sexta-feira, 7 de agosto de 2026

RESGATANDO A HISTÓRIA DE FIRMINO COSTA

À MARGEM DE UM LIVRO, TEXTO DE MÁRIO DE LIMA - PUBLICADO NO MINAS GERAES EM 05 DE MAIO DE 1921




Acabamos de ler, com prazer e proveito, a "Gramática Portuguesa" do professor Firmino Costa, ultimamente publicada.

Simples curioso em assuntos filológicos, não temos a pretensão de fazer a crítica desse interessante trabalho, fruto de longos anos de estudo de quem se especializou na matéria e é considerado como um dos mais conscienciosos sabedores da língua vernácula, entre nós.

Compulsamos com atenção a "Gramática" do professor Firmino Costa e é do resultado dessa leitura que darão conta as linhas abaixo, mera apreciação pessoal, desautorizada mas sincera.

O livro do professor Firmino Costa não dispensa o auxílio do professor.

Se o trabalho didático "é uma colaboração do professor e do aluno, a cuja atividade pertencem principalmente as aplicações das regras e dos pontos estudados", o compêndio "não passa de ser um resumo, que a ação inteligente e metódica do professor fará desenvolver e aclarar para melhor aproveitamento da classe".

Dentro desse critério, condensa o autor os diversos assuntos, procurando e conseguindo imprimir ao volume um cunho prático, pela multiplicidade dos exemplos elucidativos.

Sob esse ponto de vista, excelente é o método empregado pelo professor Firmino Costa.

Manifestando-se contrário à demasiada extensão da tecnologia gramatical, a fim de facilitar o trabalho do aluno e impedir que os termos ocupem o lugar dos factos, evita o autor várias denominações consagradas, prescindindo, igualmente, da sinonímia gramatical, que, segundo pensa, dificulta o ensino.

É louvável, sem dúvida, essa simplificação. A complicação tecnológica, tão do agrado de certos gramáticos, entre os quais alguns de valor como Júlio Ribeiro, concorre, sobremodo, para tornar pouco atraente o estudo dessa disciplina.

Fiel a essa orientação, uniformiza o autor os nomes das palavras e os das funções por elas exercidas, distinguindo assim as famílias pelos seus cognomes.

O adjunto atributivo passa a denominar-se adjunto adjetivo; o objeto recebe a nova denominação de adjunto substantivo etc. O pronome deixa de constituir uma categoria gramatical, para enquadrar-se na do substantivo, como substantivo pronominal.

Firmado no critério de que o sentido, e não a forma vocabular, preside à organização de seu compêndio, adota o professor Firmino Costa uma inovação, passível de controvérsia: — o adjunto substantivo direto ou objeto direto regido, não só da preposição a, mas também de outras. "Nos exemplos 'ele gosta de Julieta' e 'ele ama Julieta'", pergunta o autor, "por que a mesma Julieta, recebendo o mesmo amor, há de ser objeto indireto ou objeto direto?"

Contrastando com os seus propósitos de simplificação da tecnologia gramatical, o autor se compraz, às vezes, em multiplicar, sem grande proveito, as classificações, como acontece com o substantivo comum, que ele divide em cinco grupos, entre os quais os superlativos, pejorativos e correlativos.

Afiguram-se-nos francamente bizantinas essas subclassificações.

Tratando do adjetivo qualificativo, apresenta o professor Firmino Costa listas bastante completas de designativos de cores e sinais de bois e de cavalos, que, embora assunto estranho a um compêndio de gramática, não deixam de constituir curiosa coletânea informativa.

Outra inovação de sua gramática, que nos parece pouco lógica, é a de considerar a contração uma categoria vocabular distinta, "por não se enquadrar, pelo seu sentido, em nenhuma das outras." A razão não parece procedente porque, sendo, por definição, a contração o resultado da fusão, numa palavra, de dois ou mais termos, se enquadra sempre, pela sua natureza, em duas categorias gramaticais. Não tem, portanto, o caráter de irredutibilidade, necessário para constituir uma categoria à parte.

"Se deixássemos de inserir as contrações entre as categorias de palavras, escreve o autor, não poderíamos classificar o vocábulo daquele, dando-lhe denominação própria". Como não? A denominação própria de daquele será contração da preposição de com o adjetivo aquele.

Classificando as cláusulas, dá o autor numerosos exemplos, o que facilitará ao estudante compreendê-las sem grande dificuldade.

Entre os exemplos de cláusulas substantivas, figura uma cláusula evidentemente adjetiva, incluída, por um lapso com certeza, entre aquelas. É a seguinte: "Morreu o Sebastião, que era professor de latim". Essa cláusula é um adjunto adjetivo do substantivo Sebastião. Não pode ser, portanto, cláusula substantiva.

Entre as cláusulas adjetivas, há uma que é irretorquivelmente substantiva: "Não tenho com que me alimente", cuja função objetiva é manifesta.

Tratando dos adjuntos, exemplifica abundantemente o professor Firmino Costa. Essa preocupação constitui, como vimos, um dos méritos de seu trabalho.

Entre os exemplos de adjuntos predicativos figuram, porém, alguns duvidosos.

"O menino vai alegre como um passarinho", equivale a "O menino vai alegremente como um passarinho". Alegre é adjunto adverbial e não predicativo, pois acrescenta uma circunstância ao verbo, que modifica.

Em "o doente não pode dormir", dormir não é adjunto predicativo, porquanto pode dormir é um verbo perifrástico.

Não são convincentes as explicações, dadas às páginas 266, 267 pelo autor, para justificar a inclusão, entre os adjuntos predicativos, de adjuntos, que, pela sua função, deveriam figurar entre os adverbiais.

Tratando de particípios duplos, escreve o professor Firmino Costa que "se vão tornando obsoletos os particípios regulares abrido, cobrido, descalçado e escrevido."

Quanto a abrido, cobrido e escrevido são já obsoletos, substituídos de vez, e não simplesmente preferidos, pelos irregulares. Descalçado não se vai tornando obsoleto, sendo de uso corrente o seu emprego em frases como "não tinha ainda descalçado as botas" etc.

Os capítulos sobre Concordâncias e Colocação dos pronomes são todos muito interessantes e documentados com profusos exemplos.

Sobre a possibilidade do se sujeito, escreve o autor algumas linhas convincentes.

O longo capítulo "Particularidades sintáticas" é um dos mais interessantes, principalmente a parte referente ao emprego do infinito pessoal, onde o autor teve a felicidade de reunir os melhores exemplos dos clássicos, que conhecemos sobre a matéria.

Escreve, com razão, o professor Firmino Costa, que esses exemplos "espargem certa luz sobre o emprego das duas formas do infinito, a pessoal e a impessoal". "São construções curiosas, que pelo seu contraste põem de manifesto a adaptabilidade das duas formas infinitas a fins idênticos."

O valor desses exemplos é encerrarem, no mesmo período, as duas formas do infinito, a par uma da outra, sob a mesma regência, dentro de igual concordância, no meio de colocações diversas.

Desses exemplos, deduz o autor a regra geral (adotada também por outros gramáticos) de que deve ser empregado o infinito pessoal quando este for exigido pela clareza ou pela euphonia e algumas regras especiais, à luz daquela.

Pela admirável seleção dos exemplos é essa a parte mais original da "Gramática" do professor Firmino Costa.

Longe iríamos, se fôssemos apontar outros capítulos do livro, dignos de encômio.

A "Gramática Portuguesa" do professor Firmino Costa é, como se vê, um trabalho de valor, do qual tivemos a ousadia de discordar em alguns pontos, prova do interesse e atenção com que lhe percorremos as páginas e da sinceridade com que traçamos estas linhas, portadoras também dos nossos agradecimentos pela gentileza da oferta de um exemplar com que nos distinguiu o autor.


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