quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Olhar que Desalegra e o Olhar que Vê (texto: Ronaldo Campos)

 

 Olhar que Desalegra e o Olhar que Vê




Sempre me intrigou essa mania que temos de olhar sem ver, ou seja, de não conseguir perceber que há outras pessoas além de nós (além dos nossos). Passamos pelas calçadas de passos apressados, desviando de volumes estendidos no chão como se fossem meros acidentes geográficos do concreto. Mas a Antropologia — essa ciência que é, no fundo, uma forma de paciência — nos ensina que o homem é um bicho vasto, infinito em suas dobras, e que não existe "o outro" sem que haja, antes, um espelho.

O antropólogo não é um turista do exótico. Ele é alguém que se despe de si mesmo para vestir a pele do mundo. Não quer mudar ninguém; quer, antes, entender por que o laço do sapato é dado daquela forma e não de outra. Para ele, a cultura não mora apenas nos museus ou nas óperas, mas no modo de comer, de rezar e, sobretudo, no modo de resistir. Quando esse estudioso se debruça sobre a rua, ele não vê o "viciado" ou o "vagabundo", categorias tão caras ao nosso preconceito de estimação. Ele vê um sobrevivente de naufrágios invisíveis.

A Arte de Estender a Mão (e o Ouvido)

Para quem trabalha com outro, tendo a empatia como base e sem confundir acesso aos direitos com caridade ao desvalido. Provavelmente, o melhor exemplo nesse caso se encontra naquelas pessoas que estão na vanguarda  da assistência social. Eu creio que o assistente social tem a Antropologia como uma das suas mais importantes ciências auxiliares. Por isso, posso afirmar que o pensamento antropológico é muito mais que teoria: é uma caixa de ferramentas para a alma. É ela que ensina que, para entrar no mundo de quem a vida trancou do lado de fora, é preciso pedir licença. Não se invade a subjetividade alheia com protocolos rígidos. É preciso empatia, essa palavra tão gasta, mas que aqui recupera seu brilho original: a capacidade de sentir o frio do outro sob a própria pele.

A rua, para o olhar treinado (do antropólogo e também do assistente social) , deixa de ser apenas o vazio entre dois prédios. Ela se torna um território simbólico, um palco de dramas e pequenas vitórias que a nossa pressa não nos permite aplaudir. Cada homem sentado num papelão carrega um inventário de perdas:

  • A revolta contra um Estado que é madrasta;

  • O cansaço de uma pobreza que mói o espírito;

  • O esfacelamento de famílias que não aguentaram o peso do mundo.


A Invisibilidade como Sentença

Há quem diga que o tráfico ou a prostituição são escolhas. Essas pessoas demonizam aqueles que têm a sua trajetória de vida nas ruas. A Antropologia, com seu olhar de cronista do real, sabe que muitas vezes são apenas as únicas portas abertas quando todas as outras foram fechadas com cadeados de indiferença. O sujeito que se sente incapaz acaba, por fim, acreditando na própria invisibilidade. E nada dói mais do que ser transparente para o semelhante.

Eu sei que o ato de aceitar a cultura do outro não é apenas concordar com a sua dor, mas é também (e sobretudo é) respeitar a sua humanidade para poder, quem sabe, ajudá-lo a se reintegrar na sociedade como um cidadão de fato republicano.

No fim das contas, o que essa ciência antropológica nos sopra ao ouvido é um segredo simples e devastador: todos somos iguais, ou deveríamos ser, sob o manto da lei e do sol. Se pararmos para observar com o tempo necessário — o tempo de um café, de um silêncio compartilhado —, perceberemos que o estigma é uma construção nossa, uma cerca que levantamos para não admitir que aquele homem no chão é, em tudo, rigorosamente igual a nós. Apenas teve menos sorte nos dados que a vida lançou sobre o asfalto.

Sócrates na Praça Sete (Texto de Ronaldo Campos)



Sócrates na Praça Sete (ou: O Mistério da Verdade de Boteco)

Olha, vou lhes dizer uma coisa com a sinceridade de quem já viu o Gabigol perder gol feito (e até perder penalti que era dado como certo): esse tal de "mundo pós-moderno" está mais confuso que trânsito na Savassi em dia de chuva. A gente corre, corre e, no fim das contas, fica se perguntando: ainda tem lugar para a Filosofia no Brasil do século XXI? Ou a Grécia Antiga virou apenas nome de prato caro em restaurante metido a besta?

Pois eu digo que sim. E digo mais: pensar a vida e o nosso ganha-pão é tarefa de quem tem coragem de subir a ladeira da memória sem olhar para trás.

Tudo começou com um sujeito chamado Sócrates. Não o craque da Seleção de 1982, aquele do calcanhar de ouro, mas o outro, o barbudo de Atenas. Ele inventou uma moda que, se fosse hoje, o povo ia dizer que era doidice: ele dizia que não sabia de nada. Imaginem só! Num mundo onde todo mundo tem certeza de tudo no WhatsApp, o homem chega e solta: "Só sei que nada sei".

Ali, meus amigos, nasceu a dúvida. E a dúvida é a mãe da sabedoria, assim como a paciência é a mãe da boa polenta. Sócrates tirou o tapete das certezas absolutas e nos ensinou que a pergunta vale mais que a resposta. Ele nos avisou: cuidado com a "doxa", que é essa opinião de orelha de livro, esse saber de ouvir dizer que não leva a lugar nenhum, feito bonde descarrilado.

Isso me faz lembrar — e como dói a lembrança! — daquele professor antigo, o "Dono da Verdade". Ele chegava na sala como se carregasse as Tábuas da Lei debaixo do braço. Não tinha conversa, não tinha prosa. Era o monólogo do saber. Coitado... mal sabia ele que o pensamento é como um namoro na beira do Arrudas: precisa de dois para acontecer. É o tal do diálogo, a tal da dialética. Professor e aluno, num balé de constrói-e-desconstrói, como se a gente estivesse sempre reformando o Edifício Levy.

O aprendizado, minha gente, é um trem que não tem estação final. É contínuo.

Nesses últimos meses, andei soltando uns textos e umas imagens por aqui. Confesso: vi gente coçando a cabeça. Teve e-mail chegando, comentário no blog e até sujeito me parando na rua para perguntar: "Ô Ronaldo, o que é que aquela foto antiga de BH tem a ver com esse filme que você indicou?" "E aquela história? Você passou por isso mesmo lá no Instituto?".

Fiquei feliz. A timidez mineira é o primeiro passo para a curiosidade de mestre. Se houve estranhamento, é porque a pulga atrás da orelha começou a pular. Uns viram uma coisa, outros viram outra, e todos estão certos. A verdade, quando é boa, tem mil caras, como uma multidão saindo do Mineirão.

Por isso, faço aqui uma convocação, com a urgência de quem espera o último ônibus: coloquem suas impressões no papel. Mandem textos, mandem imagens, mandem até desaforo, se for o caso. Vamos tirar a Filosofia do mofo e trazê-la para o nosso meio.

Afinal, se a gente não duvidar de vez em quando, como é que vai descobrir que o horizonte, além de Belo, é infinito?

Crônica: O Equilibrismo das Calçadas e o Mistério do Elevador (Texto de Ronaldo Campos)


 

Crônica: O Equilibrismo das Calçadas e o Mistério do Elevador

No Brasil, a desigualdade social é como o Pão de Açúcar: todo mundo sabe que está lá, é cartão-postal da nossa desorganização e, dependendo de onde você olha, a vista é de tirar o fôlego — ou a esperança. Desde o ano de 2005, a ONU já nos carimbava como a 8ª nação mais desigual do mundo. Mas o brasileiro, esse herói de pés inchados, descobre desde a mais tenra infância que a distância entre o palácio e o barraco não se mede apenas em cifras no banco, mas em pontos de ônibus e degraus de calçada.

O Estigma e a "Invenção" do Pneu

Goffman, aquele sociólogo que olhava para a gente como quem olha para um microscópio, falava do estigma. Durante séculos, a sociedade tratou quem tem uma deficiência como se fosse um rascunho mal acabado. "Deficiente", diziam, como se faltasse uma peça no motor. Hoje, tentamos a elegância do termo "portador de necessidades especiais", mas a verdade é que no nosso querido Brasil a necessidade mais especial de todas — o direito de ir à padaria sem o risco de vida — continua sendo um artigo de luxo.

O urbanismo brasileiro parece ter sido projetado por um inimigo da gravidade. Nossas calçadas são verdadeiras cordas bambas: estreitas, esburacadas, interrompidas por lixeiras solitárias, telefones públicos que ninguém usa e carros que decidiram que o passeio é, na verdade, um estacionamento grátis. Para quem usa cadeira de rodas (ou tem uma visão limitada ou ainda não enxerga nada), a região da Savassi ou o Centro de Beagá deixam de ser bairros e viram provas de rali.

O Direito de Ir, Vir e Ficar Parado

A Constituição de 1988, nossa "Constituição Cidadã", garantiu na letra da lei que o transporte é para todos os brasileiros um serviço essencial. Belo Horizonte, nossa querida capital, quando quis  fazer bonito para a Copa de 2014, saiu rasgando avenidas e prometendo o BRT. Muita coisa ficou só no papel, outras só mesmo na intenção e algumas nem nos nossos sonhos!  Isso sem falar naqueles viadutos que literalmente foram parar no chão! 

A pergunta que ficou no ar, como depois de tanta a poeira das obras, de tanta coisa que foi prometida e pouca coisa construída efetivamente, por que gastamos tanto em mobilidade para a copa do mundo se ainda não foram feitas nem as  rampas para o cidadão que precisa ir ao Sara Kubitschek fazer fisioterapia?

Porque a lei é linda, escrita em papel timbrado e com palavras de vulto. Temos a Lei do Passe Livre, temos decretos que exigem rampas com 12% de inclinação — mas, na prática, a teoria é outra. O ônibus chega, o motorista suspira e o elevador hidráulico, esse grande místico da mecânica mineira, decide que hoje não quer trabalhar.

O Homem não existe para a Lei

O grande pensador Karl Marx, num raro momento em que não estava mudando o mundo, lembrou que a lei existe para o homem, e não o contrário. Qualquer mulher aqui de Belo Horizonte, cidadã, dona de casa e trabalhadora na escala seis por um, tem a plena certeza que não é um fardo! Ela, como todos nós, é um cidadão que deveria ter igualdade de direitos e de oportunidades. Contudo, em inúmeros os casos, não tem nem garantido o direito de ir e vir garantido plenamente.

 A mobilidade, para todos os cidadãos brasileiros , não pode ser uma mera uma planilha de transporte público. Deve ser  autonomia no seu sentido mais amplo. A mobilidade deve ser considerada a capacidade de ser sujeito político, de trabalhar e de tomar um café no centro sem precisar de um guindaste ou da caridade alheia. Mas, enquanto a "sociedade de consumo" briga por vaga de estacionamento e ocupa as calçadas com mesinhas de bar, o portador de necessidades especiais faz o seu equilibrismo diário. A inclusão não é um favor que o Estado faz; é o reconhecimento de que a cidade é um organismo vivo, e que nenhum membro pode ser deixado sem circulação.

Considerações de um Cronista Cansado

No fim das contas, a mobilidade urbana inclusiva é o começo de uma sociedade humana. Menos "uai" de espanto com o elevador quebrado e mais respeito ao traçado da rampa. É importante que Belo Horizonte e o Brasil deixem de ser um labirinto de obstáculos e passem a ser, finalmente, uma casa aberta. Afinal, a cidadania, assim como o horizonte mineiro, deveria ser para todos.


De Bondes e Outros Bichos: O Galope da Modernidade em Beagá (texto de Ronaldo Campos)

 


Belo Horizonte nasceu com a pretensão das linhas retas e o otimismo de quem ignora o relevo. Em 1901, enquanto o mundo ainda se acostumava com o século novo, nós já tínhamos o bonde. Ah, o bonde! Era o nosso carrossel urbano. Ele deslizava pela Afonso Pena e pela Amazonas com uma elegância que o tempo tratou de enferrujar. No Horto, na Serra ou na Pampulha, o sujeito subia no estribo e sentia-se, por uns dez minutos, o dono do horizonte.

Naquela época, ter automóvel era como ter um título de nobreza; o resto de nós, a plebe rude, ia de bonde. Mas nem tudo eram flores de ipê. Quando a seca apertava, a energia sumia e o bonde virava uma estátua de ferro no meio da rua. Quando chovia, o passageiro experimentava o conceito de "banho público itinerante".

A Invasão das Baleias de Metal

Nos anos 50, alguém decidiu que o futuro não tinha trilhos, mas pneus. Surgiram os trólebus, esses ônibus com antenas de gafanhoto que viviam se desconectando da realidade (e da fiação). Enquanto Juscelino Kubitschek, nosso "pé de valsa" predileto, abria as portas para a indústria automobilística, o bonde pedia aposentadoria em 1963. O carro, antes um luxo, virava a nova religião.

O problema é que a conta não fechava. Os trólebus eram caros, diziam os guardiões do cofre. Em 69, puxaram a tomada deles. Tentaram ressuscitá-los em 86, mas a política mineira, que adora um nó cego, deixou os veículos mofando no pátio, como convidados que chegaram cedo demais para uma festa que foi cancelada.

O Metrô de um Trilho Só e a Cidade que Sobe

E veio o Metrô. Demorou muito.... põe tempo nisso! BH só teve a sua primeira linha iniciada em 1986, ele começou tímido, com três trenzinhos. Demorou quinze anos para chegar aos vinte e cinco — um recorde de paciência budista para o passageiro. Enquanto isso, BH crescia como massa de pão com fermento estragado. O interior vinha para cá, a cidade subia em prédios, e o ribeirão Arrudas, coitado, virava o destino final de tudo o que a gente preferia não ver.

Derrubavam-se casas para erguer edifícios dentro da Contorno, empurrando a memória — e os moradores — para cada vez mais longe. A cidade ia ficando alta e, paradoxalmente, mais difícil de atravessar.


O Dilema de Deleuze na Savassi

Se Espinosa ou Descartes pegasse um ônibus na Avenida Santos Dumont às seis da tarde, ele teria material para três novos livros. Ele dizia que a cidade deve ser um exercício de coletividade, um ethos de solidariedade. Mas em Beagá, durante décadas, a "mobilidade" esqueceu de quem não corre maratona.

A Constituição Cidadã de 1988 prometeu o paraíso da acessibilidade, mas a prática foi um degrau alto demais. Só em 98 as leis municipais acordaram para o fato de que uma escada é um muro para quem usa cadeira de rodas. É um contrassenso: queremos ser modernos, falamos em BRT (o tal do Move, que promete ser a bala de prata para o trânsito caótico), mas ainda tropeçamos no básico.

Conclusão: O Eterno "Uai"

Hoje, olhamos para os corredores exclusivos e para o trânsito que mais parece um estacionamento a céu aberto. Harmonizar o excesso de carros com o direito de ir e vir de quem tem mobilidade reduzida é o grande desafio mineiro.

A evolução está aí, do bonde ao Move, mas a pergunta continua a mesma, ecoando nas esquinas da Rua da Bahia: "Será que esse ônibus passa no centro da dignidade humana?". Enquanto a resposta não vem, a gente segue no balanço, entre um buraco e uma ladeira, esperando que a próxima estação seja, finalmente, a da cidadania plena.


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Análise de questão de prova de história baseada no personagem da Marvel Pantera Negra (texto de Ronaldo Campos)




A QUESTÃO 




Leia com bastante atenção um trecho do roteiro do filme Pantera Negra:

 

Aqui está o diálogo, com foco na fala de Killmonger, traduzido para o português:

 

“T'CHALLA: Nós podemos curar você.

KILLMONGER: Por quê? Para que você possa me prender numa cela? Nah. Jogue-me no oceano com meus ancestrais que pularam dos navios, porque eles sabiam que era melhor a morte do que a escravidão.”

[Killmonger retira a faca de seu peito e morre olhando o pôr do sol de Wakanda.]

 

O diálogo traduzido e transcrito acima ocorre imediatamente após a batalha final entre Killmonger e T'Challa, onde Killmonger é fatalmente ferido. A cena não é apenas um confronto físico, mas sim o embate final de duas filosofias opostas sobre o papel de Wakanda no mundo: T'Challa (O Isolacionista/Reformador): Acreditava no isolamento de Wakanda para proteger seu povo e sua tecnologia (Vibranium), mas é forçado a confrontar a injustiça causada por essa política. Killmonger (O Revolucionário da Diáspora): Acreditava que Wakanda tinha o dever, e a capacidade tecnológica, de intervir militarmente no mundo para libertar e empoderar todos os povos negros oprimidos pela opressão histórica e colonial.

 

Marque a alternativa que apresenta a melhor interpretação desse trecho do filme com o processo que levou ao fim da escravidão no Brasil.0

 

A)                 A fala de Killmonger faz uma referência direta aos quilombos. Muitos africanos capturados preferiam correr o perigo de fugirem e serem capturados pelos capitães do mato, a viver a dura realidade dos trabalhos das minas e das lavouras nas Américas.

B)                  A fala de Killmonger faz uma referência direta aos navios negreiros. Muitos africanos capturados preferiam cometer suicídio, pulando no Oceano Atlântico, a enfrentar a brutalidade da escravidão nas Américas. Eles escolheram a morte para preservar sua dignidade e liberdade espiritual.

C)                A fala deve ser interpretada como um paralelo à Lei Áurea (1888), pois assim como T'Challa oferece a cura (liberdade), o Estado Brasileiro ofereceu a libertação de forma paternalista, sem dar condições econômicas ou sociais para a reintegração dos libertos.

D)               A recusa de Killmonger em ser curado e a escolha pela morte remetem à resistência da elite cafeeira no Brasil. Eles se recusaram a aceitar a abolição, exigindo indenizações do governo Imperial, por considerarem a perda de seus escravizados uma afronta à sua dignidade.

E)                A filosofia de Killmonger, de intervir militarmente, assemelha-se à atuação dos abolicionistas radicais no Brasil, como Castro Alves. Eles defendiam o uso da força e da revolta escrava como única forma de derrubar o sistema, rejeitando as saídas políticas e as leis graduais.




Análise Detalhada da Questão: Pantera Negra e a Escravidão no Brasil

A questão solicita a melhor interpretação da fala final de Killmonger, relacionando-a com o processo que levou ao fim da escravidão no Brasil.

O ponto crucial da fala de Killmonger é:

"Jogue-me no oceano com meus ancestrais que pularam dos navios, porque eles sabiam que era melhor a morte do que a escravidão.”

Essa frase faz uma referência histórica específica e muito poderosa: a resistência dos africanos escravizados durante a travessia do Atlântico (o chamado "Navio Negreiro" ou "Tumbeiro").

Vamos analisar as alternativas com base nessa referência:


Avaliação das Alternativas

AlternativaAnáliseConclusão
A) QuilombosEmbora os quilombos sejam formas vitais de resistência (preferir a fuga à escravidão), a fala de Killmonger menciona explicitamente pular dos navios. A referência direta é à travessia marítima, não à fuga de fazendas no continente americano.Incorreta
B) Navios Negreiros e SuicídioA frase é uma referência direta e literal ao suicídio praticado por muitos africanos a bordo dos navios negreiros. Eles se atiravam ao mar, escolhendo a morte como um ato final de liberdade e preservação da dignidade (resistência ativa), recusando-se a aceitar o destino da escravidão. Isso alinha-se perfeitamente com a escolha de Killmonger de recusar a "cura" (prisão/vida sob o domínio de T'Challa) e aceitar a morte como forma de preservar sua ideologia e liberdade.Correta
C) Lei Áurea (Paternalismo)A Lei Áurea (1888) foi a abolição legal. Embora a crítica sobre o paternalismo e a falta de reintegração social seja historicamente precisa, a analogia que a alternativa propõe (Killmonger recusando a cura/liberdade paternalista) não se encaixa na referência explícita dele sobre os ancestrais que pularam dos navios. A fala dele é sobre resistência radical e a morte como ato de liberdade, não sobre a qualidade da liberdade concedida.Incorreta
D) Elite Cafeeira e IndenizaçãoA fala é sobre a resistência dos escravizados, não sobre a resistência da elite escravocrata à abolição. Killmonger é um defensor dos oprimidos. A alternativa inverte o foco temático da cena.Incorreta
E) Abolicionistas Radicais (Castro Alves)O personagem de Killmonger é um revolucionário que defende a intervenção. Essa comparação é válida em termos de filosofia política (intervenção radical vs. leis graduais). No entanto, a pergunta é sobre a interpretação do trecho específico do diálogo ("pularam dos navios"). A alternativa B interpreta de forma mais direta a referência histórica contida na frase-chave.Incorreta (Embora a filosofia seja comparável, não é a melhor interpretação da referência específica no diálogo.)

Conclusão

A melhor interpretação é a que reconhece a referência histórica direta e literal contida na fala de Killmonger. A menção aos ancestrais que "pularam dos navios" é um poderoso ato de memória àqueles que escolheram o suicídio no Atlântico como a forma mais extrema de resistência e recusa à escravidão. Essa escolha de morte em nome da liberdade é o espelho da decisão de Killmonger de recusar o tratamento.

A alternativa correta é a B.

O Culpado de Tudo ou O Hacker de Giz (texto de Ronaldo Campos)

 



Dizem os geógrafos, essa gente afeita aos números e às bússolas, que Minas Gerais é uma imensidão de quase seiscentos mil quilômetros quadrados. Um retângulo imperfeito que ocupa sete por cento do Brasil, esticando-se por quase mil quilômetros do Norte ao Sul, como se quisesse abraçar o país inteiro. Para todos nós mineiros, porém, Minas não é uma simples área; é volume, é intensidade, é história. O nosso estado tem o peso de oitocentos e cinquenta e três municípios, uma constelação de cidades que faz de cada curva de estrada um novo sotaque.

Mas a grandeza, quando se torna burocracia, dói. Imagine, meu querido leitor, essa escala traduzida em giz e apagador, em alunos e professores: são sete mil e tantos colégios, uma legião de cento e oitenta mil professores e uma multidão de dois milhões de alunos. É gente que não acaba mais, um mar de cadernos que, no final do ano, deságua em um único e estreito gargalo: o sistema digital.

Eu me chamo Ronaldo e sou professor de história na rede estadual de Minas Gerais há mais de três décadas. Sou um dos muitos operários da educação (ou como diz o nosso sindicato: sou um trabalhador em educação) que torna realidade o mais importante sistema educacional do país. 

No último dezembro, eu era um homem-orquestra entre o sexto e o sétimo andar de uma escola verticalizada, equilibrando um laptop, livros e a paciência que nos resta no fim do calendário. Meus alunos, essa juventude da "Geração Z", habitam bolhas que nós, adultos, mal conseguimos enxergar através do reflexo da tela. Eles são corteses, é verdade, mas vivem em um fuso horário existencial diferente do meu.

O ritual de final de ano era a "ladainha das notas". Nome, número, média, o veredito. Mas havia o mistério da recuperação semestral. As provas, corrigidas por máquinas frias e gabaritos eletrônicos, deixavam alguns nomes no limbo. "Vá à supervisão", eu dizia.

E foi lá que o cosmos e o cômico se encontraram.

O sistema, fustigado por milhares de acessos simultâneos — a sede de todo um estado tentando descobrir se haveria férias ou estudos independentes —, simplesmente entregou os pontos. Caiu. Ficou mudo, inoperante, uma página em branco na vastidão mineira.

Uma aluna, dessas que carregam no rosto a impaciência do século, recebeu a notícia da supervisora: "O sistema travou, minha filha. Está fora do ar".

A menina não hesitou. Fez uma careta de quem encara o apocalipse e soltou o grito que paralisou o corredor: — Foi o Ronaaaaaaaaldo! Ele não larga aquele computador! De tanto mexer, tirou o sistema do ar!

A supervisora, coitada, engoliu o riso para não se engasgar com o absurdo. A aluna saiu pisando firme, convencida de uma verdade absoluta e solitária: seu professor de carne e osso, aquele que subia escadas com o notebook debaixo do braço, era o titã capaz de derrubar a infraestrutura de sete mil escolas.

Para ela, eu não era apenas um mestre de primeiros e segundos anos. Eu era o hacker involuntário de Minas Gerais, o homem que, de tanto digitar médias, apagou a luz de dois milhões de estudantes. Saí da escola me sentindo pequeno diante do estado, mas gigante diante daquela fé cega na minha onipotência digital.


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Crônica de um Velho Solar da Educação (Um olhar d’alma sobre o IEMG - texto de Ronaldo Campos)

 


Gente, que coisa! Que trem doido, meu Deus! A gente que nasceu e vive por estas Alterosas, come o pão de queijo da tradição, bebe o café que acorda defuntos e pensa que sabe tudo de história. Pensa que as pedras são só pedras, que casas e edifícios são simples construções. Engano bobo, sô! Há certos prédios, certas instituições, que não são feitas só de tijolo e argamassa, mas de pura saudade cívica e de uma tal teimosia em ser brasileiras que chega a comover este meu coração mineiríssimo de viajante.

O tal do IEMG, o Instituto de Educação de Minas Gerais. A nossa antiga e eterna Escola Normal Modelo de Belo Horizonte. Um nome comprido, meio solene, que cheira a cartório e a passado. Mas que passado, meu caro!

Fundado em 1906, batizado por Seu João Pinheiro e Seu Carvalho Britto com toda a pompa da época. Já começava com pose, vejam só! E o lema, que coisa séria: “Educar-se para educar”. Imagino a rigidez, as moças de uniforme azul e branco, só a nata da elite, todas aprendendo a arte do magistério como se fosse etiqueta social ou receita de quindim. Era a escola-referência do Estado, um farol de onde saíam as professoras-mestras para moldar a meninada, garantindo que fossem, no futuro, verdadeiros cidadãos republicanos. Um tanto exclusivista, é verdade. Mas o Brasil, meu caro, é cheio dessas contradições. É o avesso e o direito do mesmo pano.

E o tempo, ah, o tempo!

O bonde do progresso faz a curva na Praça Sete, sobe pela Afonso Pena, vira da Goitacazes e chega à João Pinheiro, quase beijando o Palácio da Liberdade. E o IEMG no meio dessa ciranda toda, não para. Dali, de dentro do seu casarão, nascem outras instituições de peso, como a antiga Faculdade de Filosofia, que hoje é a FAFICH da UFMG, coisa de se tirar o chapéu!

E no meio de tanta mudança, sem ser ato repentino, o IEMG vira um mamute bondoso da rede estadual. Não é mais só para a moça de família. Não! Agora, tem criança que nem sabe amarrar sapato; tem moço barbado voltando pro banco da escola (o tal do EJA, vejam só!); tem Ensino Médio, tem o velho e bom Magistério. Uma miríade de almas, um formigueiro de gente miúda e graúda, toda buscando a luzinha da instrução. A escola agora quer universalizar, essa palavra meio pedante que no fundo só quer dizer: incluir todo mundo. E nisso, ela acerta em cheio.

É um espanto ver como a educação, para eles, é coisa de vida ou morte. Não param no tempo, esses mineiros. Buscam o diálogo, o aprofundamento, o enfrentamento dos problemas – que não são poucos, cá pra nós! – e a valorização daquela iniciativa pedagógica que deu certo. É um potencializar saberes que não tem fim, uma busca de ser cada vez mais brasileiro e cada vez mais gente.

E não é só sala de aula, não, que é o que mais me agrada. O IEMG não esqueceu do Espírito! É lugar de gente criativa, tem a alma da Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo. Quem não se lembra dos belos recitais, em BH e até na antiga capital do Brasil, dos "Jovens Cantores do IEMG"? Foi, provavelmente, o coro mais afinado da cidade. E a fanfarra, meu Deus! Moçada animada que bota ordem e alegria fechando com garbo e elegância os desfiles de Sete de Setembro na Afonso Pena. Sem contar a Rádio Educare.47, a voz da escola, com quase uma centena de programas no ar. E a Revista Pedagógica, que durou dez anos! Tudo isso é a mais pura e verdadeira cultura, sabe? Aquela coisa essencial que faz a gente respirar fundo e sentir que está vivo. Que coisa bonita!

O IEMG, no fim das contas, foi e continua a ser Palco. Palco de reforma, de transformação, de revolução na lida do ensino. O objetivo? Fazer gente. Indivíduos autônomos, produtivos e, veja bem, responsáveis. Querem que os alunos sejam sujeitos, donos da sua história, capazes de ir além das visões tradicionais que a gente ouve no botequim. Querem que valorizem o espaço comunitário, que a escola seja um centro irradiador de inclusão.

É isso que é o Brasil, meu amigo: um misto de rigidez antiga e de uma vontade moderna de abraçar o mundo. O IEMG, com seus cento e tantos anos, é um pedacinho de Minas, um pedacinho do Brasil, teimando em educar para que se eduque e, acima de tudo, para que se viva bem.