terça-feira, 16 de dezembro de 2025

O Culpado de Tudo ou O Hacker de Giz (texto de Ronaldo Campos)

 



Dizem os geógrafos, essa gente afeita aos números e às bússolas, que Minas Gerais é uma imensidão de quase seiscentos mil quilômetros quadrados. Um retângulo imperfeito que ocupa sete por cento do Brasil, esticando-se por quase mil quilômetros do Norte ao Sul, como se quisesse abraçar o país inteiro. Para todos nós mineiros, porém, Minas não é uma simples área; é volume, é intensidade, é história. O nosso estado tem o peso de oitocentos e cinquenta e três municípios, uma constelação de cidades que faz de cada curva de estrada um novo sotaque.

Mas a grandeza, quando se torna burocracia, dói. Imagine, meu querido leitor, essa escala traduzida em giz e apagador, em alunos e professores: são sete mil e tantos colégios, uma legião de cento e oitenta mil professores e uma multidão de dois milhões de alunos. É gente que não acaba mais, um mar de cadernos que, no final do ano, deságua em um único e estreito gargalo: o sistema digital.

Eu me chamo Ronaldo e sou professor de história na rede estadual de Minas Gerais há mais de três décadas. Sou um dos muitos operários da educação (ou como diz o nosso sindicato: sou um trabalhador em educação) que torna realidade o mais importante sistema educacional do país. 

No último dezembro, eu era um homem-orquestra entre o sexto e o sétimo andar de uma escola verticalizada, equilibrando um laptop, livros e a paciência que nos resta no fim do calendário. Meus alunos, essa juventude da "Geração Z", habitam bolhas que nós, adultos, mal conseguimos enxergar através do reflexo da tela. Eles são corteses, é verdade, mas vivem em um fuso horário existencial diferente do meu.

O ritual de final de ano era a "ladainha das notas". Nome, número, média, o veredito. Mas havia o mistério da recuperação semestral. As provas, corrigidas por máquinas frias e gabaritos eletrônicos, deixavam alguns nomes no limbo. "Vá à supervisão", eu dizia.

E foi lá que o cosmos e o cômico se encontraram.

O sistema, fustigado por milhares de acessos simultâneos — a sede de todo um estado tentando descobrir se haveria férias ou estudos independentes —, simplesmente entregou os pontos. Caiu. Ficou mudo, inoperante, uma página em branco na vastidão mineira.

Uma aluna, dessas que carregam no rosto a impaciência do século, recebeu a notícia da supervisora: "O sistema travou, minha filha. Está fora do ar".

A menina não hesitou. Fez uma careta de quem encara o apocalipse e soltou o grito que paralisou o corredor: — Foi o Ronaaaaaaaaldo! Ele não larga aquele computador! De tanto mexer, tirou o sistema do ar!

A supervisora, coitada, engoliu o riso para não se engasgar com o absurdo. A aluna saiu pisando firme, convencida de uma verdade absoluta e solitária: seu professor de carne e osso, aquele que subia escadas com o notebook debaixo do braço, era o titã capaz de derrubar a infraestrutura de sete mil escolas.

Para ela, eu não era apenas um mestre de primeiros e segundos anos. Eu era o hacker involuntário de Minas Gerais, o homem que, de tanto digitar médias, apagou a luz de dois milhões de estudantes. Saí da escola me sentindo pequeno diante do estado, mas gigante diante daquela fé cega na minha onipotência digital.


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