domingo, 29 de março de 2026

O Brasil que a Gente Esconde na Calçada


 

Hoje, fiquei pensando: e se Monteiro Lobato vivesse nos tempos atuais? Certamente, ele não gastaria tinta com o Jeca Tatu. Outros problemas, bem mais graves, o afligiriam, levando-o a escrever sobre o feminicídio ou sobre a "infância desvalida" — como se dizia em sua época.

Caríssimo leitor, se nosso querido autor de Taubaté escrevesse sobre a violência contra a criança, fatalmente o Visconde de Sabugosa, com toda a sua sabedoria de milho, iria analisar as estatísticas disponíveis. E se ele escolhesse a nossa querida Belo Horizonte, certamente derrubaria a cartola de tanto susto. É que o Brasil, esse país que adora fazer leis com imensa dificuldade de sair do papel para o mundo das pessoas reais, escreveu no tal do Estatuto da Criança e do Adolescente que nossos meninos e meninas são "prioridade absoluta". Mas, entre o papel do livro e o asfalto do centro de BH, parece que o caminho foi cortado por um bando de onças famintas.

Dona Benta, com seu olhar de avó que tudo compreende, diria que não se pode culpar o passarinho por cair do ninho quando o galho está podre. O que leva um adolescente de 17 anos a trocar a escola pelo emprego de vendedor de balas? Não é falta de vontade ou uma escola "(des)interessante"; é o estômago gritando e a falta de um programa de educação real e exequível que busque transformar a vida dos jovens. O menino não frequenta a aula porque o sono da rua é tardio e a fome não espera o sinal bater.

Dizem os entendidos — e aqui o Visconde ajustaria os óculos — que existem as "crianças na rua" e as "crianças de rua". As primeiras ainda têm um ninho para onde voltar à noite; as segundas têm apenas a marquise e o vício, que chega de mansinho como um lobo em pele de cordeiro. Em Belo Horizonte, a coisa é curiosa: o trabalho infantil adora um bairro nobre. Os meninos do Aglomerado da Serra descem para o Centro-Sul, onde o dinheiro circula, mas o respeito muitas vezes fica guardado no bolso.

O que me revolta, e aqui o Lobato falaria com a língua de fogo, é o tal do "higienismo". Muitas vezes, buscam qualquer pretexto para cortar gastos. São capazes de fechar um projeto voltado para as crianças em situação de rua alegando goteira no prédio! Ora, goteira se conserta com telha, não com o fechamento de um porto seguro para quem só tem a intempérie como teto. É a velha mania das autoridades de querer limpar a cidade varrendo gente para debaixo do tapete.

A verdade, leitor, é que a criança de rua não é um "fenômeno", é uma denúncia. É o reflexo de famílias desestruturadas e de um Estado que prefere bater metas de arrecadação a bater metas de dignidade. O serviço de abordagem tenta, mas enquanto a sociedade fechar o vidro do carro e achar que o problema é "do juiz ou da OAB", continuaremos sendo esse país de faz-de-conta onde o futuro dorme ao relento.

Precisamos de uma abordagem que não seja apenas "retirar da rua", mas "incluir na vida". Que o diga a Constituição! Que o diga o ECA! Mas, enquanto a "pátria do saber grave" de Herculano não chegar por aqui, ficaremos assim: vendo nossos pequenos malabaristas queimando a juventude em troca de trocados, enquanto o Brasil oficial finge que não vê a fumaça.

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