sábado, 8 de agosto de 2026

Sobre o triste destino do inventor do cinema

 A Sombra da Luz Movente



Há um destino amargo e quase poético reservado aos homens que inventam mundos. Numa tarde fria de inverno, no setor de periódicos da Biblioteca Luiz de Bessa, pesquisando os jornais antigos de Belo Horizonte para recompor a história da Escola Normal Modelo da Capital mineira, eu me deparo com uma notícia triste. Tenho que confessar que um pouco tardiamente (para dizer a verdade mais de cem anos depois)... Era uma notícia velha, do jornal Minas Geraes, de 09 de maio de 1921, mas de uma tristeza imensa: a morte em Londres, na mais desoladora das misérias, o sujeito que deu movimento às nossas sombras. Chamava-se William Friese-Greene.

Lendo a pequena notícia perdida naquele jornal amarelado da Biblioteca (des)cobri uma história que não conhecia. E ela começava mais ou menos assim: em 1889, enquanto a maioria das pessoas se contentava com o retrato estático pendurado na parede, esse homem cismou de aprisionar a vida que passa. Gastou vinte mil libras — uma fortuna que não tinha — experimentando primeiro com placas de vidro, depois com tiras compridas de celuloide. O resultado dessa paixão obsessiva foi o previsível abismo das finanças: endividou-se, acabou preso, viu o juiz penhorar e leiloar até o último móvel de sua casa.

E enquanto o invento ganhava o mundo, enriquecendo empresários espertos e criando palácios de ilusão onde multidões pagam para sonhar no escuro, o velho Green afundava no esquecimento. Em 1915, viveu de uma esmola coletiva promovida por amigos piedosos, até arranjar um ganha-pão modesto num estúdio de fotografias coloridas.

O fim não poderia ter sido escrito por nenhum dramaturgo com mais amargura. Friese-Greene morreu de repente, no meio de uma reunião de grandes figurões da indústria do Cinema. Estava com a palavra, cercado justamente por aqueles homens que ergueram impérios e fortunas à custa da sua ideia. Desmoronou ali mesmo, diante dos mestres da máquina que ele próprio ajudou a criar. Sic transit gloria mundi.

Dizem agora que a paternidade da ideia nem era inteiramente sua, que um francês reclama a prioridade de ter colocado a vida em movimento na tela muda. Pouco importa a disputa dos cartórios. O que me corta o coração é essa ironia cruel dos homens: aquele que ensinou a luz a caminhar acabou no escuro, sem uma única moeda no bolso, enquanto a sua própria invenção projetava o riso e o luxo para o resto do planeta.

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