Perder é uma arte dolorosa, mas perder jogos esportivos em uma gincana de escola é tragédia grega com uniforme de educação física.
Ninguém entende a dor de um professor de História até que ele se veja no comando da delegação de Curitiba — a turma mais famigerada, falada e derrotada do colégio nos jogos esportivos de 2024.
A culpa, veja você, era toda da expectativa. Tínhamos na sala o Garrincha do bairro, o Pelé da Savassi, um garoto prodígio que já tinha passado na peneira do Cruzeiro e dado entrevista na televisão. O rapaz não andava, flutuava. A turma já cantava vitória antes do apito inicial. Mas aí veio a burocracia do destino: "E se o garoto machuca o joelho precioso no parquet do ginásio?". O craque não jogou. Ficou no banco das ilusões, de banho tomado e chuteira sem lama.
Resultado? A tragédia do Paraná.
Perdemos no futebol. Perdemos no vôlei. Fomos massacrados no basquete. Eu não podia caminhar pelos corredores em paz. Bastava eu pisar na sala do Espírito Santo para os meninos levantarem a bandeira capixaba na minha cara, lembrando o massacre do futebol. Passava pela porta da Bahia e vinha o riso debochado por causa do vôlei. O Paraná devia a vida, a honra e a tabela de classificação.
Restavam ainda alguma esperança. Quem sabe nas provas de conhecimento... na tarefa relâmpago ou na tarefa gastronômica... O primeiro passo para reverter a onda de insucesso era uma única foto.
Se a turma inteira aparecesse na foto oficial no coreto da Praça da Liberdade, devidamente uniformizada, os pontos da tarefa entrariam na conta e salvariam Curitiba do rebaixamento moral.
Na quarta-feira à tarde, o milagre da assiduidade aconteceu. O bilhete aos pais surtiu efeito. Ninguém faltou. Éramos um exército de camisetas idênticas, estampadas com a Gralha Azul e as cores do Paraná, marchando a pé do prédio da escola rumo à praça.
Chegamos ao coreto com a solenidade de quem vai assinar um tratado de paz. E foi aí que o destino tropeçou na nossa comédia.
Um guarda municipal, com o garbo das autoridades atentas, se aproximou. Olhou para as nossas camisas reluzentes, olhou para a grande bandeira verde e branca aberta nas escadarias do coreto, olhou para a minha cara de professor compenetrado e decretou, comovido:
— Pode deixar, professor! Sejam muito bem-vindos a Belo Horizonte. Aqui a segurança é garantida para o turismo pedagógico do nosso país!
Ele achou que é tínhamos vindo de ônibus direto de Curitiba.
Eu, que trazia na alma as feridas do futebol e do basquete, não desmenti. A turma engoliu o riso e assumiu a postura do orgulho paranaense. O guarda municipal virou nosso embaixador. Postou-se em guarda de honra, afastou os curiosos e fez questão de ser ele mesmo o fotógrafo oficial da nossa delegação fictícia.
As pessoas passavam. Os ônibus reduziam a marcha na Avenida João Pinheiro. Passageiros debruçavam nas janelas para acenar para os "estudantes do Sul". E nós, rindo por dentro da maior farsa geopolítica da história da escola, posei-mos como campeões nobres e misteriosos.
Não ganhamos na quadra. O craque da TV não deu um chute a gol. Mas naquele enquadramento perfeito, debaixo do rendilhado de ferro do coreto da Praça da Liberdade, a turma de Curitiba foi, por cinco minutos inesquecíveis, a dona do mundo.
Se a foto valeu os pontos na gincana? Pouco importava. Naquela tarde, Belo Horizonte inteira aplaudiu a nossa derrota.

Nenhum comentário:
Postar um comentário