Diz a lenda acadêmica que o TIG — o famoso Trabalho Interdisciplinar de Graduação — era o terror dos corredores. Para a maioria dos professores, significava mais uma pilha de papéis burocráticos para corrigir, reuniões intermináveis e alunos perdidos entre teorias que pareciam não conversar entre si. Mas toda regra tem sua exceção, e há quem veja o caos institucional como um convite à poesia.
Foram quase dezoito anos pisando no campus do UNI-BH, dando aula em quase tudo, menos em Medicina e Direito. Vi gerações de estudantes passarem, mas foi em 2014, no curso de Letras, que encontrei uma turma disposta a desafiar o tédio da pedagogia tradicional. O desafio estava posto: integrar todas as disciplinas cursadas no período em um único projeto que exigisse tanto rigor teórico quanto um produto prático.
Enquanto muitos torciam o nariz, nós decidimos brincar sério. E quem escolhemos para ser o nosso padrinho nessa empreitada? Ninguém menos do que o bardo de Stratford-upon-Avon: William Shakespeare.
Afinal, por que Shakespeare? A resposta pulava aos olhos: a atualidade de um homem que escreveu sem eletricidade, sem internet e sem aviões, mas cujas paixões, ciúmes, traições e dilemas continuam embalando desde o pop global até as telas de Hollywood.
Mas como traduzir a grandiosidade de 150 sonetos e dezenas de peças para a rotina engessada do ensino fundamental — aquele espaço onde a norma é a criança sentada em silêncio, ouvindo aulas expositivas em sequência? A resposta veio da essência das teorias ativas: transformando o aprendizado em jogo.
Foi assim que nasceu o jogo sobre a vida de Shakespeare, um projeto que extrapolou as paredes da sala de aula e ganhou contornos dignos de uma verdadeira força-tarefa interdisciplinar. O grupo não se isolou; uniu forças com a Publicidade e Propaganda para o projeto gráfico, dialogou com a Pedagogia, cruzou fronteiras com colaboradores internacionais de Harvard e contou com o apoio luxuoso do DCE e do Curso de Idiomas.
O que mais me encantou nesse projeto do tig foi o protagonismo dos alunos. Eles pensaram fora da caixa e foram em busca da realização de um projeto que estava nos sonhos deles. Como é bom orientar alunos que sabem que as coisas não caem do céu, que é preciso muito trabalho e que o professor é um orientador (e não o dono das ideias e das certezas imediatas).
O produto final não foi apenas um relatório nas normas da ABNT. Foi um jogo de tabuleiro vivo e pulsante.
Imagine a cena: em vez de decorar datas enfadonhas, os alunos do ensino fundamental — de bairros como o Novo Glória, Jardim Filadélfia ou Tirol — podiam caminhar por um tabuleiro que simulava a própria vida do autor, desde o nascimento até o fatídico túmulo. O kit vinha completo: tabuleiro, ampulheta, dados, 300 cupons de fama, um bloco de anotações e 110 cartas de perguntas. E o melhor de tudo: o jogo exigia ação. Para avançar, os estudantes precisavam declamar sonetos, escrever, cantar e até dançar, lidando com a frustração e a vitória coletiva.
Aprender brincando deixou de ser utopia e virou método.
O resultado dessa ousadia coletiva? O reconhecimento máximo. Entre centenas de trabalhos na universidade inteira, o nosso projeto com Shakespeare e o lúdico levou o prêmio de melhor trabalho de toda a instituição.
Olhando para trás, percebo que o TIG não era o problema; era o sintoma de uma educação que precisava transbordar. E transbordamos. Provamos que a literatura clássica cabe perfeitamente na caixa de um jogo de tabuleiro, desde que haja coragem pedagógica para abrir o manual de instruções e dar o primeiro lance.

Nenhum comentário:
Postar um comentário