsável pela disciplina de psicologia, a coordenação do Laboratório de Psicologia e assessoria do sistema de ensino na aplicação de testes de inteligência.
Na Escola de Aperfeiçoamento, recria o ambiente de integração entre teoria e prática experimentando nos seus trabalhos no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra. Os trabalhos desenvolvidos nessa época subsidiaram e originaram o extenso programa de pesquisa sobre o desenvolvimento mental, ideais e interesses das crianças de Minas Gerais. Helena Antipoff buscou comprometer as suas alunas no processo de construção de uma pedagogia científica, com o objetivo de prepara-las para conhecer as crianças através de novas teorias e novas metodologias desenvolvidas pela psicologia.
Em 1932, um grupo de médicos, educadores e religiosos, sob a presidência de Helena Antipoff, criou a Sociedade Pestalozzi de Belo Horizonte. Esta instituição tinha vários objetivos. Certamente, o primeiro era o de cuidar das crianças excepcionais e assessorar as professoras de “classes especiais” dos grupos escolares. Além de atuar sobre diversos focos de exclusão social (provocados pela miséria, abandono e por questões de deficiência mental no sentido estrito). “Em todos os casos, tratava-se de procurar resguardar os direitos das crianças em situação de risco social. O consultório médico-pedagógico para crianças deficientes ou problemáticas instalado pela Sociedade em 1934 passou a atender regularmente essas ‘crianças-problema’, e tornou-se o embrião do futuro do Instituto Pestalozzi de Minas Gerais, posteriormente transformado em instituição pública, financiada pelo governo do Estado de Minas Gerais.” (CAMPOS, 2002, p.26) Em 1940, a Sociedade Pestalozzi instalou no município de Ibirité (Minas Gerais) sob a denominação de Escola da Fazenda do Rosário. O objetivo dessa instituição era educar e reeducar crianças abandonadas ou excepcionais. Aplicava-se os métodos da Escola Ativa, centrados na atividade espontânea da criança. Foi a partir dessa época que Helena Antipoff produziu um extensa e importante obra educativa (educação especial, educação rural, criatividade, superdotação) que influenciou a formação de muitas gerações de psicólogos e professores. Nessa mesma época, tornou-se professora fundadora da cadeira de Psicologia Educacional na Universidade Minas Gerais (atual UFMG), lecionando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras as disciplinas de didática e psicologia.
As ações pedagógicas de Helena Antipoff dedicadas à educação rural foram marcadas por uma filosofia pedagógica com ênfase na atividade e autonomia do aluno, numa atitude democrática, com o respeito à diversidade e a fé na ciência como um importante elemento de transformação da vida. Para a educadora, “talento e inteligência não são de geração espontânea, mas precedidos de longo trabalho de gerações: quem será pintor num meio rural, onde a criança nem mesmo tem o direito de usas o lápis de cor?” (CAMPOS, 2002, p.29)

Lúcia Casasanta

Lúcia Schmidt Monteiro de Castro nasceu em 29 de maio de 1908 em Carancas (Santa Luzia), região metropolitana de Belo Horizonte. Filha do fazendeiro Eduardo Olavo Monteiro de Castro, neto do Barão de Congonhas do Campo, e da professora Clodilte Schmidt Monteiro de Castro , neta de educadores alemães, Félix Schmidt e Verônica Klaiser. A sua formação teve início na cidade de Ouro Preto no Grupo Escolar D. Pedro II. O curso primário foi concluído em Belo Horizonte no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Em 1922 ingressou no curso de magistério na Escola Normal Modelo de Belo Horizonte. Na época, esse era considerado um destino obrigatório para as moças de boa família. Antes da sua formatura de normalista, no ano de 1926, iniciou sua carreira no magistério ao assumir o cargo de professora substituta de Música, Canto e Teoria Musical, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. O seu trabalho era preparar alunos para o exame final, cujos resultados seriam publicados no jornal “Minas Gerais”. Os seus alunos se destacaram com sucesso e, em virtude disso, recebeu inúmeros elogios.
Por seu desempenho brilhante como aluna da Escola Normal Modelo e como professora do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, aos 19 anos, foi convidada pelo então governador de Minas Gerais, Francisco Campos, para fazer parte de um grupo de bolsistas que seria enviado para a Teacher´s College, da Columbia University (Nova York). Essa instituição norte-americana era considerada "o maior centro educacional do mundo" e irradiador do idealismo liberal. Na universidade, especializou-se em Metodologia do Ensino da Língua Pátria.
Ao retornar ao Brasil, em parceria com Alda Lodi (uma das fundadoras do curso de Filosofia da UFMG) fizeram parte da criação e estruturação da Escola de Aperfeiçoamento, uma escola laboratório que tinha por objetivo formar uma nova classe de professores. Um local importante para a produção de conhecimento sobre a metodologia da linguagem e sedimentação da prática pedagógica. Essa escola correspondia ao curso pós-médio, direcionado a professoras que já exerciam o magistério. Ao fim de dois anos, voltariam às suas escolas de origem, como elementos multiplicadores das teorias e metodologias aprendidas no curso. O corpo docente da Escola de Aperfeiçoamento tinha uma formação teórico-prática originária dos Estados Unidos e da Europa
Lúcia Casasanta atuou como professora e trabalhou muito para concretizar a reforma de ensino proposta por Francisco Campos e para estabelecer uma nova forma metodológica no ensino\aprendizagem da leitura e da escrita, em um momento de muita incerteza pedagógica da nossa história. Defendeu de forma contundente a utilização do Método Global de Contos para o ensino da leitura. Enfatizou a ideia que as escolas deveriam trabalhar com a formação do leitor, incentivando os professores a se tornarem leitores e formadores de novos leitores. A educadora foi defensora do espírito científico na sala de aula. O processo de ensino-aprendizagem deixou de ser o resultado do “dom” natural (da “intuição”) do mestre para ser uma ação planejada, resultado de estudo e pesquisa. Especialista em metodologia da linguagem. É lembrada até os dias de hoje pela sua contribuição para a alfabetização. Defensora do método global de contos para aprendizagem da leitura. Um método revolucionário que obteve resultados surpreendentes no processo de alfabetização. Foi amplamente adotado dos anos 30  até a década de 70.
No ano de 1933, casou-se com o professor Mário Casasanta. E assumiu os quatro filhos do professor, com idades que variavam de 2 a 6 anos. Cinco anos mais tarde, ocupou a cadeira de professora adjunta de didática da linguagem na Universidade do Rio de Janeiro. Em 1946, atua no Curso de Administração Escolar (CAE). Em 1953, como integrante da Comissão Organizadora do Programa do Ensino Primário, foi responsável por elaborar a parte relativa à Língua Pátria. No ano seguinte, lançou o pré-livro “Os três Porquinhos” e deu início a série didática “As mais belas histórias”.  Em 1963, ficou viúva e assumiu o lugar do seu marido no Conselho Estadual de Educação (permaneceu até a sua aposentadoria em 1977). Participou também do Conselho Estadual de Educação no triênio 1969-1971. Em 1970, tornou-se a primeira diretora do Instituto de Educação de Minas Gerais depois do seu reconhecimento como entidade de ensino superior pelo Conselho Federal de Educação. Foi uma das fundadoras (1970) e a primeira reitora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Dentre as suas principais realizações, destaca-se a criação da primeira biblioteca infantil do Brasil e da primeira clínica para correção de problemas e leituras e linguagem.
Faleceu em 04 de junho de 1989. Mas a sua obra permanece viva na memória de educadores, antigos alunos e das inúmeras crianças que não se esquecem de “As mais belas histórias”


Alaíde Lisboa


Professora, escritora, pesquisadora, memorialista, política e figura de destaque no meio cultural brasileiro, Alaíde Lisboa de Oliveira nasceu no dia 22 de abril de 1904, na cidade de Lambari (sul de Minas Gerais), onde passou a sua infância. Filha de Maria Rita Vilhena Lisboa e do conselheiro João de Almeida Lisboa. É irmã da poetisa Henriqueta Lisboa e do poeta José Carlos Lisboa (a quem sucedeu na cadeira número seis da Academia Mineira de Letras). Fez o primário no Grupo Escolar Dr. João Bráulio Júnior. Foi uma aluna que gostava muito de estudar. Fez o curso normal no internato do Colégio Nossa Senhora de Sion (na cidade mineira de Campanha.), e desenvolveu uma carreira estudantil brilhante na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Minas Gerais, onde conviveu com a educadora e psicóloga Helena Antipoff, trazida para Minas Gerais graças ao empenho do professor José Lourenço de Oliveira, com quem Alaíde Lisboa veio a casar, em 1936. Helena Antipoff foi a sua madrinha de casamento. Teve quatro filhos: Abigail, José Carlos, Sílvio e Maria.
É autora de mais de trinta livros, entre didáticos, ensaios e literatura infantil. Atuou até 1957 como professora na Escola Normal Modelo (atual Instituto de Educação de Minas Gerais – IEMG) e na Universidade de Minas Gerais (que mais tarde daria origem a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG). Durante a sua carreira no magistério, desenvolveu um produtivo trabalho de base, não só nas funções de professora e de diretora, mas também como pedagoga e incentivadora dos movimentos de renovação do ensino no nosso estado. Foi professora em cursos de extensão em várias universidades brasileiras. Jornalista no jornal mineiro O Diário, durante quinze anos. Presidente da APPMG por dois mandatos.
Dezessete anos após a conquista do direito ao voto feminino no Brasil, foi a primeira mulher eleita para o cargo de vereadora em Belo Horizonte (em 1947, como suplente, assumindo efetivamente dois anos depois). Na época do seu mandato, conseguiu um aumento dos salários dos professores do Estado.
Em 1957, doutorou-se em didática pela UFMG, da qual se tornou catedtática por concurso público. Exerceu vários cargos de direção na universidade. Durante treze anos, foi diretora do Colégio de Aplicação da UFMG, além de exercer o cargo de vice-diretora da Faculdade de Educação, primeira coordenadora do mestrado em educação e, finalmente, professora emérita.
Deixou o seu nome gravado na história da literatura infantil com a obra A bonequinha preta que contribuiu para despertar o interesse pela leitura de várias gerações há sessenta e cinco anos.Sua obra, em especial o livro Nova didática, foi classificada por Carlos Drummond de Andrade como um trabalho altamente inovador e criativo, “um trabalho feito de experiência, reflexão e amor à tarefa, com apoio em um grande talento”.
Elza de Moura

Elza de Moura é uma das mais importantes educadoras do nosso país e uma das mulheres mais atuantes na segunda metade do século XX. Educadora, escritora, pesquisadora, maestrina, gestora e comunicadora de rádio e televisão. É reconhecida por sua vasta experiência e grande competência. Presenciou as modificações pelas quais a educação vem passando em nosso país e atuou de forma dinâmica. Trabalhou com nomes importantes como a psicóloga e educadora Helena Antipoff, José Oswaldo de Araujo, Abgar Renault, Mário Campos, Aníbal Matos, a escultora Jeanne Louise Milde, Mário e Lúcia Casassanta,
Nasceu na capital mineira no ano de 1915. Cresceu e vive até hoje no bairro Santa Ifigênia, em Belo Horizonte. Iniciou os seus estudos aos seis anos de idade no curso primário no Grupo Escolar Henrique Diniz. Repetiu a quarta série do ensino primário duas vezes por não ter a idade mínima de 12 anos para iniciar seus estudos como normalista ( repetiu não por reprovação, mas para completar a idade exigida para o ingresso na escola normal).
Estudou na Escola Normal Modelo (atual Instituto de Educação de Minas Gerais – IEMG) e na Escola de Aperfeiçoamento.  Após a sua formatura, ficou seis anos sem lecionar por opção pessoal. Nesta época, estudou piano e canto. Foi convidada por uma amiga para lecionar no Grupo Escolar Lúcio dos Santos e depois no Grupo Escolar Flávio dos Santos.
Adepta da Escola Nova e de métodos como a gramática funcional. Elza já gravou programas educacionais na extinta TV Itacolomi. Participou ativamente das atividades do Complexo Educacional Fazenda do Rosário. Foi Orientadora técnica no Grupo Escolar Sandoval de Azevedo. Orientadora técnica e diretora no Grupo Escolar Henrique Diniz. Ainda hoje ela é convidada para palestras e escreve artigos para jornais.
Destacou-se na imprensa mineira escrevendo para suplementos infantis e publicou diversos livros, dentre eles destacam: Lili e Paulinho estudam ciências naturais (Editora do Brasil), Pequeno Cientista (Editora do Brasil), Orientação Metodológica (Editora Bernardo Alvares), entre outros.
Em artigos para jornal, chamou atenção para as possibilidades que tem a escola primária de realizar um trabalho de reatamento das relações entre o poeta/poesia e o público/sociedade. Dizia a professora, que vários autores modernos brasileiros eram comumente utilizados pelo programa oficial do ensino primário em Minas Gerais. Através de leituras, declamações, corais falados e leituras silenciosas, os meninos tomavam conhecimento de poemas de Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, Vinícius de Morais e outros. Isto, bem se vê, é um avanço extraordinário; principalmente quando se considera que mais da metade de nossos professores secundários têm sólidos e impenetráveis preconceitos contra a poesia dita moderna ou qualquer sombra de inovações em arte.

REFERÊNCIAS
Alaíde Lisboa. Disponível em <http://www.fae.ufmg.br/alaidelisboa/conteudo.htm>>, acessado em 23 de fevereiro de 2013
CAMPOS, Regina Helena de Freitas (org.). Helena Antipoff: Textos escolhidos. São Paulo: Casa do Psicólogo; Brasilia: Conselho Federal de Psicologia, 2002
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras. São Paulo: Escrituras, 2002.
Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais. Disponível em , acessado em 23 de fevereiro de 2013
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.
LETICIA, Júnia. “Lúcia Casasanta: uma vida dedicada à educação”. In: Elas por elas. Agosto de 2009. P.45-46. Belo Horizonte: Simpro Minas.
MACIEL, Francisca Izabel Pereira. Lúcia Casasanta e o método global de contos: Uma contribuição à história da alfabetização em Minas Gerais. Belo Horizonte: FAE\UFMG, 2001. (Tese de doutorado)
NASCIMENTO, Cecília Vieira do. Francisca Senhorinha da Motta Diniz: Movimento feminista no magistério e na imprensa. In: FARIA FILHO, Luciano Mendes de, INÁCIO, Marcilaine Soares.(orgs.). Políticos, literatos, professores, intelectuais: o debate público sobre educação em Minas Gerais. Belo Horiozonte: Mazza Editores, 2009.
PÁDUA, ANTÔNIO DE. IEMG: Casarão rosado da educação. Belo Horizonte: Cultura, 1999.
RODRIGUES, Rita Lages. Entre Bruxelas e Belo Horizonte: Itinerários da escultora Jeanne Louise Milde. Belo Horizonte: C\Arte e FACE FUMEC, 2003.
SANTOS, Edelweiss de Paiva. Instituto de Educação de Minas Gerais: Pequena biografia de uma grande escola. Belo Horizonte: Maza Edições, 2011.
SCHUMAHER, Schuma, BRAZIL, Érico Vital. Mulheres negras no Brasil. Rio de Janeiro: Senac, 2007.
SCHUMAHER, Schuma, BRAZIL, Érico Vital. Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
SOUZA, Rita de Cassia de. Não premiarás, não castigarás, não ralharás... Dispositivos disciplinares em grupos escolares de Belo Horizonte (1925-1955). São Paulo: USP, 2006 (tese de doutorado)
VIEIRA, Ivone Luzia. Jeanne Louise Milde: noventa anos de historia. Educação em Revista. [online]. 1990, n.11, pp. 81-84. Disponível em http://educa.fcc.org.br/pdf/edur/n11/n11a30.pdf, acessado em 23 de fevereiro de 2013.

Que dia Dante Alighieri morreu?


 

Hoje em dia, nas nossas aulas de História, uma coisa que não valorizamos tanto é a memorização de datas. Mas, quando estamos preparando uma palestra sobre algum autor importante, a primeira coisa que vem à nossa mente é quando esse personagem nasceu e quando morreu. Algumas vezes a resposta é exata: há documentos e testemunhas que garantem a verdade da informação. Quanto mais nos afastamos no tempo, contudo, as questões começam a se complicar.

Por exemplo, vou falar esta semana nas minhas aulas sobre a Divina Comédia, do grande Dante Alighieri. Peguei por acaso um livro da minha biblioteca anterior a meados do século passado e, em seguida, peguei outro... para minha surpresa, vi que havia uma pequena divergência. No mais antigo, apareceu o dia 13 de setembro, isto é, a noite de 13 para 14 de setembro de 1321, quando deu o último suspiro o grande poeta.

Para Verrani, que vivia em Ravenna no tempo de Dante, este era seu “familiaris et socius”. Que testemunho mais autorizado eu poderia ter? Verrani era contemporâneo do poeta e estava na mesma cidade onde ele morreu! Devia interessar-se, sendo tão amigo; talvez estivesse na própria casa quando o poeta morreu; e, pelo fato de sua profissão ser a de tabelião, tinha o hábito da precisão das datas.

Além disso, Mezzani deu a data de 13 na inscrição que ele próprio escreveu para ser gravada no túmulo do poeta. Muitos outros, porém, indicam até a data de 11 de agosto e de 14 de setembro, dia consagrado à Exaltação da Santa Cruz.

 

Eu vou usar 13 ou 14 de setembro? E o 11 de agosto? As dúvidas e controvérsias em torno da data exata da morte de Dante Alighieri (1321) surgiram da combinação de fatores práticos da época, métodos de medição do tempo e interpretações simbólicas.

 

Para explicar, devemos lembrar, que durante n Idade Média, muitos locais (e a própria Igreja) contavam o início de um novo dia litúrgico a partir do pôr do sol (vesperas) do dia anterior. Assim, a noite de 13 de setembro já era considerada o início do dia 14 de setembro. Como Dante faleceu no final da noite/madrugada, a notícia fúnebre só circulou e se espalhou pela cidade de Ravena na manhã de 14 de setembro. Contudo, o dia 14 de setembro é o dia consagrado no calendário católico à Exaltação da Santa Cruz. Para os cronistas e biógrafos medievais e renascentistas, associar a morte do grande autor cristão e criador do Inferno, Purgatório e Paraíso a uma festa litúrgica tão importante tinha forte peso simbólico. Dizer que o poeta "entregou a alma ao Criador no dia da Santa Cruz" agregava valor espiritual e devocional à sua biografia.

 

Quanto mais o tempo passava, mais as fontes secundárias misturavam tradição oral, cópias manuscritas com erros de transcrição e datas comemorativas. Algumas fontes isoladas chegaram a citar datas distantes (como 11 de agosto), mas estas são amplamente descartadas pelos historiadores por falta de respaldo documental.

 

Diante do cruzamento dos depoimentos de contemporâneos (como o tabelião Verrani e a inscrição de Mezzani), o consenso historiográfico e literário moderno adota que Dante Alighieri morreu nas últimas horas do dia 13 de setembro de 1321 (um domingo), e que a data de 14 de setembro se popularizou pelo calendário litúrgico e pelo fato de o sepultamento e o anúncio oficial terem ocorrido nesse dia.


 

Provavelmente, o dia 14 de setembro derivou do fato de que, morto Dante nas últimas horas do dia 13, a fúnebre notícia só veio a se espalhar no dia seguinte.

Portanto, preferindo esses testemunhos, deve-se crer que Dante morreu a 13 de setembro de 1321 — e que era um domingo.

Uma data esquecida; 24 de fevereiro de 1891


 Na Primeira República, uma data se destacava no nosso calendário cívico. Era o dia 24 de fevereiro de 1891, data da promulgação da primeira constituição republicana do Brasil (e segunda constituição da nossa história). Na época, as pessoas acreditavam que graças a essa carta magna que os brasileiros foram eximidos de muitos males passivos, como por exemplo as cobranças de certos impostos e outras coisas mais que flagelavam o pobre lutador do eito. Hoje, sabemos que essa carta máxima não conseguiu trazer muitos avanços.

O papel aceita tudo, diz o velho ditado, e o papel daquele fevereiro aceitou o sonho republicano inteiro. Prometia-se a modernidade a toque de caixa: o país virava "Estados Unidos do Brasil", o cidadão (que sabia ler e escrever apenas) ganhava o direito de votar, a Igreja descia do altar do Estado e o progresso se desenhava no horizonte como promessa de feriado nacional. O brasileiro, acostumado a ver o mundo mudar pelas mãos do imperador, olhava para aquele texto bonito com a esperança cândida de quem acha que lei no papel se traduz em feijão na panela e mais participação popular na vida política brasileira.

O engano durou o tempo de a tinta secar. O voto, dito universal, trazia nas entrelinhas uma ironia bem nossa: analfabetos não votavam, mulheres não votavam e o trabalhador do campo ficava à mercê do mandato invisível — mas muito palpável — do coronel da região. O tal "maldito imposto" mudou de nome e endereço, o eito continuou pesado e o sufrágio virou o famoso voto de cabresto, onde a liberdade do cidadão terminava exatamente onde começava o curral eleitoral do padrinho.

E assim fomos marchando. A Constituição de 1891 deu ao país a carcaça de uma república federativa moderna, mas esqueceu-se de avisar o povo, que continuou assistindo bestificado à política do mesmo lugar de sempre: da plateia, estarrecido ou divertido. Hoje, quando reverenciamos a nossa Constituição Cidadã de 1888, o 24 de fevereiro, uma data que nem é mais marcada  folhinha, foi totalmente esquecida. Fica a lembrança de um Brasil que tentou mudar pelo decreto e descobriu que, entre a letra fria da lei e a vida real do brasileiro, a distância continua sendo um oceano inteirinho.

sábado, 8 de agosto de 2026

Sobre o triste destino do inventor do cinema

 A Sombra da Luz Movente



Há um destino amargo e quase poético reservado aos homens que inventam mundos. Numa tarde fria de inverno, no setor de periódicos da Biblioteca Luiz de Bessa, pesquisando os jornais antigos de Belo Horizonte para recompor a história da Escola Normal Modelo da Capital mineira, eu me deparo com uma notícia triste. Tenho que confessar que um pouco tardiamente (para dizer a verdade mais de cem anos depois)... Era uma notícia velha, do jornal Minas Geraes, de 09 de maio de 1921, mas de uma tristeza imensa: a morte em Londres, na mais desoladora das misérias, o sujeito que deu movimento às nossas sombras. Chamava-se William Friese-Greene.

Lendo a pequena notícia perdida naquele jornal amarelado da Biblioteca (des)cobri uma história que não conhecia. E ela começava mais ou menos assim: em 1889, enquanto a maioria das pessoas se contentava com o retrato estático pendurado na parede, esse homem cismou de aprisionar a vida que passa. Gastou vinte mil libras — uma fortuna que não tinha — experimentando primeiro com placas de vidro, depois com tiras compridas de celuloide. O resultado dessa paixão obsessiva foi o previsível abismo das finanças: endividou-se, acabou preso, viu o juiz penhorar e leiloar até o último móvel de sua casa.

E enquanto o invento ganhava o mundo, enriquecendo empresários espertos e criando palácios de ilusão onde multidões pagam para sonhar no escuro, o velho Green afundava no esquecimento. Em 1915, viveu de uma esmola coletiva promovida por amigos piedosos, até arranjar um ganha-pão modesto num estúdio de fotografias coloridas.

O fim não poderia ter sido escrito por nenhum dramaturgo com mais amargura. Friese-Greene morreu de repente, no meio de uma reunião de grandes figurões da indústria do Cinema. Estava com a palavra, cercado justamente por aqueles homens que ergueram impérios e fortunas à custa da sua ideia. Desmoronou ali mesmo, diante dos mestres da máquina que ele próprio ajudou a criar. Sic transit gloria mundi.

Dizem agora que a paternidade da ideia nem era inteiramente sua, que um francês reclama a prioridade de ter colocado a vida em movimento na tela muda. Pouco importa a disputa dos cartórios. O que me corta o coração é essa ironia cruel dos homens: aquele que ensinou a luz a caminhar acabou no escuro, sem uma única moeda no bolso, enquanto a sua própria invenção projetava o riso e o luxo para o resto do planeta.

Datas comemorativa do Brasil

O 13 de maio de 1888 e alma do povo brasileiro



Há datas no calendário que não são apenas números impressos no papel; carregam o sopro de vida, o tremor e a dor de um país inteiro. O treze de maio é uma dessas datas. De tudo o que a nossa história já viveu, pouca coisa apaixonou tanto a alma da nossa gente quanto a ideia de ver todo homem livre.

Essa revolta contra a escravidão não nasceu ontem. É coisa antiga, sussurrada nos cantos desde o tempo da conquista. Primeiro, veio o protesto em favor do indígena, o selvagem tupi que não aceitava o grilhão. Depois, quando o negro se irmanou ao branco na lida do chão e na dor do trabalho, soube também lutar com heroísmo, defendendo esta mesma terra contra a invasão holandesa.

Mais tarde, subiu dos quilombos o brado forte de Palmares. Ali o negro mostrou ao mundo o tamanho e a dignidade de quem nasceu para ser livre. E aquela causa, que era de humanidade, acabou por invadir as tribunas e os jornais. Virou a grande e nobre obsessão dos maiores nomes do nosso Parlamento e do nosso jornalismo.

De 1880 em diante, a coisa tomou corpo de vez. Depois do projeto de Joaquim Nabuco — que pedia dez anos para o fim do cativeiro —, homens como José do Patrocínio, Vicente de Sousa, João Clapp, Ennes de Sousa e tantos outros pegaram a bandeira. Pelejaram nos comícios, gastaram a tinta dos jornais, dispostos a completar a obra humana que o Visconde do Rio Branco havia começado.

E o país inteiro foi se acendendo. O movimento abolicionista virou uma onda bonita, que vinha do Norte e ia ao Sul, arrebanhando corações. O povo aplaudia, as alforrias em massa aconteciam nos sertões e nas cidades — como aquela festa libertadora que se viu no Ceará.

Até que veio aquele 13 de maio de 1888. A aspiração mais ardente do nosso povo enfim brilhava, vitoriosa e definitiva. A Abolição era assinada pela Princesa Isabel, sob as bênçãos e o alívio de um país inteiro que finalmente respirava.

Talvez não exista na nossa história uma página escrita assim, tão de perto, a tantas mãos, com a colaboração direta de cada brasileiro. Por isso o treze de maio guarda esse lugar quente no nosso peito. Ele nos faz lembrar do tempo em que as melhores energias e os sentimentos mais puros da nossa gente se juntaram para fazer a coisa certa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

RESGATANDO A HISTÓRIA DE FIRMINO COSTA

À MARGEM DE UM LIVRO, TEXTO DE MÁRIO DE LIMA - PUBLICADO NO MINAS GERAES EM 05 DE MAIO DE 1921




Acabamos de ler, com prazer e proveito, a "Gramática Portuguesa" do professor Firmino Costa, ultimamente publicada.

Simples curioso em assuntos filológicos, não temos a pretensão de fazer a crítica desse interessante trabalho, fruto de longos anos de estudo de quem se especializou na matéria e é considerado como um dos mais conscienciosos sabedores da língua vernácula, entre nós.

Compulsamos com atenção a "Gramática" do professor Firmino Costa e é do resultado dessa leitura que darão conta as linhas abaixo, mera apreciação pessoal, desautorizada mas sincera.

O livro do professor Firmino Costa não dispensa o auxílio do professor.

Se o trabalho didático "é uma colaboração do professor e do aluno, a cuja atividade pertencem principalmente as aplicações das regras e dos pontos estudados", o compêndio "não passa de ser um resumo, que a ação inteligente e metódica do professor fará desenvolver e aclarar para melhor aproveitamento da classe".

Dentro desse critério, condensa o autor os diversos assuntos, procurando e conseguindo imprimir ao volume um cunho prático, pela multiplicidade dos exemplos elucidativos.

Sob esse ponto de vista, excelente é o método empregado pelo professor Firmino Costa.

Manifestando-se contrário à demasiada extensão da tecnologia gramatical, a fim de facilitar o trabalho do aluno e impedir que os termos ocupem o lugar dos factos, evita o autor várias denominações consagradas, prescindindo, igualmente, da sinonímia gramatical, que, segundo pensa, dificulta o ensino.

É louvável, sem dúvida, essa simplificação. A complicação tecnológica, tão do agrado de certos gramáticos, entre os quais alguns de valor como Júlio Ribeiro, concorre, sobremodo, para tornar pouco atraente o estudo dessa disciplina.

Fiel a essa orientação, uniformiza o autor os nomes das palavras e os das funções por elas exercidas, distinguindo assim as famílias pelos seus cognomes.

O adjunto atributivo passa a denominar-se adjunto adjetivo; o objeto recebe a nova denominação de adjunto substantivo etc. O pronome deixa de constituir uma categoria gramatical, para enquadrar-se na do substantivo, como substantivo pronominal.

Firmado no critério de que o sentido, e não a forma vocabular, preside à organização de seu compêndio, adota o professor Firmino Costa uma inovação, passível de controvérsia: — o adjunto substantivo direto ou objeto direto regido, não só da preposição a, mas também de outras. "Nos exemplos 'ele gosta de Julieta' e 'ele ama Julieta'", pergunta o autor, "por que a mesma Julieta, recebendo o mesmo amor, há de ser objeto indireto ou objeto direto?"

Contrastando com os seus propósitos de simplificação da tecnologia gramatical, o autor se compraz, às vezes, em multiplicar, sem grande proveito, as classificações, como acontece com o substantivo comum, que ele divide em cinco grupos, entre os quais os superlativos, pejorativos e correlativos.

Afiguram-se-nos francamente bizantinas essas subclassificações.

Tratando do adjetivo qualificativo, apresenta o professor Firmino Costa listas bastante completas de designativos de cores e sinais de bois e de cavalos, que, embora assunto estranho a um compêndio de gramática, não deixam de constituir curiosa coletânea informativa.

Outra inovação de sua gramática, que nos parece pouco lógica, é a de considerar a contração uma categoria vocabular distinta, "por não se enquadrar, pelo seu sentido, em nenhuma das outras." A razão não parece procedente porque, sendo, por definição, a contração o resultado da fusão, numa palavra, de dois ou mais termos, se enquadra sempre, pela sua natureza, em duas categorias gramaticais. Não tem, portanto, o caráter de irredutibilidade, necessário para constituir uma categoria à parte.

"Se deixássemos de inserir as contrações entre as categorias de palavras, escreve o autor, não poderíamos classificar o vocábulo daquele, dando-lhe denominação própria". Como não? A denominação própria de daquele será contração da preposição de com o adjetivo aquele.

Classificando as cláusulas, dá o autor numerosos exemplos, o que facilitará ao estudante compreendê-las sem grande dificuldade.

Entre os exemplos de cláusulas substantivas, figura uma cláusula evidentemente adjetiva, incluída, por um lapso com certeza, entre aquelas. É a seguinte: "Morreu o Sebastião, que era professor de latim". Essa cláusula é um adjunto adjetivo do substantivo Sebastião. Não pode ser, portanto, cláusula substantiva.

Entre as cláusulas adjetivas, há uma que é irretorquivelmente substantiva: "Não tenho com que me alimente", cuja função objetiva é manifesta.

Tratando dos adjuntos, exemplifica abundantemente o professor Firmino Costa. Essa preocupação constitui, como vimos, um dos méritos de seu trabalho.

Entre os exemplos de adjuntos predicativos figuram, porém, alguns duvidosos.

"O menino vai alegre como um passarinho", equivale a "O menino vai alegremente como um passarinho". Alegre é adjunto adverbial e não predicativo, pois acrescenta uma circunstância ao verbo, que modifica.

Em "o doente não pode dormir", dormir não é adjunto predicativo, porquanto pode dormir é um verbo perifrástico.

Não são convincentes as explicações, dadas às páginas 266, 267 pelo autor, para justificar a inclusão, entre os adjuntos predicativos, de adjuntos, que, pela sua função, deveriam figurar entre os adverbiais.

Tratando de particípios duplos, escreve o professor Firmino Costa que "se vão tornando obsoletos os particípios regulares abrido, cobrido, descalçado e escrevido."

Quanto a abrido, cobrido e escrevido são já obsoletos, substituídos de vez, e não simplesmente preferidos, pelos irregulares. Descalçado não se vai tornando obsoleto, sendo de uso corrente o seu emprego em frases como "não tinha ainda descalçado as botas" etc.

Os capítulos sobre Concordâncias e Colocação dos pronomes são todos muito interessantes e documentados com profusos exemplos.

Sobre a possibilidade do se sujeito, escreve o autor algumas linhas convincentes.

O longo capítulo "Particularidades sintáticas" é um dos mais interessantes, principalmente a parte referente ao emprego do infinito pessoal, onde o autor teve a felicidade de reunir os melhores exemplos dos clássicos, que conhecemos sobre a matéria.

Escreve, com razão, o professor Firmino Costa, que esses exemplos "espargem certa luz sobre o emprego das duas formas do infinito, a pessoal e a impessoal". "São construções curiosas, que pelo seu contraste põem de manifesto a adaptabilidade das duas formas infinitas a fins idênticos."

O valor desses exemplos é encerrarem, no mesmo período, as duas formas do infinito, a par uma da outra, sob a mesma regência, dentro de igual concordância, no meio de colocações diversas.

Desses exemplos, deduz o autor a regra geral (adotada também por outros gramáticos) de que deve ser empregado o infinito pessoal quando este for exigido pela clareza ou pela euphonia e algumas regras especiais, à luz daquela.

Pela admirável seleção dos exemplos é essa a parte mais original da "Gramática" do professor Firmino Costa.

Longe iríamos, se fôssemos apontar outros capítulos do livro, dignos de encômio.

A "Gramática Portuguesa" do professor Firmino Costa é, como se vê, um trabalho de valor, do qual tivemos a ousadia de discordar em alguns pontos, prova do interesse e atenção com que lhe percorremos as páginas e da sinceridade com que traçamos estas linhas, portadoras também dos nossos agradecimentos pela gentileza da oferta de um exemplar com que nos distinguiu o autor.