— Entre muita gentezinha, hoje com chuva, apesar da chuva torrencial desta manhã, vieram muitas á aula.
— Mas a senhora mesma é que nos diz sempre que o dever antes de tudo.
Uma hora desse dia é destinada pelo regulamento á inspecção moral e cívica. Todavia, ela aproveitou a ocasião de lembrar a alguns alunos quanto é elevada a organização da Liga da Bondade, mostrando-lhes que muitas das suas coleguinhas não têm um par de sapatos, e faz pena ver uma menina descalça. Muitas não podem trazer a merenda, por serem muito pobrezinhas.
Nesse instante, a porteira do grupo traz muitas tiras de papel, tiradas de uma das caixinhas penduradas no corredor. A professora lê, em voz alta, os actos de bondade que mais lhe agradam, dos meninos da liga, e vae comentando os factos narrados pelos alunos, sem saber quem os escreveu, porque a caridade deve sempre se ocultar.
— Vejamos esta prova, que foi escrita por um aluno do segundo ano, talvez da outra sala:
"Eu estive com o joelho ferido, porque tive muita pena de uma negra velha que levava na cabeça uma grande trouxa de roupa, e tomei a trouxa mais leve; um grande tombo por causa do peso da trouxa."
No momento de ler outra prova, a servente vem anunciar que duas senhoras idosas desejam assistir ás aulas.
— Diga-lhes que entrem, ordenou a professora, embora seja tão impropria a hora, e quando há tão poucos alunos por causa da chuva.
Entraram as duas senhoras. Eram brancas e idosas e estavam aposentadas no emprego de professoras de pequenos arraiais de uma região de Minas...
Todas as alunas se levantaram, e somente tornaram a sentar-se, depois de um aceno de d. Mariquinhas.
Disseram então, as duas senhoras que, tendo vindo á cidade, ouviram falar tanto grátis sobre o ensino primário, tão diverso do seu tempo, e desejavam assistir a algumas aulas do grupo.
E quando a professora se desculpou de haver poucos alunos, nesse dia, uma das velhas disse que em seu tempo, era a mais díficil tarefa conseguir que os alunos comparecessem á escola.
— Como a senhora consegue tamanha frequência?
D. Mariquinhas respondeu muito naturalmente:
— Se a senhora voltar aqui, e assistir ás minhas aulas, verá que tudo se consegue, facilmente, das crianças. Notará que quase todas não se esqueceram de trazer uma florzinha para a aula, e as lições bem preparadas. Hoje, minha senhora, é um castigo em casa para o menino, que ele não vem ao grupo, quando, sei que, antigamente, os meninos choravam para não ir á escola. O meu dever levantar o mais possível o nível moral dos nossos patricinhos, de modo a torna-los briosos, educados, sensíveis aos actos nobres. E como nenhum castigo corporal é agora permitido...
— Então aqui não há palmatoria?
D. Mariquinhas respondeu com veemência: — Oh, minha senhora! Castigar uma criança é assassinar um homem. Pois, acha que um menino que é espancado pelo mestre, ainda mais na presença de seus companheiros, possa tornar-se por isso, um bom aluno, sem odiar o professor, e sem conservar uma sombra mil de humilhação, quando for homem? Mas, as senhoras, acrescentou, mais serenamente, vieram para observar algumas vantagens do moderno sistema de ensino, como demonstra o programa dos grupos. Pelo horário de hoje, devemos ter uma aula, lição de moral cívica.
Voltando-se para os alunos, disse-lhes:
— Amanhã é o dia 14 de julho, um dia feriado. Que significa esse dia?
Muitos alunos responderam: A tomada da Bastilha.
D. Mariquinhas: — Isso mesmo. E qual de vocês é capaz de explicar porque nós também festejamos esse dia?
Diversos alunos levantam a mão direita:
— Eu.
A professora, muito benevolamente, lhes disse:
— Mas nem todos podem falar ao mesmo tempo, sobre o 14 de julho. Vá você, Justinho, por ser o menor da classe.
Tornou as senhoras, acrescentou, voltando-se para as relevadas visitantes, que esta aula é do segundo ano.
Levantou-se o Justinho e falou com muito desembaraço:
— Havia em Paris da França uma grande fortaleza, chamada Bastilha, onde o rei mandava prender todos os que lhe aborreciam. E no dia 14 de julho, o povo, que já estava ficando muito republicano, entendeu que aquilo era um descalabro, e justamente quando a praça esteve tapada de gente, arrasou e esmigalhou a Bastilha, e depois pôs o rei em outra prisão. Depois disto, a França ficou republica.
E' por esse motivo que nós brasileiros somos tão amigos da França.
Uma das senhoras, (chamava-se d. Exclastica), exclamou espantada: — Com efeito! Como é que este quiristo já sabe destas coisas, gente, sendo apenas do segundo ano!?
Assim, quando ele chegar ao ultimo, já terá quase um doutor!...
— Nem tanto, obtemperou a professora. Mas, como a senhora sabe melhor do que eu, antigamente a escola apenas se ensinava a ler, por meio da soletração, um modo tão condenado agora; a escrever, as quatro operações, e a doutrina cristã, e tudo isso, poder de muita pancada nas pobres criancinhas, desanimando-as, e por isso tinham elas verdadeiro horror á escola. Hoje, sem fatigar a inteligência do menino, intercalando as ideias com os cantos e exercícios de ginástica, recreio, aulas curtas para lhes não cansar o espirito, conseguimos verdadeiros milagres, créa-me.
— No meu tempo, disse d. Anna, era uma piedade ver aquelas criancinhas tão magrinhas, descalças, vindas de longe, ás vezes, d'alguma casinha á beira córrego, meia légua da escola.
Uma até foi mordida por uma jararaca, no caminho. Morreu muito distante da minha aula, e chegou já meio morta, carregada por seis homens e só durou um dia. Outras vinham da escola mortas de fome, porque eu não podia dar quitanda a elas todas, muito tendo que caminhar meia légua até chegarem á casa.
D. Mariquinhas, muito penalizada, com aquelas palavras, disse então: — E' porque nesse tempo, não havia Caixa Escolar. Se as senhoras querem prestar aos meninos da sua terra o maior dos serviços, levem daqui este folheto, onde estão as instruções para a organização da Caixa, e estou certa de que qualquer pessoa curiosa negará um auxilio a essa instituição. Ouvirão, entretanto, que o aluno favorecido pela Caixa Escolar ignora que deve, ás vezes, á generosidade de seus colegas de classe o calçado ou o fatozinho humilde, que recebeu por ocasião da ultima festa escolar. Isso, todavia, é natural!
D. Exclastica, comovida pelo que via e ouvia, examinava com muita atenção o globo. Afinal perguntou á professora: E esta bola, para que serve?
— Para ensinar a geografia, explicou, mal sustentando o riso e receando também que as crianças não se motivassem. — Olha, minha senhora, aqui está, mais ou menos, o lugar onde estamos. Veja como é grande o nosso Estado de Minas, perto de muitos outros. Até no estado de geografia o menino aprende a amar a sua terra natal e a venerar a sua pátria.
D. Exclastica ouvia, espantada. — Eu já tinha ouvido dizer que o mundo era redondo, disse, e agora estou vendo que é verdade. Mas, como é que a gente não escorrega por esta bola abaixo?
D. Mariquinhas mal disfarça o riso, e segredando com o olhar os alunos, que estão espirando umas risadinhas abafadas.
— Qualquer destas crianças, poderia lhe explicar isso, disse então. Porém, quando as senhoras entraram na aula, eu ia começar a arguir os alunos sobre noções de historia natural, higiene e sobre moral cívica. (Voltando-se para os meninos). Na ultima lição de higiene, eu falei aos meninos sobre a necessidade de terem os dentes sempre muito bem tratados; quais são os órgãos mecânicos á alimentação; mas, antes de começar a nova lição, quero mostrar a estas senhoras os seus trabalhos de cartografia.
Abriu-se, então, um grande rolo de mapas, que está sobre a mesa, lhes disse: São feitos pelos meus alunos. Olhem este. E' o Estado do Amazonas, trabalho do Pedrinho — (Mostrando um pequeno menino). E' aquele.
As duas senhoras não podiam ocultar verdadeiro espanto.
— O que está dizendo, d. Mariquinhas? Isto é feito só pelo menino?
— Sim, senhora, porque d'aqui um tom de preparar o seu aqui, vae tonto, na hora dos trabalhos.
D. Anna, muito admirada, adiantou-se tamb´rm a fazer uma pergunta:
— O que é este risquinho que vae por aqui fora, parecendo uma cobrinha?
— E' o rio Amazonas, que tem mil e duzentas léguas de comprimento e na embocadura, é tão largo, que empurra o mar, por mais de cinquenta léguas. Veja agora o nosso grande Estado. Foi feito por aquele pequeno, que estão vendo lá. E' um menino muito caprichoso e aplicado.
O menino, assim elogiado, levanta-se, contente com o elogio da professora e para os mostrar ás visitas.
— Eu até estou embaraçada, confessou d. Exclastica.
— Sabem as senhoras a summa de paciência, de dedicação, que a professora precisa ter hoje?
Ensinar tanta cousa sem livros, sem nunca maltratar os alunos, e nem castiga-los... Mas, acrescentou delicadamente, são horas de recreio, e d'aqui a três minutos a campainha, elétrica vae dar o sinal.
Voltando-se então para os alunos, disse:
— A nossa lição de moral ficou um tanto prejudicada pela visita, destas minhas anteveis colegas. Todavia, antes de lhes mandar brincar, para descanso, quero que me respondam mais uma pergunta. Já conhecem o corpo humano; quais são os órgãos principais da respiração, da digestão etc.; contudo, lá dentro de nós uma cousa, que nos remorde, se procedemos mal, que nos consolos quando praticamos uma boa acção; que vê, nos espia, mesmo quando todos nos enganam. Sabem o que é?
Muitos alunos levantam a mão direita. Cada um parece ter mais desejo de responder.
— Vocês, digam o que é.
E eles responderam com firmeza: A consciência.
GUSTAVO PENNA.
(Do livro "Educação", no prélo).