sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Dia em que Quase Fizemos a Revolução das Artes na Afonso Pena (texto de Ronaldo Campos)


 De tempos em tempos, eu me pego navegando pelas minhas "escrevivências". Esse meu blog com nome comprido, filosófico, quase um tratado pedagógico: De aprender, (des)aprender e (re)aprender. Mas o tempo, esse grande editor da vida, encurtou o título para o que ele realmente sempre foi: Blog do professor Ronaldo Campos.

Afinal, a gente muda o rótulo, mas o caderno de memórias continua pulsando. E hoje me veio à cabeça um daqueles episódios em que a vida resolveu imitar o teatro do absurdo.

Aconteceu nos anos dourados do UniBH, quando eu lecionava no Curso Normal Superior — meu verdadeiro xodó. Eu tinha no peito aquele ufanismo bonito dos pioneiros da educação. Olhava para as minhas alunas e enxergava nelas o mesmo DNA de Carvalho de Britto e João Pinheiro, os idealizadores da Escola Normal Modelo. Eu não queria dar aulas entre quatro paredes. O mundo era a minha sala.

Belo Horizonte vivia o primeiro mandato do governador Aécio Neves. E eu, em minhas peregrinações diárias rumo ao campus, passava em frente ao Palácio das Artes e namorava os cartazes. Vi na Grande Galeria o anúncio de uma exposição extraordinária. O coração de professor disparou: "Tá aí. É essa a minha aula!".

Passei uma semana inteira noites a fio desenhando o projeto. Levei para a coordenação. As saudosas professoras Geralda e Consolação — duas almas generosas — deram o carimbo de aprovação. As alunas vibraram. Marquei a aula secreta e gloriosa para uma segunda-feira à tarde, na porta da Fundação Clóvis Salgado.

O que eu não sabia — ah, a inocência dos homens apaixonados pela arte! — é que o destino já tinha armado sua teia na edição do MGTV daquela semana. O governador decidira fechar o Palácio das Artes para reformas e preparativos do Fórum das Américas. Tudo suspenso. Tudo trancado a sete chaves. A única exceção no prédio inteiro era a temporada comemorativa do Grupo Corpo no Grande Teatro. Mas quem assiste televisão quando se está planejando mudar o mundo com a educação?

Na hora marcada, a Afonso Pena parecia um formigueiro. Uma a uma, chegaram mais de quarenta alunas, compenetradas, cadernos em riste. Éramos uma verdadeira tropa da cultura.

Entramos no saguão com passos firmes de quem vai tomar a Bastilha. Marchamos direto para a Grande Galeria. E foi aí que o paredão da realidade nos parou na figura do segurança do Palácio.

— Pois não, professor. A exposição acabou.

— Como acabou? Eu agendei! Ninguém me avisou!

Iniciei uma peleja verbal digna de um clássico no Mineirão. E, veja você a força de Belo Horizonte: quanto mais eu argumentava, mais a calçada parava. O povo que passava de ônibus, de táxi, a pé, começou a se aglomerar atrás da nossa turma. Em dois minutos, formou-se uma multidão no saguão.

O problema é que os mineiros não queriam a minha exposição de arte contemporânea. Olharam para aquele mar de gente, viram o movimento e pensaram: "É fila de ingresso extra para o Grupo Corpo!".

O caos estava instalado. O povo gritando por ingressos para o dança, eu gritando pela minha exposição de artes visuais, as alunas sem entender nada e o segurança desesperado.

De repente, a cena ganha contornos de cinema de espionagem: surge a Polícia Militar.

— Circulando, circulando! Isso aqui é incitação ao tumulto! Estão querendo fazer uma rebelião contra o Governo do Estado!

Fomos desrespeitados. Expulsos com a glória dos incompreendidos. Não houve exposição, não houve Grupo Corpo, não houve diplomacia cultural.

Sem ter como dar a aula e com o orgulho levemente ferido, a minha tropa de futuras professoras tomou uma decisão épica: ir embora a pé. Afinal, da Afonso Pena até a Lagoinha, para o povo de Minas, é um pulinho só.

Caminhamos a passos largos pela avenida. No meio do trajeto, o olhar atento das alunas fisgou um portal para o paraíso consumista: no meio da Praça Sete, bem pertinho do Cine Brasil e do lado da primeira agência do Banco do Brasil, uma loja gigante com a placa Feira Shopping e dezenas de cartazes de promoção. Roupas da moda a preço de banana.

As quarenta e poucas alunas invadiram a loja com a mesma fúria com que tentamos invadir a galeria. Em menos de cinco minutos, a rua parou de novo. A população, vendo aquele mar de mulheres saindo com sacolas, achou que a loja estava dando mercadoria de graça. Formou-se uma nova multidão na porta.

E foi assim, entre uma suspeita de rebelião estatal na Fundação Clóvis Salgado e um tumulto de compras na Afonso Pena, que a nossa aula na galeria de arte terminou sem nunca ter acontecido.

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