Na Primeira República, uma data se destacava no nosso calendário cívico. Era o dia 24 de fevereiro de 1891, data da promulgação da primeira constituição republicana do Brasil (e segunda constituição da nossa história). Na época, as pessoas acreditavam que graças a essa carta magna que os brasileiros foram eximidos de muitos males passivos, como por exemplo as cobranças de certos impostos e outras coisas mais que flagelavam o pobre lutador do eito. Hoje, sabemos que essa carta máxima não conseguiu trazer muitos avanços.
O papel aceita tudo, diz o velho ditado, e o papel daquele fevereiro aceitou o sonho republicano inteiro. Prometia-se a modernidade a toque de caixa: o país virava "Estados Unidos do Brasil", o cidadão (que sabia ler e escrever apenas) ganhava o direito de votar, a Igreja descia do altar do Estado e o progresso se desenhava no horizonte como promessa de feriado nacional. O brasileiro, acostumado a ver o mundo mudar pelas mãos do imperador, olhava para aquele texto bonito com a esperança cândida de quem acha que lei no papel se traduz em feijão na panela e mais participação popular na vida política brasileira.
O engano durou o tempo de a tinta secar. O voto, dito universal, trazia nas entrelinhas uma ironia bem nossa: analfabetos não votavam, mulheres não votavam e o trabalhador do campo ficava à mercê do mandato invisível — mas muito palpável — do coronel da região. O tal "maldito imposto" mudou de nome e endereço, o eito continuou pesado e o sufrágio virou o famoso voto de cabresto, onde a liberdade do cidadão terminava exatamente onde começava o curral eleitoral do padrinho.
E assim fomos marchando. A Constituição de 1891 deu ao país a carcaça de uma república federativa moderna, mas esqueceu-se de avisar o povo, que continuou assistindo bestificado à política do mesmo lugar de sempre: da plateia, estarrecido ou divertido. Hoje, quando reverenciamos a nossa Constituição Cidadã de 1888, o 24 de fevereiro, uma data que nem é mais marcada folhinha, foi totalmente esquecida. Fica a lembrança de um Brasil que tentou mudar pelo decreto e descobriu que, entre a letra fria da lei e a vida real do brasileiro, a distância continua sendo um oceano inteirinho.

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