De tempos em tempos, eu me pego navegando pelas minhas "escrevivências". Esse meu blog com nome comprido, filosófico, quase um tratado pedagógico: De aprender, (des)aprender e (re)aprender. Mas o tempo, esse grande editor da vida, encurtou o título para o que ele realmente sempre foi: Blog do professor Ronaldo Campos.
Afinal, a gente muda o rótulo, mas o caderno de memórias continua pulsando. E hoje me veio à cabeça um daqueles episódios em que a vida resolveu imitar o teatro do absurdo.
Aconteceu nos anos dourados do UniBH, quando eu lecionava no Curso Normal Superior — meu verdadeiro xodó. Eu tinha no peito aquele ufanismo bonito dos pioneiros da educação. Olhava para as minhas alunas e enxergava nelas o mesmo DNA de Carvalho de Britto e João Pinheiro, os idealizadores da Escola Normal Modelo. Eu não queria dar aulas entre quatro paredes. O mundo era a minha sala.
Belo Horizonte vivia o primeiro mandato do governador Aécio Neves. E eu, em minhas peregrinações diárias rumo ao campus, passava em frente ao Palácio das Artes e namorava os cartazes. Vi na Grande Galeria o anúncio de uma exposição extraordinária. O coração de professor disparou: "Tá aí. É essa a minha aula!".
Passei uma semana inteira noites a fio desenhando o projeto. Levei para a coordenação. As saudosas professoras Geralda e Consolação — duas almas generosas — deram o carimbo de aprovação. As alunas vibraram. Marquei a aula secreta e gloriosa para uma segunda-feira à tarde, na porta da Fundação Clóvis Salgado.
O que eu não sabia — ah, a inocência dos homens apaixonados pela arte! — é que o destino já tinha armado sua teia na edição do MGTV daquela semana. O governador decidira fechar o Palácio das Artes para reformas e preparativos do Fórum das Américas. Tudo suspenso. Tudo trancado a sete chaves. A única exceção no prédio inteiro era a temporada comemorativa do Grupo Corpo no Grande Teatro. Mas quem assiste televisão quando se está planejando mudar o mundo com a educação?
Na hora marcada, a Afonso Pena parecia um formigueiro. Uma a uma, chegaram mais de quarenta alunas, compenetradas, cadernos em riste. Éramos uma verdadeira tropa da cultura.
Entramos no saguão com passos firmes de quem vai tomar a Bastilha. Marchamos direto para a Grande Galeria. E foi aí que o paredão da realidade nos parou na figura do segurança do Palácio.
— Pois não, professor. A exposição acabou.
— Como acabou? Eu agendei! Ninguém me avisou!
Iniciei uma peleja verbal digna de um clássico no Mineirão. E, veja você a força de Belo Horizonte: quanto mais eu argumentava, mais a calçada parava. O povo que passava de ônibus, de táxi, a pé, começou a se aglomerar atrás da nossa turma. Em dois minutos, formou-se uma multidão no saguão.
O problema é que os mineiros não queriam a minha exposição de arte contemporânea. Olharam para aquele mar de gente, viram o movimento e pensaram: "É fila de ingresso extra para o Grupo Corpo!".
O caos estava instalado. O povo gritando por ingressos para o dança, eu gritando pela minha exposição de artes visuais, as alunas sem entender nada e o segurança desesperado.
De repente, a cena ganha contornos de cinema de espionagem: surge a Polícia Militar.
— Circulando, circulando! Isso aqui é incitação ao tumulto! Estão querendo fazer uma rebelião contra o Governo do Estado!
Fomos desrespeitados. Expulsos com a glória dos incompreendidos. Não houve exposição, não houve Grupo Corpo, não houve diplomacia cultural.
Sem ter como dar a aula e com o orgulho levemente ferido, a minha tropa de futuras professoras tomou uma decisão épica: ir embora a pé. Afinal, da Afonso Pena até a Lagoinha, para o povo de Minas, é um pulinho só.
Caminhamos a passos largos pela avenida. No meio do trajeto, o olhar atento das alunas fisgou um portal para o paraíso consumista: no meio da Praça Sete, bem pertinho do Cine Brasil e do lado da primeira agência do Banco do Brasil, uma loja gigante com a placa Feira Shopping e dezenas de cartazes de promoção. Roupas da moda a preço de banana.
As quarenta e poucas alunas invadiram a loja com a mesma fúria com que tentamos invadir a galeria. Em menos de cinco minutos, a rua parou de novo. A população, vendo aquele mar de mulheres saindo com sacolas, achou que a loja estava dando mercadoria de graça. Formou-se uma nova multidão na porta.
E foi assim, entre uma suspeita de rebelião estatal na Fundação Clóvis Salgado e um tumulto de compras na Afonso Pena, que a nossa aula na galeria de arte terminou sem nunca ter acontecido.

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