Resolvi transcrever integralmente para o blog Aqui um artigo publicado no jornal MINAS GERAES (Domingo, 16 de Outubro de 1921), com as adaptações adequadas para que o texto tenha as regras ortográficas e de pontuação do português atual para facilitar a leitura.
MINAS GERAES — Domingo, 16 de Outubro de 1921 — N. 5
Ouro Preto e a Escola de Minas
(Tradições da cidade e do Instituto)
Conferência realizada, no edifício da Escola de Minas, em Ouro Preto, pelo dr. Mario de Lima, no dia 12 do corrente.
Há quatro dias, apenas, recebi o honrosíssimo convite da comissão de festejos comemorativos do 45.º aniversário da fundação da Escola de Minas, para proferir, hoje, nesta cidade, uma conferência.
Como preparar, em tão amesquinhado prazo, na exaustiva labuta diária do meu cargo, uma conferência digna da solenidade que se comemora? Era-me impossível fazê-lo.
Não é, por isso, propriamente, uma conferência que eu venho realizar.
É, antes, uma simples palestra, cujo tema será: — “Ouro Preto e a Escola de Minas: tradições da cidade e do instituto”.
Quando recebi o telegrama dos distintos moços promotores dos festejos de hoje, confesso que tive um momento de hesitação em aceitá-lo.
Grande era a honra da solicitação. Mas a anuência ao convite não importaria menor sacrifício, de minha parte.
Achava-me, então, em minha mesa de trabalho, submerso no dilúvio de papel do expediente cotidiano.
Depus sobre a mesa o telegrama que me inspirava a encantadora e idolatrada terra ouro-pretana!
Que outro assunto mais grato à minha alma do que falar de ti, da tua grandeza, das tuas tradições, entre as quais avulta este notável instituto, que é bem o teu cérebro e parte, igualmente, do teu generoso e nobre coração?
Eis como já te evoquei uma vez:
“Foco de onde irradiou pela terra mineira
A ideia liberal; microcosmo de um povo
De que serás perpétua e imarcescível bandeira,
Com a luz do teu passado o futuro ilumina...
E, ainda hoje, Vila Rica, — espiritual tesouro —
És, relíquia imortal, a pérola de Minas!”
Ou então:
“Cada ladeira tua é um Tabor. Cada palmeira
De terreno recorda um mártir... A glória
Dourou de suave luz o teu declínio calmo...
Cidade-templo, tens um destino sagrado:
Sobrevives ao tempo, heróica e cerimoniosa,
Aspirando e sonhar o aroma do passado.”
E assim que surges ao meu espírito. Não há, na pátria, ares mais livres que os teus. A própria Natureza dá aos teus filhos o exemplo das nobres rebeldias. O Itacolomy é um grito de pedra.
É uma projeção estratigráfica para os céus, consequente a remotíssima revolução geológica, que nestes sítios se operou.
“Atalaia granítica da serra,
E o emblema orográfico da Inconfidência!
És a intrépida heroína desta terra,
Que em Minas foi da liberdade a essência.”
Compor-me-as em ti um guia de guerra:
Há em ti imagem ingente em teu repouso,
E o teu altivo aprumo inda hoje encerra
Algo de teu início impetuoso.
A Natureza, em suas geniais modas,
Talhou a imagem da alma ouro-pretana,
Soberana às tiranias afoitas,
Cristalizando em ti, com parte de arte,
A acácia da própria terra, que se ergue
Em dois gritos agudos para o espaço.”
Em Ouro Preto, a imaginação não pode abstrair-se das meigas sombras do passado que povoam a cidade. Elas emergem de toda parte... São numes protetores da urbe... São os seus penates, os seus deuses familiares...
Surgem, envoltas, às vezes, nas brancas mantilhas dos poéticos nevoeiros noturnos... Cantam no murmúrio flébil do Funil... Soluçam no ciclo de aragem...
São as sentinelas espirituais da cidade.
Ouro Preto é uma terra de encantamentos!
Evoquemos alguns desses amados fantasmas.
Vestido de couro, facão à cinta, o rosto e as mãos tostados pelo sol, em longas travessias, eis Antônio Dias de Oliveira, o descobridor de Ouro Preto...
Energico e diferente, multiplicando a sua atividade, em empreendimentos diversos, eis o capitão-general Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, o fundador de Vila Rica...
Surge agora Paschoal da Silva... É o mais rico possuidor de lavras da terra há pouco descoberta... Tem todo o arraial de Ouro Preto... O morro de S. Sebastião é seu domínio. Às suas ordens trabalham 4.000 escravos...
Mas chegam os dias da revolta de 1720. Amotina-se o povo, inflamado pela palavra de um tribuno ousado.
Paschoal é um dos cabeças do movimento contra as casas de fundição...
Que horrendo espetáculo! A ira do Conde de Assumar manifesta-se formidável. Manda atear o incêndio ao povoado de Paschoal da Silva...
E um morro inteiro que pega fogo; daí o nome que ainda conserva de Morro da Queimada.
E, aos clarões das labaredas que devoram o arraial insubmisso, galopam cavalos bravos arrastando o Mamoppa da liberdade!
É Filipe dos Santos!
“Arde no alto o arraial de Ouro Podre...
(A intervalos,
Subem subindo o céu rubras línguas de fogo.)
E, enquanto lavra o incêndio, o heróico demagogo
Preso à cauda lá vai de indômitos cavalos.
Rangedoramente os cordéis, atalhos
De ossos disjuntos, mais se acalma o jogo
Dessas patas febris. Lá vai, em desafogo
Da corrida, a transpor praças, ruas e vallos.”
Pela estrada, marcando a dolorosa via,
Os frangalhos de corpo em chão profano e duro,
Jazem aqui, ali... Ver declinando o dia...
E um sudário de luz abre o sol moribundo
E, amortalhando o herói em pedaços, lhe envia,
Nos seus raios finais, as bênçãos do futuro.
Outras sombras se levantam do passado.
Eis o chefe da Inconfidência:
“Herói ou semi-louco? A um tempo, semi-louco
E herói. Da Inconfidência é o Quixote fidalgo.
Alma de sonhador, coração de soldado,
Tinha um tanto de heroísmo e de loucura um pouco.”
Alferes Mencionas, teu nome não padece,
Repetido da História o imparcial julgado;
A demência lograr fez-te obstinado:
Desta ardores de fava e assomos de venero.
Não te escaldasse a mente a febre da loucura,
Passarias a ter, na póstera memória,
De um leviano vulgar a simples figura.
Como intrépido réu foi que ganhaste a História:
Por isso é que, apesar de origem tão obscura,
Só teu nome imortal pôde afrontar a glória!
Agora é um casal de noivos, que passa, sussurrando, entre lágrimas os seus amores. Separam-se, em vida, o destino. Caíram no esquecimento, na obscuridade, a imortalidade.
“Poeta e juiz, meu apoio e meu triunfo...”
A função de escrever ficções e de sonhar.
Os albergues harmoniosos de sua lira,
Enaltecem Vila Rica engalanada, à busca do seu fim...
Gonzaga, foi teu acolhimento este meu mentir:
Desfalece, um dia, esta ingênua alma de amor.
Mas no peito obteve o destino te atirar.
Adeus Marília! Adeus amores de minha alma!
Noite, longo vigília em noite de vigília.
Bordada a ponta de ouro, não te esqueço...
Embora, sem razão, a calúnia acuse-a...
Esqueceste-te de mim. Mas tem nesta gleba,
Se inda força há em mim, ó graças a Marília,
Cujo amor inspirou tantas liras do céu...
D. Maria Dorothéa Joaquina de Seixas morreu com cerca de 80 anos, nesta cidade. A Marília, que passou à posteridade, é, porém, perpetuamente jovem. Não perdeu a formosura. Tão envelheceu?
“Vedes como Beatriz ou Laura, saídas da lenda
Gostam da história, Marília, a tua fama é infinda.
Vives na tradição gratuitamente linda.
Nenhuma pode haver de uma auréola assim estupenda.”
De um destino infeliz, em breve, a mão formidável
Te apartou de Dirceu. Porém, o noivado finda.
Ainda vive Gonzaga. A África espera ainda,
Toda a vida a esperar, na poética vivenda.
Mas a poetisa de Dirceu o sonhador das Liras...
E enquanto em Vila Rica, a desvairar, suspiras,
No exílio ele te olvida, em perjúrio nefando.
Que importa oferecer à infância o teu virgem facho
— Teu nome ficou unido a heptacórdio sonoro
Onde a idílio imortal refulge e cantando!
Um velho agora; velho tropeço, abatido, mas em cuja cabeça floresce a corda de louros dos poetas. É Cláudio Manuel:
“Poético e solitário, amaste a Nise. Um facho
Feminina vida, cujo perfil risonho
O amargor do teu pranto às vezes dulcifica.”
Três sombras que se abraçam: Alvarenga Peixoto, Bárbara Heliodora e Maria Efigênia. Alvarenga, inconfidente, quer inalar os amigos. Bárbara Heliodora corta-lhe os lábios, com um beijo, a chorar.
Gênio morre do pó e de vergonha! É um pequeno episódio pitoresco.
Pobre Maria Efigênia:
“Linda como a camélia e pura como o lírio,
Pendida sobre o hastil, antes do desabrochar...
E o que era para ser o roscio, em si, se tornou em tempestade,
Transformando-se a vida em martírio.
Aida de sua luz, que fora alegre e esbelta,
E onde veio pousar da desventura o fecho.
Era de mais de mais de espírito, de profusa,
Vatídico, drapejava como o clarão de um círio.
...E apagou-se... No exílio o pai inconfidente...
Ela definha e os frades... A mãe pobre e demente...
A vergonha, ao recesso do fausto e da fraqueza...
Rebelde vingador do gênio e da beleza,
Brilhas entre dois sóis, como uma permanente aurora:
Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora!”
Que sombra é essa que nos espreita? É o Quasimodo de Victor Hugo? Arrasta-se. Tem pés e mãos mutilados. É um monstro, mas um monstro de gênio, que deixou, em vários templos de Ouro Preto, a afirmação exuberante de seu talento artístico. É o Aleijadinho:
“Tarde, baixos, dolorosos, a catedral borbulha...
Num ritmo de ironia acende o fogo ardente...
Passante à história, ó grande e genial mutilado,
Transfigurou-se pelo apoteose da ferida.
Preso ao chão dos trilhos, na solidão da renda,
Quando o gênio latejou em um quase inaptidão:
Da tua misteriosa e enigma agonia
Queima essa primeira folha desvendada.”
Igrejas de S. João d'El-Rei e de Ouro Preto, templos da graciosa, por onde se ergue o martelo do Quasimodo da nossa arte.
Pedra à inspiração de um Bernini brasileiro!
Esta é uma cidade de memórias, cheia de lugares santos para a nossa história divina. Cada casa é uma recordação gravíssima.
Eis a Casa de Marília:
“Aqui morou — Julieta ouro-pretana —
Marília, a noiva de Gonzaga-Romeu...
Homem nobre de saber, que te engalanas,
Hoje em convento, onde a paixão se escondeu.”
Da terra aquecida e pelas mudo de estrada,
Onde doce efúvio da afeição passara...
E em frente da mesquita franciscana,
Um par de borboletas carinhosas vaga.
Onde em cativeiro, desde o dia triste
Em que Dirceu se ocultou na escura cela
Da imagem, a noiva pensativa viste...
E, atenta a circunstância afortunada,
Recorde-se a sonhar, Marília bela,
Senhora de amor no clássico da saudade.*
Aqui é a casa de Gonzaga, na Rua do Ouvidor.
“O velho casarão de Vila Rica,
Desprovido de arquitetônicos obsoletos,
O teu velho recinto testifica
Um dos cantos mais lindos de Ouro Preto.
Vês, de onde estás, o lar de Carmo-Abaeté?
A casa de Marília, alva e singela...
E com ela cantaria, em sua janela,
O idílio amigo, que vos glorifica.
Tem nas suas paredes imortal cada edifício.
Em ti revives de Thomaz Gonzaga
A alma lírica, em sonho e espontaneidade.
Sonhas, estranho à sorte ambiente e aziaga...
E então teu prístino epílogo,
Enquanto a sombra de Dirceu te afaga.”
Ainda em Antônio Dias, o barracão histórico onde se reuniam os Inconfidentes:
“Jazendo ao fundo da vivenda antiga
De Cláudio Manoel, velho balcão,
De flores trepadeiras não te abriga
A trama vidente e vulto ancião.
O petreo ouvido à escuta, sem fadiga,
Colheste os planos da Conjuração;
E, inda hoje, dessa voz heroica e amiga,
Os ecos vivem em teu seio estão.”
Que panorama esplêndido divisas! Ao luar, em frente vendo, ídola e baliza, as pedras gemeas do Itacolomy.
Cuidas ouvir Cláudio, Maciel, Toledo, Alvarenga, Dirceu... e ver, atrás, toda a mão do Alferes apoiada em ti.
Em outro local da cidade, a Cava dos Cintos, onde morreu Cláudio Manuel da Costa:
“Ângulo, vertente à antiga vertente,
Cova escura, onde o crime se opaca,
E a evaporação saudosa das cordas
Os tigres vibram em angústia fraquinha.”
De torturas e lágrimas transborda!
Há páginas de sangue em teus anais:
Chagas no selo em formidáveis bordas,
Do desespero as sombras espectrais.
Arca das estrofes do Real Contrato:
Outrora ouro roubado e um povo coacto!
Tens tradições mais negras que o terror!
Busto de Cláudio e Palácio-esquife,
E onde se deu glórias te alardeie,
Vem a vista do mártir-escritor.
Embaraça-se o ambiente. Escuta-se outra vez, no bairro de Antônio Dias, a Praça do Tiradentes:
“Praça de Antônio Dias, mais de um meio
De ano é de um mistério, de um segredo.
Guardas aos bancos de granito a medo,
Cujo relva em lívido tramoio.
Neles, em tempos que se vão, o ponto
De piratas ruim. Ouvias, desde então,
Confissões, remoques, sons que eram sem dolo,
Colado ao lábio, interrupção, gemido.
Quantos suspiros de Dirceu ouviste!
Quantas vezes o olhar Marília triste
Pousou em ti, à hora da trindade...
Sob os teus arcos de um fuzil velho...
Igual é o que susurra no teu seio
Albergue de lembranças e saudades!”
As torres das igrejas avultam no panorama da cidade — lembram-se das pompas orientais do “Triunfo Eucarístico” e das procissões de S. Jorge; evocando o esplendor e a fé viva dos nossos maiores:
“Templos de Vila Rica, afamados
Móveis da Fé, beldades da cidade, —
Brancas torres, — nichos da saudade —
Os teus sinos que carpideiras...”
“Chegando ao cume das ladeiras,
Vemos com doce comoção quem há de?
O fausto recordar de martiridade
E o amor das velhas gerações mineiras.
Lavras de cinzel, arcabouços de ouro,
Primores de arte, esplêndido tesouro,
Fazem ao olhar maravilhar...
E nós, de luto, ou a florir em ruínas,
Lápide da pátria, onde hoje soletramos
A piedade e a opulência de Passos!”
O edifício, em que se acha instalada a Escola de Minas, é uma das relíquias de Vila Rica:
“Por mais que se estrague o seu aspecto,
Velho Palácio dos Governadores,
Guardas no vulto e aprumo inesquecível
E no grave de teus painéis murais.
Cidadela de pedra, praça aceita
Para asilo e conforto de opressores,
Hoje agasalhas, sob o mesmo teto,
Da inteligência os ínclitos labores.
Mudaram de destino, mas a sombra
Do despotismo antigo te admira...
Teu ar de fortaleza inda lhe assombra...
E a lembrar do passado o ferro juga,
Junto fronteiro a secular cadeia,
Como um verdugo em frente a outro verdugo.”
II
Que grande mudança de destino! A legenda antiga desta casa, nos dias coloniais, bem podia ser o princípio absolutista do direito público romano: “Quod principi placuit legis habet vigorem.” (O que apraz ao príncipe tem força de lei).
A legenda de hoje é outra. É também latina, mas não significa opressão e tirania. São quatro palavras apenas, que encerram um vasto programa de trabalho e de abnegação pela ciência: Cum mente et malleo (Com a mente e o martelo).
Em seu destino primitivo, desta casa partiam para a Capitania as ordens iníquas, exigências de ouro, espoliações de toda a ordem.
O Palácio dos Governadores exauria Minas para abarrotar com suas riquezas a avidez da metrópole.
Como os tempos mudaram! Nesta casa, acha-se agora instalada a caserna que prepara soldados para as nobres lutas da ciência e para a grande obra da reorganização econômica da pátria.
A Escola de Minas é, sem dúvida, a mais gloriosa oficina da alta instrução profissional no Brasil.
Estabelecimento científico que honra o país, é tal o seu prestígio, tal a sua reputação, que, encravada, embora, no seio destas montanhas, tão longe do litoral, disputa, no estrangeiro, a fama, a adeptos como o de Oswaldo Cruz, situado à beira-mar, na capital da República.
Essa reputação é mantida pela Escola, desde os seus primeiros dias.
Evoquemos hoje, que se comemora o 45.º aniversário de sua fundação, a memória inesquecível de seu fundador.
Henri Gorceix é bem um grande nome, incorporado ao patrimônio científico da nossa pátria.