segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Reflexões sobre ética e estética Texto Ronaldo Campos


Reflexões sobre ética e estética


Texto Ronaldo Campos

Este texto não pretende esgotar o tema.  É um exercício que nasceu de uma tentativa de  de associar temas ou conceitos filosóficos da área da Estética e da Ética.  Pensei em lidar com três questões, a saber: primeiro, "a teoria da Ação Subjetiva"; segundo, "o Todo"; terceiro, "a mediação da Subjetiva".  Optei por trabalhar com apenas um dos vértices, o Todo, visto ser este um termo capital para várias teorias estéticas.
Há muito já se tornou lugar comum dizer que a estética é uma disciplina moderna, visto que o seu nascimento enquanto disciplina é datado do século XVIII, entretanto, tal ideia pode induzir a erros se se chegar ao ponto de negar o mundo antigo como fonte de inspiração para o estudo da arte, negando a fecundidade que no campo da estética possuem alguns conceitos ( os quais, originalmente, não se referiam a arte, pelo menos como a concebemos atualmente).  Dentre os muitos casos, pode-se destacar o conceito de todo  proposto por Aristóteles.  Este conceito perpassa diversas noções fundamentais para a filosofia da arte.  Por exemplo, nos diz Ernesto Grassi, “a téchne  abarca um todo que inclui em si uma pluralidade”.(Grassi, p.66)  Tal afirmação pode ser exemplificada logo no início da Metafísica:  “Saber que tal remédio cura este ou aquele doente constitui a experiência (empiria); porém saber o que tem curado todos os doentes cometidos por uma mesma doença, isto é arte (Téchne)” (981a, 7).  Assim, segundo Aristóteles, a téchne tem início quando um grande número de noções dispersas ministradas pela experiência se “transforma” numa só concepção geral que se aplica a todos os casos semelhantes.  Portanto, “a téchne descobre não somente o que é, como também e ao mesmo tempo o motivo  de ser assim.  A téchne adianta não então dois passos:  primeiro, o esboço do geral (teoria, motivação), que unifica a multiplicidade de objetos (explicação); segundo, o experimento, que prova a teoria esboçada, isto é, confirma ou nega. [...] A téchne, enquanto reúne em um esboço geral uma pluralidade diferencial, é conhecimento por meio do logos, que liga e explica.  Este conhecimento forma um todo”.(Grassi, p.67).  Mas afinal de contas como Aristóteles concebe o todo?  

Na Poética, o Estagirita define o todo como “aquilo que tem princípio, meio e fim”, isto é, o todo é composto de partes; entretanto, “o belo ser-vivente ou o que quer que seja que se  componha de partes, não só deve ter essas partes ordenadas, mas também uma grandeza que não seja qualquer.  Porque o belo consiste na grandeza e na ordem, e portanto, um organismo vivente, pequeníssimo, não poderia ser belo (pois a visão é confusa quando se olha por tempo quase imperceptível); e também não seria belo, grandíssimo (porque faltaria a visão de conjunto”).  Observa-se, pois, que a noção de todo proposta por Aristóteles possui uma clara analogia com conceitos da natureza, com a vida, isto é, com a noção de organismo. 

          
Ao definir a vida, o Estagirita tem por ponto de partida realidades muito simples, das quais, obtém uma constatação inicial, que a primeira vista, pode nos parecer paradoxal, a saber: os seres vivos são compostos pelos mesmos elementos que os objetos inanimados.  Sobre este ponto, escreve Pierre Louis, “Aristóteles nada mais fez do que retomar as teorias dos seus antecessores.  Os gregos concebiam a natureza como um ser único que abarca a totalidade dos seres particulares.  Os primeiros físicos postularam a continuidade da vida e da matéria.  Representavam a existência de todos os corpos, vivos ou não, como expressão de uma vida imanente.  A oposição que para nós é banal, entre matéria inerte e seres vivos, não existia para eles em nenhum grau.  Eles não viam distinção de estrutura nem de natureza entre minerais, vegetais e animais.  Pensavam que tanto uns quanto outros eram feitos da mesma matéria”(Louis, p.186). 
            

Certamente, uma da fontes principais de Aristóteles foi a obra de Empedocles.  O filosofo de Agrigento foi o primeiro pensador que buscou resolver a aporia eleata, “tentando salvar, de um lado, o princípio de que nada nasce, nada perece e o ser sempre permanece e, de outro, os fenômenos atestados pela experiência.[...] Nascimento e morte são [...], respectivamente, mistura e dissolução de determinadas substâncias ingênitas e indestrutíveis, substâncias que permanecem eternamente iguais” - “as raízes do mundo”(Reale, 1993, p.133-134).  Seguindo o  mesmo raciocínio, observa-se que no tratado De la Génération et de la Corruption, Aristóteles descreve, de acordo com Pierre Louis, que as combinações possíveis entre os quatro elementos ( o quente, o frio, o seco e o úmido) limitam-se teoricamente a poucos tipos, pois, os contrários não podem combinar entre si; ou seja, é impossível que o quente e o frio ou o seco e o úmido se associarem num mesmo objeto.(Louis, p.186)  Tais composições - como por exemplo, o fogo que resulta da união entre o quente e o seco; ou o ar, união do quente e do úmido; ou a terra, o frio e o seco; ou ainda a água, o frio e o úmido - não resultam simplesmente de uma justaposição de elementos.  “A  combinação que eles produzem não consiste de um simples amontoado de partículas elementares, mas sempre é seguida de uma modificação qualitativa.  Desta modificação, nasce uma nova forma, na qual cada um dos elementos traz uma contribuição, e que apresenta uma coerência real, mesmo se ela é variável”(Louis, 187).
            

A primeira das sínteses se efetua diretamente das partículas elementares - fogo, terra, ar e água.  Estas se misturam e se combinam para gerar os tecidos - segundo Aristóteles, as homeomerias, pois, elas podem ser divididas em partes idênticas ao todo.  Desta forma, todos os tecidos possuem uma natureza  vital; sendo que a estrutura, por exemplo, de cada porção do tecido ósseo (por menor que seja ) é sempre a mesma.  Entretanto, tais partes (as homeomerias) não podem existir isoladamente, para que existam é necessário o seu vínculo ao organismo como um todo.  As  homeomerias se associam para formar o que Aristóteles chamou de anomeomerias, isto é, os órgãos, as viceras, os membros,... Estes não podem se dividir em partes idênticas ao todo.  A unidade dos membros e dos órgão é o ser vivo ele mesmo.(Louis, p.187-188)  “Cada um dos seres vivos possuem uma individualidade que o distingue do resto da espécie.  Todo indivíduo vivo possui um corpo que é único e que forma um todo”, deste modo, “o ser vivo possui uma existência própria que não pode ser fracionada sem o destruir”(Louis, p.188) Portanto, o todo é composto de partes, mas as partes do todo em si mesmas não podem ser compreendidas como o todo ele mesmo.  Assim, “o que é composto de alguma coisa, de tal modo que o todo constitui uma unidade, não é um amontoado, mas é como uma sílaba.  E a sílaba não é só as letras das quais é formada, nem BA é idêntica a B e A, nem a carne é simplesmente fogo e terra:  de fato, uma vez que os compostos, isto é, carne e sílaba, tenham-se dissolvido, não mais existem, mas as letras, o fogo e a terra continuam a ser.  Portanto, a sílaba é algo não  redutível unicamente às letras, ou seja, às vogais e consoantes, mas é algo diferente delas.  E assim a carne não é só fogo e terra, ou quente e frio, mas  algo diferente delas.  Ora, se esse algo devesse ser, também ele, um elemento ou um composto de elementos, dar-se-ia o seguinte:  se fosse um elemento, valeria o que dissemos acima ( a carne seria constituída por esse elemento com fogo e terra e por algo diferente, de modo que iríamos ao infinito); se fosse, ao invés, um composto de elementos, seria, evidentemente, composto não de um só, mas de vários elementos ( do contrário, estaríamos ainda no primeiro caso), de modo que dissemos a propósito da carne e da sílaba.  Por isso, deve-se reter que esse algo não é um elemento, mas a causa pela qual esta coisa determinada é carne, esta outra é sílaba, e assim para todo o resto.  E isso é a substância de todas as coisas: de fato, ela é causa primeira do ser”(Metafísica, 1041b, 11-28; Reale (1994), p.360-362)  Pois, a essência de um dado objeto ou coisa é aquilo que lhe é próprio e a nenhum outro pertence.
            

Em um outro exemplo, Aristóteles nos diz que “por matéria entende o bronze, por exemplo, por forma o contorno da sua figura, e pela composição dos dois a estatua, o todo concreto”(Metafísica, 1029a, 5).  E uma vez que “a matéria é uma coisa, a forma uma segunda e o composto de ambas uma  terceira, e todos os três são substâncias, a própria matéria é em certo sentido parte de uma coisa, e em outro sentido não o é, mas apenas os elementos que consiste a definição da forma”;  Ou seja, “o bronze é uma parte da estatua realizada, porém não da estatua tomada no sentido de forma ( com efeito, é a forma, ou a matéria dotada de forma, que devemos entender pela coisa, mas nunca o elemento material em si mesmo.”(Metafísica, 1035a,2)  Busca-se, pois, compreender “a causa da matéria, isto é, a forma pela qual a matéria é determinada coisa:  e esta é, justamente, a substância”(Reale, 1994, p.360).  Portanto, o real para Aristóteles não é nem a matéria nem a forma, mas uma composição entre forma e matéria.  

            

Em suma, pode-se concluir que o todo não é apenas a justaposição das partes que o compõe, pois, quando estas se unem para formar o todo ocorre uma modificação qualitativa.  Assim, todas as partes estão ligadas entre si numa indissolúvel unidade, de sorte que cada uma delas é essencial e indispensável e possui uma “função” determinada e insubstituível a tal ponto que uma falta pulverizaria a unidade do todo e uma variação geraria a desordem.  Isto significa que as partes ligadas e unidas entre si, constituem e delineiam  o todo, ou seja, a integridade do  todo resulta da conexão das partes entre si.  E cada parte do todo só tem realmente valor quanto ligada a esta totalidade; ou seja, o todo - além de ter as suas partes ordenadas, possui uma grandeza que não é qualquer - interage organicamente com as suas partes.  Para compreendê-lo é necessário a compreensão da sua organização interna. Portanto, para provar a atualidade de tal conceito basta  nos reportar ao que diz Luigi Pareyson acerca do tema, mesmo que tal conceito aristotélico não tenha sido intencionalmente para a arte, mas sim para a natureza, “porém a profunda intuição do seu pensamento nos autoriza a extrapolar rumo a criação artística [...] pois, Aristóteles concebeu a natureza precisamente como uma espécie de arte.  A criação artística se converte assim em produção de objetos dotados de uma estrutura e, portanto, de uma economia interna, ou seja, de seres autônomos, que exigem que sejam compreendidos e julgados em função de sua própria organização, sem referências externas”(Pareyson, p.89)


Bibliografia

ARISTÓTELES. Metafísica. Porto Alegre: Ed. Globo, 1960
_____________.   Poética. In: Os Pensadores/Aristóteles. São Paulo: Abril Cultural, 1973
GRASSI, Ernesto.Arte y mito. Buenos Aires, 1968
LOUIS, Pierre.  La découverte de la vie. Paris:  Hermann, 1975
REALE, Giovane. História da Filosofia Antiga. São Paulo: Loyola, 1993(vol.I), 1994(vol. II)
PAREYSON. Luigi. Conversaciones de Estetica. Madrid: La Balsa de la Medusa/Visor, 198


sábado, 20 de agosto de 2016

Cinema Palestino: "O que resta do tempo" (Ronaldo Campos)




O que resta do tempo
                                             The time that remains


               Uma produção da Palestina, França, Bélgica e Reino Unido




Em primeiro lugar, tenho que deixar claro que adoro a diversidade representada pelo cinema. Cada cultura tem a sua própria maneira de ver e sentir o mundo. Certamente, de todas as artes, a que melhor representa e apresenta essas formas de ver é o cinema. Contudo, atualmente, os cinemas têm se restringido a exibir apenas determinados tipos de filmes de algumas cinematografias bem específicas. Além disso (com o desaparecimento dos cinemas de rua), há quase que a exclusividade das salas de cinema em centros de compra.  Predominando ali o cinema voltado para o interesse das grandes massas.

Os lançamentos de dvds, a internet e a tv a cabo acabam nos dando uma grande oferta de títulos. Mas é necessário garimpar. Como o ouro de aluvião, os filmes diferentes estão perdidos no meio de tanto cascalho.



Outro dia, comprei um dvd em virtude da sua nacionalidade. Não sabia praticamente nada sobre a história, os atores e os seus realizadores. O filme em questão aqui é "O que resta do tempo". É uma produção palestina de 2009. Elia Suleiman  é ator, diretor, roteirista e produtor desse filme. Realizou também os longas "7 dias em Havana"(2012), "Cada um com o seu cinema (2007) e "Intervenção Divina" (2002)

Foto do ator, diretor, roteirista, e produtor, Elia Suleiman



Elia Suleiman não pode ser considerado um ilustre desconhecido. No meio cinematográfico, ele é um nome relevante. O seu filme "Intervenção Divina" teve grande repercussão em todo o mundo, chegando a ser cogitado para o Oscar de Melhor filme em língua não inglesa. Mas, a Palestina não é reconhecida como um país ainda. O que impediu a sua indicação.

O filme "O que resta do tempo" é formado por quatro episódios interligados que buscam reconstituir o dia a dia dos cidadãos árabes israelenses que preferiram ficar em sua terra natal. Desta forma, eles se constituem enquanto uma minoria local dentro do Estado de Israel. O diretor Elia Suleiman apresenta essas histórias de modo ousado e com um  humor bastante ácido. Alguns críticos classificaram o filme como uma "comédia de humor negro".
A partir dos diários do seu pai (um palestino que lutou contra o Estado de Israel), das cartas de sua mãe, das suas memórias afetivas, Sulleiman traça um panorama da Palestina ocupada por Israel a partir de 1948.

Este filme não tem propriamente uma história com começo, meio e fim. Como disse são histórias que se interligam contando de forma crítica a vida dos árabes numa Palestina ocupada. Em parte, a história desse filme é autobiográfica. As memórias íntimas do diretor se confundem constantemente com a história coletiva de um país em desaparecimento.

O filme é iniciado com um prólogo no presente (ano de 2009), onde, um motorista de táxi pega um passageiro no aeroporto e avisa pelo rádio que fará uma longa viagem até um vilarejo do interior. A partir de um jogo entre plano e contra-plano, somos apresentados a imagens que utilizam ao extremo a questão da frontalidade que por sua vez limita o ponto de fuga, limita a nossa visão. É como se colocássemos no lugar do motorista que não consegue enxergar nada por causa da pesada tempestade. O diretor (sentado no banco de trás do táxi), do mesmo modo, que o cidadão árabe israelense que é marcado pela limitação dos seus direitos num estado (que ao mesmo tempo  é e não é seu ) delimitado (restrito) pela imposição do outro. 

Nós não conseguimos ver claramente quem é o passageiro. A sua imagem aparece quase sempre desfocada e, em poucos segundo, podemos vê-lo de longe. Um dado curioso deve ser aqui mencionado: quem interpreta esse passageiro é o próprio diretor. Ele está interpretando a si mesmo. Lembre-se que o filme é parcialmente autobiográfico.

O motorista se perde em virtude de uma pesada tempestade com muitos raios. O motorista está confuso e perdido. Quando o carro para num acostamento, somos remetidos a cidade de Nazaré, em 1948. Era a época da primeira guerra entre árabes e judeus. Ocorrida após a criação do Estado de Israel. Esse período é denominado pelo autor, logo nos créditos inciais, como uma "crônica de um presente ausente".

Na primeira parte do filme, a ação (o tempo\memória) se desenrola de forma dinâmica. Suleiman conta a sua história e a de seus pais. O tempo histórico é dividido em quatro momentos:  junho de 1948, 1970, 1976 e a Nazaré de 2009. 






Em junho de 1948, em virtude da  vitória e da ocupação de Israel, muitas pessoas de Nazaré optam ou por ficar ou por lutar até a morte. Poeticamente, o diretor mostra o resultado dessa guerra. Muitos vão embora, deixando a sua antiga vida para trás. Laços afetivos e sociais  são interrompidos bruscamente. 


Se muitas pessoas partiram, outras ficaram. Estas buscaram resistir ao invasor. A resistência se dá silenciosamente ou através de algum ato heroico. Não há bombas, terroristas ou grandes atentados no filme. Toda a história se concentra nas pessoas comuns e nas suas ações. 

A revolta e as formas de resistências foram silenciadas pela força militar, pelo controle sistemático e pelo próprio tempo. O que não quer dizer que o conflito ou a inconformidade foram eliminadas definitivamente. 

Provavelmente a cena mais impactante, desta primeira parte do filme é aquela em que um  jovem árabe suicida diante dos soldados judeus e dos prisioneiros árabes. Antes de atirar na sua cabeça, este homem tira do seu bolso um pequeno papel e lê a seguinte mensagem: 



Um homem honrado tem duas metas: morrer lutando ou alcançar a vitória.
Não quero viver se não formos respeitados em nossa terra. 
Devo carregar a minha alma na mão e não jogá-la nas cavernas da morte. 
Se nossas palavras não ecoarem pelo mundo, uma vida para alegrar os corações dos meus amigos ou uma morte para torturar os corações dos   inimigos




Esta mensagem busca mostrar que mesmo o povo árabe esteja controlado há sempre a esperança de se conquistar a sua autonomia e soberania através do reconhecimento da Palestina como uma Nação .

Os outros momentos que seguem são mais leves e poéticos.  Como por exemplo, a imagem da mesa posta numa casa abandonada que é invadida para esconder um homem ferido. Percebemos aqui o rompimento de uma história familiar a partir dessa nova estrutura social imposta pela guerra. Na casa, agora ocupada por uma outra pessoa, não seguirá as tradições dos seus antepassados. Mas viverá sob a ótica da aculturação imposta pelo grupo vencedor. É possível ver uma certa dissonância entre o real e o que é representado pelo filme. Há soldados israelenses que apreciam música no meio da rua, dobram graciosamente roupas de cama, pelotões de fuzilamento que não matam ninguém, o próprio personagem do filme é um homem islâmico com physique-du-role hollywodiano. O episódio de 1948 surge diante dos nossos olhos como uma farsa teatralmente montada. Percebe-se assim que o objetivo do diretor não era traduzir em imagens uma verdade histórica, mas nos apresentar uma crítica ácida a situação dos árabes nos territórios ocupados pelos israelenses. O diretor é extremamente sutil. É importante perceber pequenos detalhes para entender as críticas e o humor proposto pelo diretor\produtor.






O próximo episódio ocorre anos depois, em 1970, quando começamos a ver a rotina da minoria árabe que vive em Israel. Os fatos vão se desenvolvendo lentamente mostrando como é viver sobre o controle israelense. Os costumes árabes meio que desaparecem e são substituídos (ou pelo menos tentam substituí-los). Como quando  o coro de meninas muçulmanas canta na escola de minoria árabe uma canção em honra ao Dia Nacional de Israel com arranjo árabe. A animação das autoridades judaicas pode ser contraposta com as carinhas desanimadas dos alunos e alunas dessa escola. 
Outro momento de ironia do diretor ocorre na cena em que o menino  Elia traz para casa um prato de lentilhas dado por sua  Tia Olga. O nome da tia é tipicamente judaico, mas as lentilhas são tipicamente árabes. A tia não sabe fazer este prato. A sua comida é intragável. Essa situação se repete algumas vezes e sempre o menino Elia joga as lentilhas no lixo. É como se a cultura "produzida"  pelos judeus para os árabes não tivesse significado ou importância, por isso deveria ser eliminada e nunca consumida. De modo sutil, o diretor mostra uma forma de resistência usada pelos árabes. Resistir ao que nos é dado (imposto) é um modo de preservar quem de fato somos.






A aceitação da cultura dominante se dá de forma aparente e em virtude da imposição pela força militar. O sonho de libertação não se dilui. Em algumas cenas, percebemos que há sempre o questionamento. Seja nas do vizinho que sempre busca de forma lógica uma ação que deveria ter sido realizada para conter os israelenses. Seja no caso do outro vizinho que sempre tentar incendiar o seu próprio corpo. Seja nas cenas onde Elia é repreendido pela direção da escola por um dos seus  questionamentos acerca de Israel ou dos Estados Unidos.







A escola primária dos árabes é mostrada como um espaço de dominação ou doutrinação. Não há liberdade de pensamento. Os meninos e meninas árabes têm que aprender a cultura dos dominadores. Na cena do coral, citada acima, toda a sala é enfeitada com bandeirinhas de Israel e o uniforme dos meninos e meninas é na cor da bandeira do Estado Judaico.




O filme se estrutura como se fosse um mosaico, as história que são contadas (e recontadas) descortinam uma história que só fará sentido se compreendermos a história daqueles que a produzem. Não conseguiremos compreender  a alegria e o sofrimento desse povo sem um olhar atento para a história que o contextualiza. Por exemplo, a história da tia que começa a perder a visão por ver  TV  (a versão oficial dos fatos) quase o tempo todo.  A televisão apresenta não a cultura do seu povo mas os valores que devem ser absorvidos pelo povo árabe segundo as autoridade judaicas. Aqui podemos perceber uma certa angústia diante da dificuldade de preservar uma cultura diante de um ambiente hostil e da pasteurização. 

Curiosamente, o diretor nos mostra que o comportamento desses personagens não é lógico. Pelo contrário, é bastante arbitrário (mas não é destituído de sentido). Algumas vezes foge do que ocorreria normalmente. Como por exemplo, no caso do vizinho que trabalha no posto de gasolina, que sempre quer incendiar o seu corpo em virtude do fato de não ter sentido continuar vivendo daquela forma.




De 1976 a 2009, a rotina dos personagens se torna cada vez mais simplificada,  repetitiva e carente de um sentido mais amplo em virtude do processo de aculturação e pasteurização da cultura local. O olhar dos personagens ficam cada vez mais distante. A câmera fica cada vez mais longe e o foco fica cada vez mais impessoal. O cotidiano se torna cada vez menos interessante. A vida dos personagens fica  sem sentido. Percebemos que os personagens do filme (nesse contexto de dominação\subordinação\imposição) estão se confrontando com os problemas da sua existência finita e limitada. O tempo existe, estamos vivos e inseridos neste contexto, mas o que podemos fazer com ele?



domingo, 26 de junho de 2016

Memórias da escola:

O meu primeiro livro

Qual foi o seu primeiro livro de histórias? Para muitas pessoas, foi “O Barquinho Amarelo” que narra as brincadeiras, as descobertas e as aventuras de três amigos: Marcelo, Rosinha e Marquinho.. Escrito por Iêda Dias da Silva em meados do século passado, o livro é composto por cinco pequenas histórias repletas de lirismo sem perder as características descritivas do gênero textual.
As histórias servem para trabalhar o método global de alfabetização. De acordo com Frade e Pessoa (s\d), esse livro  não foi realizado  a partir da experiência de Iêda Dias da Silva em sala de aula, “e sim, a partir da experimentação de sua obra realizada por outras professoras, sob sua observação direta. [O que a fez] sentir-se responsável pela realização de um trabalho social, a partir do contato que teve com crianças do Brasil todo, durante suas viagens como formadora de professores.” Contribuindo para a alfabetização e a criação do hábito de leitura de muitas crianças durante vários anos. 






Iêda Dias da Silva também é autora de outras obras de destaque da literatura infantil: “Brinquetos da noite” e “O burrinho alpinista”.











A coleção “As mais belas histórias” é a entrada no mundo da leitura e faz faz parte do imaginário literário de várias gerações apesar de ser um livro obrigatório na escola. 





A grande educadora e autora do livro As Mais Belas Histórias


Escrita por Lúcia Monteiro Casasanta (1908-1989) em 1954 para as crianças das séries iniciais do ensino fundamental. Inicialmente, dando origem a essa série didática, foi lançado o pré-livro “Os três porquinhos”. As histórias que se seguiam nos quatro volumes variavam de acordo com faixa etária e a série do aluno. Eram apresentados contos de fadas; narrativas bíblicas; história do Brasil; mitologiria grega entre outras. Casasanta foi a responsável pela introdução do método global de contos para a alfabetização de crianças. A coleção foi publicada pela Editora do Brasil S.A. ininterruptamente até meados dos anos noventa do século passado.

Simulado no IEMG




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Praticamente, de forma simultânea a implementação do ENEM em todo o território nacional, os professores do Instituto de Educação de Minas Gerais, começaram a aplicar uma prova que simula as condições desse exame nacional. O objetivo deste o princípio foi trabalhar tanto os aspectos pedagógicos, cognitivos e até as questões emocionais. Naquela época, percebeu-se que muitos alunos não estavam preparados para fazer uma prova tão longa e cujo resultado era tão impactante na vida deles. Atualmente, há inúmeras oportunidades de fazer um simulado. Mas naquela época essa prova aplicada no colégio era a única.
Na última sexta feira (24 de junho), os alunos do IEMG fizeram o primeiro simulado do ano. Esse projeto é uma parceria com o Centro Universitário UNA (Grupo Anima). A UNA ficou responsável pela produção dos cadernos de prova. Foram realizados sorteios de brindes para os alunos. E o aluno que obtiver a melhor nota terá um prêmio especial.




Todos os professores do ensino médio, direção e coordenação pedagógica participam ativamente.
Muitos aluno me pediram para comentar a prova de história. E é isso que vou fazer nessa postagem.


A primeira questão de História - Questão 26

(Simulado ENEM)                    

A Revolução Russa estabeleceu a experiência socialista.  A sociedade russa promoveu uma experiência revolucionária que marcou a trajetória do século XX. Já no século XIX, Karl Marx indicava que as desigualdades do sistema capitalista abririam portas para que as massas trabalhadoras viessem a tomar o poder. No entanto, a convocação dos trabalhadores em torno dos ideais de Marx parecia ser uma possibilidade remota em face ao desenvolvimento dos Estados liberais enriquecidos pelo favor dado às classes burguesas.       
Todavia, a explosão da Primeira Guerra Mundial veio a trazer uma possibilidade revolucionária que estremeceu essa ordem cingida pela burguesia capitalista. No início do século XX, a Rússia vivia um momento histórico onde as desigualdades sociais instaladas fizeram com que camponeses e operários se mobilizassem politicamente. Nos campos, os trabalhadores rurais viviam em condições lastimáveis legitimadas por um governo que preservava os certos privilégios feudais da classe aristocrática. 

De acordo com o texto anterior, analise as proposições abaixo e assinale a opção correta. 

I. A Primeira Guerra Mundial serviu de caminho para os revolucionários bolcheviques tomarem o poder. 

II. Os mencheviques contrariaram os bolcheviques, daí a implantação do socialismo a partir de fevereiro de 1917. 

III. O czar Nicolau II, partidário do bolchevismo, ajudou a derrubar o governo menchevique de A. Kerenski. 

IV. Às vésperas da Revolução, o povo russo se encontrava em precárias condições econômicas. 

Assinale: 

a) se todas as proposições estão incorretas. 

b) se todas as proposições estão incorretas. 

c) se somente as proposições I e II estão corretas. 

d) se somente as proposições I, II e IV estão corretas. 

e) se somente as proposições I e IV estão corretas.


A resposta para essa questão é a letra E. 

Lembre-se que O mencheviques não implantaram o socialismo em fevereiro de 1917. Nesta data,  o partido menchevique tomou o poder do Czar Nicolau II, na Rússia. Era o fim do absolutismo monárquico. Foi instalado um governo provisório republicano formado por liberais e progressistas que constituíam as bases do partido menchevique. Os Mencheviques não queriam implantar o socialismo. Eles queriam transformar a Rússia em uma República parlamentarista democrática. Por esse motivo o item II está incorreto.

O item III é incorreto porque o czar Nicolau II não era partidário do bolchevismo e ele não ajudou a derrubar o governo menchevique. O czar foi destituído pelos mencheviques.



Questão 27

A primeira metade do século XX foi marcada por conflitos e processos que a inscreveram como um dos mais violentos períodos da história humana. 
Entre os principais fatores que estiveram na origem dos conflitos ocorridos durante a primeira metade do século XX estão 
  1. A
     a crise do colonialismo, a ascensão do nacionalismo e do totalitarismo. 
  2. B
     
    o enfraquecimento do império britânico, a Grande Depressão e a corrida nuclear.
  3. C
     
    o declínio britânico, o fracasso da Liga das Nações e a Revolução Cubana.
  4. D
     
    a corrida armamentista, o terceiro-mundismo e o expansionismo soviético.
  5. E
     
    a Revolução Bolchevique, o imperialismo e a unificação da Alemanha.

  1. Essa questão é do ENEM 2009. A resposta é a letra A. 

Na "alternativa A", os itens citados correspondem aos fatores que foram responsáveis pela grande parte dos  conflitos que ocorridos a partir de 1850, e, que tiveram prolongamento nos eventos relacionados às e 1º e 2º guerras mundiais. 

A crise do colonialismo, a disputa por colônias na África e na Ásia e a ascensão do discurso nacionalista foram um dos principais fatores conjunturais que provocaram a 1º guerra mundial. Anos depois, o mesmo discurso nacionalista foi utilizado pelos regimes totalitários europeus que intensificaram disputas que culminaram na 2º guerra.



Questão 28

Essa questão fez parte da prova do ENEM de 2002.




“O continente africano em seu conjunto apresenta 44% de suas fronteiras apoiadas em meridianos e paralelos; 30% por linhas retas e arqueadas, e apenas 26% se refe- rem a limites naturais que geralmente coincidem com os de locais de habitação dos grupos étnicos” (MARTIN, A. R., Fronteiras e Nações. Contexto, São Paulo, 1998.)

Diferente do continente americano, onde quase que a totalidade das fronteiras obedecem a limites naturais, a África apresenta as características citadas em virtude, principalmente.

a) da sua recente demarcação, que contou com térmicas cartográficas antes desconhecidas.
b) dos interesses de países europeus preocupados com a partilha dos seus recursos naturais.
c) das extensas áreas desérticas que dificultam a demarcação dos “limites naturais”.
d) da natureza nômade das populações africanas, especialmente aquelas oriundas da África Subsaariana.
e) da grande extensão longitudinal, o que demandaria enormes gastos para demarcação.

A resposta é a letra B. 

Para resolver esta questão o aluno deveria relacionar os seus conhecimentos de geografia aos seus conhecimentos de história. Nesse sentido, trata-se de compreender qual foi o momento histórico de definição das fronteiras no continente africano e porque as potências imperiais, que realizaram a partilha da África, não consideraram os limites naturais e as afinidades étnicas das populações africanas que habitavam determinadas regiões daquele continente. Os conflitos que atualmente afligem aquele continente são tributários da for- ma com que se deu a definição das fronteiras nacionais, o que justifica a importância e a atualidade do tema tratado na questão. O participante foi levado, nesta questão, a interpretar dados que caracterizam processos histórico-geográficos determinados. Cerca de um terço dos participantes assinalou a alternativa correta B. Os que optaram pelas outras alter- nativas consideraram mais os aspectos técnicos da demarcação de fronteiras, que, mesmo sendo relevantes, não foram determinantes no caso da África

Questão 29

Essa questão é do ENEM de 2012


Com sua entrada no universo dos gibis, o Capitão chegaria para apaziguar a agonia, o autoritarismo militar e combater a tirania. Claro que, em tempos de guerra, um gibi de um herói com uma bandeira americana no peito aplicando um sopapo em Hitler só poderia ganhar destaque, e o sucesso não demoraria muito a chegar.
COSTA, C. Capitão América, o primeiro vingador: crítica. Disponível em: www.revistastart.com.br. 
Acesso em: 27 jan. 2012 (adaptado).
A capa da primeira edição norte-americana da revista do Capitão América demonstra sua associação com a participação dos Estados Unidos na luta contra
  1. A
     
    a Tríplice Aliança, na Primeira Guerra Mundial.
  2. B
     
    os regimes totalitários, na Segunda Guerra Mundial.
  3. C
     
    o poder soviético, durante a Guerra Fria.
  4. D
     
    o movimento comunista, na Guerra do Vietnã.
  5. E
     
    o terrorismo internacional, após 11 de setembro de 2001.

A resposta correta é a letra B

O personagem Capitão América surgiu no ano de 1941, ou seja, em plena  Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O ano de 1941 corresponde ao ano de entrada os EUA no conflito. A revisa surge em pleno contexto de luta contra os regimes autoritários europeus. Como demonstrado na imagem, o herói combatia principalmente o nazismo, explicitado pela figura de Hitler, e se tornou um símbolo norte-americano de luta a favor da democracia e da liberdade.


Questão 30

Três décadas – de 1884 a 1914 - separam o século XIX – que terminou com a corrida dos países europeus para a África e com o surgimento dos movimentos de unificação nacional na Europa - do século XX, que começou com a Primeira Guerra Mundial. É o período do Imperialismo, da quietude estagnante na Europa e dos acontecimentos empolgantes na Ásia e na África. (ARENDT. H. As origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012). 


O processo histórico citado contribuiu para a eclosão da Primeira Grande Guerra na medida em que

a) difundiu as teorias socialistas.
b) acirrou as disputas territoriais.
c) superou as crises econômicas.
d) multiplicou os conflitos religiosos.
e) conteve os sentimentos xenófobos.

A resposta correta é a letra B

A Primeira Guerra Mundial teve uma série de causas: políticas, econômicas mas também religiosas. Devemos partir do principio que os conflitos religiosos se multiplicaram principalmente nos territórios que foram colônias no processo imperialista. Não foi obedecido um critério específico para os territórios, e por conta disso uma série de grupos étnicos-religiosos rivais foram colocados dentro de uma mesmo espaço.


Sala de aula do IEMG durante o simulado do ENEM (24 de junho de 2016)
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A representante da UNA mostra aos alunos os itens que serão sorteados no final da prova do simulado do ENEM.
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