Carta ao Leitor: O Bordado da Memória e o Casarão Rosado
Advertência: Hoje, resolvi escrever uma carta para os meus leitores (aqui do blog) para falar um pouco da minha relação com um lugar de memória importante para todos nós aqui de Belo Horizonte
Caro leitor,
Sempre tive comigo que a memória é um bordado feito de fios particulares que, no fim, desenham o rosto de todo um povo. Gosto de olhar para trás não por melancolia, mas por uma curiosidade mansa de entender como chegamos até aqui. Escrevo-lhe como professor e pesquisador que vive em Belo Horizonte, essa cidade que ainda carrega a tradição de liberdade de Minas Gerais e guarda, em certas esquinas, o peso e a elegância de séculos que se misturam.
Dentre todos os recantos que o meu olhar de mestre aprendeu a amar, nenhum me fala tão alto quanto o casarão rosado da Rua Pernambuco. É um prédio de uma fidalguia antiga, com suas escadarias de mármore que parecem esperar o passo de damas de outras épocas e jardins que guardam o rigor francês sob o sol das Minas Gerais. Dizem que foi feito para ser tribunal, mas o destino — que sabe das coisas — tratou de convertê-lo em templo de ensinar: o nosso Instituto de Educação (IEMG).
A imagem daquela fachada imponente me perseguia desde menino, como um gigante adormecido no centro da cidade. Mas foi no início de 2002 que a vida me deu a chave daquela porta. Lembro-me, como se fosse hoje, do impacto de cruzar o hall de entrada pela primeira vez, já investido da missão de mestre e estudioso. Havia ali um silêncio que não era vazio; era um silêncio cheio de ecos.
Com o passar dos dias, o Instituto deixou de ser apenas um endereço para se tornar um "lugar". E lugar, no meu dicionário de afetos, é o espaço que a gente batiza com a convivência. Conhecer um lugar leva tempo, pede paciência e uma certa entrega. É preciso repetir os mesmos passos, subir as mesmas escadas e notar como a luz do fim da tarde bate nos relevos de Jeanne Milde, até que as paredes comecem a nos contar seus segredos.
Percebi, então, que a alma daquele casarão não morava no mármore de Carrara, mas no capital humano que ali floresceu. Sob aquele teto, formaram-se as mestras que alfabetizaram Minas; ali se pensou o Brasil; ali se recebeu o mundo. Como pesquisador, vi o monumento se transformar em documento. Descobri que as festividades cívicas e os grandes congressos do passado eram o coração pulsante da nossa cultura. O casarão guardou tudo: o móvel antigo, o livro raro, a fotografia amarelada e, principalmente, a marca de tantos personagens que ali deixaram um pedaço da própria trajetória.
Hoje, já não posso caminhar livremente por aqueles corredores. Desde o incêndio de 2023, o prédio fechou-se para reforma e restauração. Mas em fevereiro de 2026, tive o privilégio de visitá-lo para ver os progressos da obra. Foi como voltar ao passado. Senti, com a força da primeira vez, que o Instituto é uma extensão da nossa própria pele. Ele continua sendo o guardião das nossas lembranças, um tesouro em mãos seguras.
Ao sair do prédio e pisar novamente no asfalto da cidade, compreendi que ser professor e pesquisador naquele espaço é entender que somos todos fios desse mesmo bordado, unidos por um ideal superior. Convido você a mergulhar nestas páginas e descobrir como esse "jardim de saber" ainda floresce dentro de cada um de nós.
Com gratidão e esperança,
Ronaldo Campos

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