Fui questionado sobre como fizemos o projeto que foi citado na crônica que inaugurou a série Práticas exitosas (e outras aventuras docentes) intitulada "A República do café com pão de queijo". Esta crônica foi publicada aqui no blog no dia 18 de agosto de 2026.
O projeto é bem anterior a essa data. Em 2022, junto com a professora de história do IEMG, Edva Régis, realizamos essa atividade no espaço da biblioteca geral do IEMG (na sala de estudos). Como toda atividade realizada na escola, esta também foi planejada, apresentada para a supervisão\orientação e, depois de aprovada, foi coloca em execução. Na época, escolhemos como título do projeto: “As tramas do 'café com leite': roda de conversa no Ensino Médio sobre a sociedade, política, economia e cultura da Primeira República" que vou aqui transcrever:
https://draft.blogger.com/blog/post/edit/1709387391847650835/71860602672939275
Introdução
Em uma sociedade globalizada e totalmente informatizada, o nosso maior desafio é a forma como vamos estabelecer um espaço harmonioso de convivência com as diferenças\diversidade, onde deve ser garantido a inclusão de todos os atores sociais. A Educação deve estar configurada como uma instância socializadora e um porto seguro para o desenvolvimento da individualidade\subjetividade dos sujeitos. Por isto, a práxis escolar é fundada em processos de ensino-aprendizagem de conteúdos e conceitos, de procedimentos e atitudes que, também, possibilita a criação e a difusão de ideias de formação pública as quais serão a base para construir a cidadania e o Estado de Direito.
A Escola tem um papel muito importante em todo este processo, devendo assumir uma postura mais transformadora e comprometida com as diversas formas metodológicas ativas que assumam uma postura colaborativa, reflexiva, crítica e dialógica. As chamadas Rodas de Conversa fazem parte das metodologias ativas no processo de ensino aprendizagem. Tendo muitos pontos positivos para professores e alunos, dentre os quais, podemos citar o fato de ser um momento onde todos os estudantes têm garantido a oportunidade de se expressarem livremente, dentro de uma determinada ordem, previamente informada pelo mediador (pela pessoa que organiza e conduz o diálogo). Sendo um espaço para estabelecer o protagonismo discente. É o momento de concentração, respeito e atenção ao outro. É o espaço para trabalhar a oralidade em sala de aula. É um momento singular de partilha, que pressupõe um exercício de escuta e fala. Conferindo a todos a oportunidade dos estudantes possam reconstruir as suas concepções e/ou percepções sobre o que estará em discussão. Na roda de conversa, os alunos vão ser provocados a se expressar, ao mesmo tempo, serão ouvintes das falas dos seus colegas.
Justificativa
A Roda de Conversa não é algo improvisado, ou trivial e sem importância, como alguns podem definir apressadamente. Este tipo de projeto é mais complexo que o “falar só por falar”, por possuir uma metodologia alternativa e de colaboração. É um exercício que proporciona o trabalho em grupo e a cooperação entre alunos. É um exercício para a cidadania e para a democracia. Contribuindo na formação da autonomia dos alunos. É o momento privilegiado de diálogo e intercâmbio de ideias. Por meio desse exercício torna se possível ampliar suas capacidades comunicativas, como a fluência para falar, perguntar, expor suas ideias, dúvidas e descobertas, ampliar seu vocabulário e aprender a valorizar o grupo como instância de troca e aprendizagem. É um momento de inclusão, encorajamento e motivação dos alunos.
A Roda de Conversa não pode ocorrer de forma aleatória, improvisada e sem fundamentação. A comunicação não se restringe em saber apenas falar, mas é fundamental ter a capacidade de se expressar de várias maneiras em diversos contextos sociais. Por isto, não pode ser embasada apenas em opiniões subjetivas. Pelo contrário, é um processo dinâmico, dialético e muito bem fundamentado. Nele, é possível compartilhar\discutir um fato ou uma ideia, conceito, uma inquietude ou uma satisfação, uma dúvida ou afirmação, descoberta ou indignação, decisão ou uma solução. Quando alguém fala numa roda de conversa, esta pessoa está necessariamente compartilhando com os outros participantes as suas experiências, as suas observações de mundo, os resultados dos seus estudos, etc. Assim, ao participar falando, o aluno está aprendendo a dialogar, a argumentar e a e estabelecer relações interpessoais. Ele “abre” um campo de possibilidades para construir novas argumentações. O que significa que cada vez que um aluno fala numa roda de conversa uma troca é estabelecida, ao mesmo tempo que saberes e experiências são adicionados, gerando uma aprendizagem\comunicação coletiva e significativa. Exercitando o ato de ouvir o outro, a capacidade de apresentar o seu ponto de vista. Ao se sentir “ouvido” e aceito, o estudante se sentirá à vontade para se expressar de modo livre, tendo confiança que assuas ideias e convicções serão respeitadas pelos seus pares. Em suma, sem se prender aos motivos, este tipo de debate sempre levará à aprendizagem pela troca e reconstrução de conceitos dos participantes. Por isto, a Roda de Conversa deve ser sempre preparada com antecedência. Os envolvidos, os alunos e os professores, devem se preparar, estudando o tema. Assim, a conversa será fundamentada (embasada teoricamente\historicamente).
A Metodologia da Roda de Conversa nas aulas de História do Ensino Médio permite ao professor aprofundar temas e questões do conteúdo programático. Desenvolvendo nos alunos os meios para se expressar e se comunicar, ou seja, é a partir da expressão, da forma como o aluno exerce as suas capacidades de argumentação, de falar, de ouvir, de participar coletivamente do processo de construção do conhecimento em sala de aula. É um modo de exercer a sua autonomia num contexto da democracia. Estabelecendo uma ação continuada permanente de aprimoramento e permitindo a valorização do protagonismo do corpo discente.
O tema escolhido foi: a República do café com leite: aspectos políticos, econômicos, culturais e sociais na Primeira República Brasileira (1889-1930). O termo “Política do café com leite” derivou diretamente da "Política dos Governadores", uma ação organizada e executada na Primeira República, no governo Campos Sales (1898-1902), que tinha por objetivo garantir a predominância do poder nacional (a presidência da República) nas mãos das oligarquias produtoras de café: São Paulo (a maior região produtora de café do país) e Minas Gerais (o maior colégio eleitoral (o maior “curral eleitoral” do país). Esta política garantiria que os interesses dos cafeicultores fossem sempre tratados com prioridade por parte do governo federal. Essa política perdurou até a ascensão de Getúlio Vargas ao poder com a Revolução de 1930, dando início a chamada “Era Vargas”. Este período da nossa história é riquíssimo. Os alunos têm uma gama muito variada de assuntos para pesquisar e debater na roda de conversar. Por exemplo, a economia cafeeira; a política dos governadores; o coronelismo e o sistema eleitoral; a Belle Époque; a presença dos imigrantes no Brasil; os reflexos da primeira guerra no Brasil; as raízes do modernismo: 1922, o ano da ruptura; a saga dos tenentes; a crise da república velha após o crack da bolsa de valores de Nova York, entre outros. Lembrando que todos estes temas devem ser relacionados a política do “café com leite”.
Objetivos
Objetivo geral
Garantir um aprendizado mútuo com a troca de experiências entre os alunos do terceiro ano do ensino médio do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG), em uma perspectiva de construir e reconstruir conhecimentos sobre a política, cultura, sociedade e economia da primeira república brasileira.
Objetivos específicos
* Possibilitar a integração entre os estudantes, mudando o foco de atenção na sala de aula, ou seja, os alunos deixam de olhar\escutar apenas para o professor e passam a olhar\escutar para os colegas, o que incentiva o diálogo e a autonomia.
* Promover o diálogo entre professores e jovens estudantes a partir de um tema da História do Brasil
* desenvolver a aprendizagem através dos resultados dos seus estudos, norteados pela práxis
* construir um momento de escuta e acolhida das falas jovens estudantes do terceiro ano do ensino médio
* Aproximar-se da condição juvenil e conhecer as peculiaridades dos jovens estudantes que formam o Ensino Médio no IEMG.
* Compreender os arranjos políticos e o controle político local (coronelismo), a configuração econômica e social no contexto da Primeira República no Brasil.
Metodologia
Em primeiro lugar, devemos lembrar que apesar de ser uma prática mais comum na Educação Infantil, a roda de conversa é uma metodologia extremamente eficaz quando trabalhada com grupos de jovens e adultos. Mas, é muito importante que o professor faça as adaptações adequadas deste método e, principalmente, na escolha de temas e assuntos relevantes para faixa etária. Por esta razão, ao se trabalhar com alunos do terceiro ano do ensino médio, é fundamental dividir a atividade em algumas etapas. No processo de organização, o moderador terá o papel de organiza a sala, separar os materiais e explicar de modo claro como será a dinâmica. Na inspiração, o tema é introduzido e explicado de forma didática e instigante.
O primeiro passo deste projeto se dará a partir do convite feito aos estudantes do terceiro ano do ensino médio do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG) para participar da roda de conversa. Este momento será realizado em uma aula expositiva. O tema desta atividade será: a política do “café com leite” no Ensino Médio, sociedade, política, economia e cultura da Primeira República. Neste momento, o professor irá desenvolver o tema (a Primeira República Brasileira – 1889-1930), explicando que eles deverão pesquisar e estudar o período conhecido como Primeira República. Cada grupo deve realizar uma espécie de roteiro de estudo (temas relacionados a Primeira República Brasileira) que possa guiar a participação de cada um dos seus membros durante a apresentação na roda de conversa. É essencial fazer perguntas que os motivarão a participar do diálogo nesta atividade. É importante lembrar que no roteiro deve ser evitado perguntas que possam emitir algum tipo de juízo de valor ou expectativa de resposta. O desejável é que os alunos possam refletir sobre este período histórico, com a finalidade de que eles entendam aquilo que é importante valorizar. Todos os integrantes do grupo precisam apresentar/explicar uma parte da pesquisa/ do conteúdo.
É função do professor garantir que todos tenham direito a voz, que todos possam participar. Permitindo que eles possam apresentar as suas observações e análises. Em uma roda de conversa, os estudantes devem ser autônomos e protagonistas do seu processo de aprendizagem. Contudo, o professor poderá intervir na apresentação (na conversa) apenas se houver alguma explicação ou conteúdo esteja errado ou incoerente. A turma irá se reunir em uma aula de 50 minutos na sala de estudos da Biblioteca do IEMG e estarão divididos em grupos de seis componentes. Cada grupo ficará em uma mesa. Os participantes durante a aula terão que dialogar sobre questões relacionadas ao tema (roteiro). Durante a conversa sobre a primeira república, os alunos compartilharão café com leite e alguns acompanhamentos (biscoitos, bolos, etc). O professor terá a função de observar e analisar a conversa de cada um dos grupos. Lembrando que os alunos só poderão conversar sobre assuntos ligados ao tema proposto.
Depois de concluída a roda conversa na biblioteca, na aula seguinte, será realizada uma autoavaliação dos grupos, onde serão levantados as principais potencialidades e fragilidades/dificuldades. Em seguida, será realizado (na mesma aula) uma discussão coletiva sobre as avaliações. Se for necessário, serão pontuadas coisas que podem ser melhoradas, a partir das estratégias tomadas pelos próprios alunos em outros grupos.
Avaliação
O ato de avaliar é inerente ao dia a dia de todas as pessoas em suas mais variadas atividades, seja de modo intencional ou não, até nas atividades mais simples, todos estamos sujeitos a alguma forma de julgamento, de confrontação ou de análise. No processo formal da educação, a avaliação é uma etapa importantíssima. Contudo, é importante lembrar que em cada momento do processo de aprendizagem do estudante, o professor tem que ter uma estratégia para que os seus alunos cheguem onde precisam chegar. Por isto, precisamos ensinar e não apenas mostrar ao aluno que ele não sabe. Pois,
A avaliação atravessa o ato de planejar e de executar; por isso, contribui em todo o percurso da ação planificada. A avaliação se faz presente não só na identificação da perspectiva político social, como também na seleção de meios alternativos e na execução do projeto, tendo em vista a sua construção. (...) A avaliação é uma ferramenta da qual o ser humano não se livra. Ela faz parte de seu modo de agir e, por isso, é necessário que seja usada da melhor forma possível (LUCKESI, 2002, p.118).
De fato, a avaliação não pode ficar restrita apenas nas provas aplicadas no final do bimestre letivo. Este “tipo de avaliar” (denominada de classificatória) é muito excludente e oculta a aprendizagem. Neste sentido, a avaliação será realizada aqui de modo processual (também chamada de avaliação formativa ou contínua), onde, serão combinados vários instrumentos avaliativos para mensurar mais assertivamente os diversos aspectos do processo de ensino-aprendizado. Neste processo, a avaliação buscará identificar se o aluno realmente está conseguindo aprender a partir do processo metodológico praticado e de base para os feedbacks.
REFERÊNCIAS
CAMPOS, Gastão Wagner Souza. Um método para análise e cogestão de coletivos: a constituição do sujeito, a produção de valor de uso e a democracia em instituições: o método da roda. São Paulo: Hucitec, 2000
FAUSTO, Boris. “A Primeira República no Brasil (1981-1930)”. In. História do Brasil. 10. ed. São Paulo: EDUSP, 2002, pp. 243-328.
FREIRE, Paulo (2003). Pedagogia da autonomia: saberes necessários. São Paulo: Paz e Terra.
WARSCHAUER, Cecília. A roda e o registro: uma parceria entre professor, aluno e conhecimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
WARSCHAUER, Cecília. Rodas em rede: oportunidades formativas na escola e fora
dela. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

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