Todo ano é a mesma coisa. Chega o final do ano, principalmente no mês de novembro, e a escola corre para fazer algum projeto para o Dia da Consciência Negra. Há alguns anos, porém, tento fazer diferente. Quando faço o planejamento anual, busco analisar o período e os conteúdos em que posso introduzir outras narrativas, como as histórias dos povos originários e dos povos africanos.
Não acredito que devemos falar da cultura negra no Brasil apenas em novembro, do mesmo jeito que a participação da mulher não deve ficar restrita ao dia 8 de março. Afinal, de acordo com as Leis nº 10.639/03 e 11.645/08 (e também com a Deliberação CEE-PR nº 04/06), é nosso dever incluir no planejamento pedagógico temas da história e da influência das culturas africanas e afro-brasileiras na formação do país ao longo de todo o ano letivo.
Assim, na área de Ciências Humanas — no meu caso, na disciplina de História —, trabalhamos diversos temas relacionados à África, à sua cultura, geografia, ideias filosóficas e organização social. Destacamos o surgimento da humanidade no continente africano a partir da arqueologia e da antropologia, os povos da antiguidade, os conflitos étnico-religiosos (do passado e do presente), entre outros conteúdos.
Esses temas foram abordados de forma interdisciplinar, com a análise de diferentes fontes documentais (manuscritos, imagens e materiais audiovisuais), focando não apenas nos aspectos cognitivos, mas principalmente no desenvolvimento integral de habilidades e competências. Buscamos nos apropriar de conceitos e teorias para que cada aluno assuma o protagonismo do seu próprio processo de ensino-aprendizagem.
Entretanto, esse cuidado contínuo não impede que, no mês de novembro, façamos uma proposta especial. Creio que é fundamental comemorar este marco da nossa história: a luta e a trajetória dos povos de origem africana na construção de sua identidade e no seu reconhecimento social. Trabalhar esse tema numa perspectiva dinâmica e dialógica valoriza conhecimentos historicamente construídos, permitindo que os estudantes compreendam sua realidade e colaborem para uma prática inclusiva e democrática.
Sendo assim, pesquisando nos meus arquivos, reencontrei um material publicado pelo Geledés. Apesar de ter sido publicado há alguns anos, considero o texto extremamente atual. Como este blog também tem o objetivo de funcionar como suporte para nossas aulas e reflexões, compartilho a leitura abaixo:
Por que precisamos de
escritoras e escritores negros?
Fonte: Dalcastagnè, Regina.
Por que
precisamos de escritoras e escritores negros?. In: Geledes - Artigos e Reflexões.
16 de junho de 2015. Disponível no site: https://www.geledes.org.br/por-que-precisamos-de-escritoras-e-escritores-negros/.
Acessado em outubro de 2017
( A autora Regina
Dalcastagnè é professora de literatura na Universidade de Brasília, autora do
livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, entre outros.)
É comum ouvir dizer que ninguém mais lê
ou que a literatura tem muito pouca penetração comparada a outras formas de
expressão, como a televisão, o cinema, a música ou o jornalismo. No entanto, a
literatura continua tendo uma legitimidade especial. É ela que está nos
currículos escolares; é ela que é considerada o veículo por excelência da
manifestação de nossa identidade como povo e nação. Se a literatura brasileira
é lida por poucos (e, na verdade, talvez não sejam tão poucos assim), o
prestígio social de que desfruta é sustentado mesmo por aqueles que não a leem.
O escritor ainda não perdeu a posição que obteve no século XIX: em suas
palavras se busca encontrar o espírito de um tempo e a voz de uma coletividade.
Mas esta função, considerada tão elevada, é desempenhada por pessoas
que, como todas as outras, refletem suas próprias trajetórias e suas
circunstâncias peculiares. A voz que a literatura nos apresenta é a voz de seus
escritores. E, no caso do Brasil, esse é um grupo bastante homogêneo. Nosso
cânone literário é feito de brancos, de negros que não são vistos como tal
(caso de Machado de Assis) e de negros deixados às margens (como Lima Barreto
ou Cruz e Sousa). Se a literatura contribuiu historicamente para formar a
identidade da nação brasileira, contribuiu seguramente para embranquecê-la.
Hoje a situação mudou, mas não tanto quanto seria necessário. Muita
gente escreve, mas nem tudo que é escrito ganha status de literatura: aquilo
que está nas livrarias é comentado nos suplementos culturais dos jornais, vence
os concursos patrocinados pelo Estado, participa das feiras literárias, entra
nos currículos das escolas e das universidades. Quando olhamos para essa
produção (aquela que é aceita socialmente como sendo a “literatura”),
observamos que ainda há muito mais homens do que mulheres, que quase todos
dispõem de título superior, que a grande maioria reside no Rio de Janeiro ou em
São Paulo. E, também, que são quase todos brancos. Uma pesquisa que analisou os
romances publicados pelas maiores editoras brasileiras, de 1990 para cá,
revelou que menos de 5% dos autores são pretos ou pardos.
Se os escritores brasileiros reconhecidos como tal possuem um perfil tão
homogêneo, não é de se estranhar que suas personagens se pareçam tanto com
eles, deslocando-se em um universo narrativo no qual as ausências, talvez ainda
mais do que aquilo que se expressa, refletem algumas das características
centrais da sociedade brasileira. É o caso, justamente, da população negra, que
séculos de racismo estrutural afastaram dos espaços de poder e de produção de
discurso. Assim como são poucos os autores e autoras negros publicados pelas
grandes editoras, são poucas, também, as personagens negras que frequentam
nossa literatura. Isto sugere uma outra ausência, desta vez temática: o
racismo. Se é possível encontrar, aqui e ali, a reprodução paródica do discurso
racista, com intenção crítica, ficam de fora a opressão cotidiana das
populações negras e as barreiras que a discriminação estrutural impõe às suas
trajetórias de vida. O mito persistente da “democracia racial” elimina tais
questões dos discursos públicos, incluindo aí o discurso literário.
Isso empobrece a visão de mundo que a literatura brasileira fornece a
seus leitores, o que tem repercussões amplas. Afinal, a literatura pode
oferecer um acesso a diferentes perspectivas sociais, mais rico e expressivo do
que, por exemplo, aquele proporcionado pelo discurso político em sentido
estrito. Por isso mesmo, é um território em disputa, onde está em jogo a
possibilidade de dizer sobre si e sobre o mundo, de se fazer visível dentro
dele. Ignorar essas reivindicações em torno do literário costuma ser uma
maneira de reafirmá-lo como um atributo sobrenatural e trans-histórico, fruto
de um “talento” que se fixa em alguns indivíduos especiais, em vez de ser uma
prática social, que tem a ver com a produção de hierarquias que beneficiam
alguns e excluem outros.
E é por isso que precisamos de escritoras e escritores negros, porque
são eles que trazem para dentro de nossa literatura uma outra perspectiva,
outras experiências de vida, outra dicção. Na sociedade brasileira, a cor da
pele – assim como o gênero ou a classe social – estrutura vivências distintas. Precisamos
de mais negras e negros, moradoras e moradores da periferia, trabalhadoras e
trabalhadores escrevendo, não para coletar um punhado de “testemunhos” (o nicho
em que em geral são colocados), mas para que sua sensibilidade e sua imaginação
deem forma a novas criações, que refletirão, tal como ocorre entre os
escritores da elite, uma visão de mundo formada a partir tanto de uma
trajetória de vida única quanto de disposições estruturais compartilhadas.
São essas vozes, que se encontram nas margens do campo literário, essas
vozes cuja legitimidade para produzir literatura é permanentemente posta em
questão, que tensionam, com a sua presença, nosso entendimento do que é (ou
deve ser) o literário. É preciso aproveitar esse momento para refletir sobre
nossos critérios de valoração, entender de onde eles vêm, por que se mantêm de
pé, a que e a quem servem… Afinal, o significado do texto literário se
estabelece num fluxo em que tradições são seguidas, quebradas ou reconquistadas
e as formas de interpretação e apropriação do que se fala permanecem em aberto.
Ignorar essa abertura é reforçar o papel da literatura como mecanismo de
distinção e da hierarquização social, deixando de lado suas potencialidades
como discurso desestabilizador e contraditório.
Com isso, a literatura brasileira pode – talvez –
contribuir para uma visão mais plural e mais crítica do próprio país.
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