Hoje em dia, nas nossas aulas de História, uma coisa que não valorizamos tanto é a memorização de datas. Mas, quando estamos preparando uma palestra sobre algum autor importante, a primeira coisa que vem à nossa mente é quando esse personagem nasceu e quando morreu. Algumas vezes a resposta é exata: há documentos e testemunhas que garantem a verdade da informação. Quanto mais nos afastamos no tempo, contudo, as questões começam a se complicar.
Por exemplo, vou falar esta semana nas minhas aulas sobre a Divina Comédia, do grande Dante Alighieri. Peguei por acaso um livro da minha biblioteca anterior a meados do século passado e, em seguida, peguei outro... para minha surpresa, vi que havia uma pequena divergência. No mais antigo, apareceu o dia 13 de setembro, isto é, a noite de 13 para 14 de setembro de 1321, quando deu o último suspiro o grande poeta.
Para Verrani, que vivia em Ravenna no tempo de Dante, este era seu “familiaris et socius”. Que testemunho mais autorizado eu poderia ter? Verrani era contemporâneo do poeta e estava na mesma cidade onde ele morreu! Devia interessar-se, sendo tão amigo; talvez estivesse na própria casa quando o poeta morreu; e, pelo fato de sua profissão ser a de tabelião, tinha o hábito da precisão das datas.
Além disso, Mezzani deu a data de 13 na inscrição que ele próprio escreveu para ser gravada no túmulo do poeta. Muitos outros, porém, indicam até a data de 11 de agosto e de 14 de setembro, dia consagrado à Exaltação da Santa Cruz.
Eu vou usar 13 ou 14 de setembro? E o 11 de agosto? As dúvidas e controvérsias em torno da data exata da morte de Dante Alighieri (1321) surgiram da combinação de fatores práticos da época, métodos de medição do tempo e interpretações simbólicas.
Para explicar, devemos lembrar, que durante n Idade Média, muitos locais (e a própria Igreja) contavam o início de um novo dia litúrgico a partir do pôr do sol (vesperas) do dia anterior. Assim, a noite de 13 de setembro já era considerada o início do dia 14 de setembro. Como Dante faleceu no final da noite/madrugada, a notícia fúnebre só circulou e se espalhou pela cidade de Ravena na manhã de 14 de setembro. Contudo, o dia 14 de setembro é o dia consagrado no calendário católico à Exaltação da Santa Cruz. Para os cronistas e biógrafos medievais e renascentistas, associar a morte do grande autor cristão e criador do Inferno, Purgatório e Paraíso a uma festa litúrgica tão importante tinha forte peso simbólico. Dizer que o poeta "entregou a alma ao Criador no dia da Santa Cruz" agregava valor espiritual e devocional à sua biografia.
Quanto mais o tempo passava, mais as fontes secundárias misturavam tradição oral, cópias manuscritas com erros de transcrição e datas comemorativas. Algumas fontes isoladas chegaram a citar datas distantes (como 11 de agosto), mas estas são amplamente descartadas pelos historiadores por falta de respaldo documental.
Diante do cruzamento dos depoimentos de contemporâneos (como o tabelião Verrani e a inscrição de Mezzani), o consenso historiográfico e literário moderno adota que Dante Alighieri morreu nas últimas horas do dia 13 de setembro de 1321 (um domingo), e que a data de 14 de setembro se popularizou pelo calendário litúrgico e pelo fato de o sepultamento e o anúncio oficial terem ocorrido nesse dia.
Provavelmente, o dia 14 de setembro derivou do fato de que, morto Dante nas últimas horas do dia 13, a fúnebre notícia só veio a se espalhar no dia seguinte.
Portanto, preferindo esses testemunhos, deve-se crer que Dante morreu a 13 de setembro de 1321 — e que era um domingo.
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