domingo, 29 de março de 2026

O Óculos de Enxergar o Invisível (ou: Para que Serve a Filosofia, Afinal?)

 Sabe, outro dia eu estava pensando: muita gente acredita que Filosofia é coisa de quem vive no mundo da lua, batendo papo com Platão e Aristóteles enquanto a vida real passa lá fora. Uma espécie de esporte olímpico para o cérebro, cheio de regras complicadas e utilidade zero.

Mas, caríssimo leitor, se olharmos com atenção, a Filosofia não é um bicho de sete cabeças. Ela (assim como as outras ciências também) é mais como um par de óculos especial. Um par de óculos que, quando a gente coloca, o mundo para de ser "assim mesmo" e passa a ser "por que é assim?". É a recusa ciente de se satisfazer com o mínimo, com a resposta pronta, com a explicação que o vizinho deu ou que a TV repetiu. Filosofia é a arte de fazer perguntas incômodas e ter a coragem de procurar respostas que, às vezes, nem existem — ou, se existem, são bem mais complexas do que gostaríamos.

Chauí já dizia que é uma "disposição interior", um desejo de saber. Não é algo distante, não. Filosofar é o sujeito conseguir ler a realidade e, a partir dali, rabiscar seu próprio pensamento. É o contrário de ser um robô repetidor de frases de efeito. Qualquer um pode filosofar? Sim! Mas, atenção: nem tudo é Filosofia. Não basta sair por aí dando palpites. É preciso transformar a afirmação chata numa interrogação curiosa. É preciso ver o mundo de um jeito diferente.

Aí você me pergunta: "E o que isso tem a ver com o Assistente Social?". Eu lhe respondo: Tudo! O trabalho desse profissional exige argumentos, exige uma visão que enxergue além do óbvio, além da ficha cadastral. A Filosofia é o antídoto contra o conformismo, contra o olhar preguiçoso que se acostuma com a injustiça. É ela que ajuda a formar um olhar cada vez mais interrogador sobre a realidade que grita na porta.

Pense em Platão. O homem elaborou sua teoria no meio de uma crise pesada em Atenas. Ele olhava para a bagunça e se perguntava: "Como seria a cidade ideal?". Buscava o Bem não como algo abstrato, mas como uma ideia para ser vivida por todos. Ao ler sua obra, a gente topa com o conceito de cidadania. E cidadania, leitor, não é só ter um documento. É ter a liberdade de ir e vir, de participar, de ser.

É exatamente aqui que a Filosofia aperta o cinto do Assistente Social. Quando estamos lutando para mostrar que uma pessoa com deficiência visual pode fazer tudo — lógico, com as dificuldades naturais, mas com os direitos assegurados —, estamos fazendo Filosofia pura. Estamos questionando a exclusão. Estamos enxergando a cidadania que o mundo, muitas vezes, faz questão de tornar invisível.

Aristóteles, o outro "gigante", acreditava que o que formava a cidade era justamente a diferença. E quando uma pessoa não tem direito à cidadania, quando ela é invisibilizada, ela se isola. O isolamento pode levar à depressão, e a depressão, sabemos, pode até matar. O papel do Assistente Social é, portanto, o de um "anti-isolante". Não permitir a exclusão, mas brigar pela inclusão. Porque quando você está incluído, você não está só. Você cria motivos para superar.

E para fazer tudo isso, caríssimo leitor, precisa de persuasão. Uma persuasão boa, construtiva, que mude as coisas sem machucar o outro. E é com a Filosofia que aprendemos a melhor forma de fazer isso. Não é gritar, não é impor; é saber fazer a pergunta certa que ilumina o caminho da mudança.

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