Uma pequena história para leitores pequenos: Casa tem história?
Como vocês já devem saber, me chamo Ronaldo Campos e trago o magistério no sangue desde o início dos anos noventa. Hoje, ao olhar pelo retrovisor da vida — e mesmo com quase duas décadas de caminhada no Ensino Superior —, sei que o meu canto preferido sempre foi o Ensino Fundamental.
Que orgulho guardo dos quase dez anos em que fui professor da quinta série! Revendo fotografias daquela época, em que eu transitava entre o papel de mestre e o carinho de "tio", fui invadido pela saudade. Lembrei-me de quando gestamos o projeto “Casa tem memória”. Para disparar o gatilho da curiosidade da turma — ou “detonar” o projeto, no nosso vocabulário da época —, escrevi um texto que hoje percebo ter alma de conto infantil. É essa memória afetiva que quero resgatar e compartilhar aqui com vocês.
Casa tem história?
Olá! Meu nome é Maria. Vou contar uma história que é muito valiosa para mim. É do tempo em que era bem pequena. Naquela época, tinha só sete anos e tudo que vou contar aconteceu comigo do jeitinho que escrevi. Vocês podem pensar que era muito pequena e inventei tudo isso, mas vão logo, logo, descobrir que sempre fui muito esperta e inteligente.
Hoje, tenho onze anos e estou na quinta série. Moro numa casa muito bonita que fica num condomínio, numa região chamada Vale do Sereno, em Nova Lima, Minas Gerais. A minha casa é grandona e confortável. Meu pai diz que é muito moderna e funcional. Eu nem sei direito o que é isso, viu?
As casas lá foram construídas seguindo algumas regrinhas do condomínio. Cada proprietário foi avisado que devia seguir umas normas. É por isso, talvez, que lá todas as casas são bem parecidas, mesmo tendo suas diferenças.
Na época em que tinha só sete anos, todos os meses, os meus pais me levavam até a casa da minha bisavó. A casa dela ficava num lugar conhecido como Renascença. É um bairro tradicional de Belo Horizonte, surgido em torno de uma famosa fábrica de tecidos. É um lugar com ares de cidade do interior, mesmo estando tão próximo da região central da capital mineira. Minha mãe sempre falava que estávamos indo para a região Nordeste da cidade. Só mais tarde, nas aulas de geografia, que descobri o que era essa tal região nordeste. O que sei é que no bairro da minha bisa era cheio de ruas tortas e quase não havia prédios grandes. Dominavam casas.
A rua onde ficava a casa da minha bisa parecia uma montanha-russa, de tanto sobe e desce. O bairro inteiro era assim, com ruas que subiam e desciam. A calçada estava sempre muito limpa. Era comum as pessoas acordarem cedo e elas mesmas varrerem as folhas secas, uns papeizinhos e algum lixo que um desavisado resolveu jogar ali mesmo.
Nesse lugar, cada casa tem uma forma, um tamanho e um jeito diferente. Umas são coloridas, com muitos detalhes nas fachadas. Estreitas ou largas. Novas ou velhas. Outras, tão simples que mais pareciam com os sólidos geométricos do livro de matemática. E há outras ainda que misturam curvas e linhas. Algumas com jardim na frente da casa; outras com varandas e alpendres. Todas com quintais no fundo.
A minha bisa falava que a casa da dona Iraci, a vizinha da frente, “não tem eira nem beira” – que coisa engraçada de se falar! E que o seu Joaquim fez uma casa que parece um palácio, por dentro e por fora.
Certa vez, minha mãe disse:
— Eu gosto muito daqui! Tive uma infância maravilhosa! A Renascença é um lugar que tem história!
Desde então, eu não parei de pensar naquilo que mamãe falou. Como um lugar pode ter história? Uma casa tem memórias, tem lembranças? Por acaso, uma casa tem vida, tem alma? Como deve ser a vida de uma casa?
A Casa com Alma
Minha bisa também se chama Maria, mas ela é Maria do Carmo e eu sou Maria Júlia. A casa dela é muito especial! Lá, não havia grandes muros ou equipamentos modernos de segurança. Não tinha nem porteiros, como nos prédios em que meus tios moravam. O que separava uma casa da outra era um muro bem baixinho. Era tão baixo que eu podia ver do outro lado!
Naquela casa, viviam a minha bisa e uma tia-avó que se chama Doralice. A casa em que viveram toda a vida era bem simples, mas ao mesmo tempo muito especial. Toda pintada de azul, com detalhes em branco, com suas belas floreiras e as jardineiras bem pertinho da fachada.
Nas floreiras, sempre muito bem cuidadas, eram cultivadas umas flores chamadas Bela Emília, também conhecidas como Jasmim-azul. Elas são muito pequenas, com cinco pétalas delicadas e arredondadas, que se agrupam em pequenos buquês nas pontas dos ramos. A cor mais comum é um azul-claro vibrante. Além da beleza, as flores da Bela Emília atraíam muitas borboletas e abelhas. A floração ocorria por quase todo o ano, mas era mais intensa da primavera ao final do outono. O que deixava a casa ainda mais bonita!
Nas jardineiras, o grande destaque era o Manacá-de-Cheiro. Principalmente entre setembro e outubro, ocorria a sua floração. Nessa época, ficava tudo uma lindeza só! Isso porque as flores dele mudam de cor, do roxo ao azul até chegarem ao branco. As flores eram um verdadeiro tesouro e muito perfumadas.
O Grande Segredo das Casas
No dia da visita, a minha animação transbordava! Era tanta ansiedade que a viagem do condomínio até o bairro Renascença parecia não ter fim.
Ao chegarmos, saltava rapidamente do carro. Atravessava o portão e o jardim como um foguete. E pulava nos braços da minha bisa e dei um abraço tão forte nela que parecia que eu podia segurar o tempo.
Passado algum tempo, com todos já acomodados na sala conversando, fui para o jardim. Queria observar bem a casa. Prestar atenção em cada detalhe. Eu ia descobrir o segredo daquela casa!
Depois de muito observar, não consegui chegar a uma conclusão. Não entendia por que aquela casa (e as outras também) tinham tanta história. Foi então que resolvi pular o pequeno muro que dividia a casa da minha bisa e perguntar para a dona Amélia por que a casa dela tinha tanta vida.
Dona Amélia estava sentada na varanda, ocupada com um cachecol de tricô que fazia para a sua neta que estava na Inglaterra. De uma vez só, fiz a pergunta. Calmamente, ela me disse que as casas daquela vizinhança já viveram muito. Presenciaram as transformações. Viram cada morador chegar e fazer daquele lugar um lar onde os filhos cresceram.
Ainda não satisfeita com a resposta, fui, sem que os adultos vissem, até a casa do seu Joaquim — aquela que minha bisa dizia ser um palácio. Ele estava cuidando do seu jardim quando perguntei por que a sua casa era tão especial. Ele me disse que era porque o amor fez parte de cada pedacinho dela: formou cada cantinho e aqueceu a vida de todos aqueles que lá viveram.
Ouvindo a nossa conversa, aproximaram-se as irmãs Ana e Anita. Elas viviam na casa ao lado da do seu Joaquim. Ana se casou e teve uma vida feliz; seu marido faleceu há alguns anos, mas ela seguiu cercada pelo carinho dos filhos. Anita não se casou: viajou pelo mundo como jornalista. Hoje, moram juntas e se apoiam mutuamente. Naquele dia, estavam acompanhadas de Dona Josefina e de sua irmã mais nova, Rosa Maria.
Elas entraram na nossa conversa e disseram que a casa guarda os sentimentos de quem viveu nela — por isso a gente sente aquele aconchego quando entra. Dona Josefina completou dizendo que uma casa reflete a alma das pessoas que vivem nela. Cada casa tem o seu espírito protetor, que afasta tudo de mau ou negativo da vida dos moradores. Esse espírito vive praticamente para sempre: só desaparece quando os moradores se vão e a casa é demolida.
Rosa Maria, por sua vez, afirmou que a casa era como uma árvore frondosa — uma mangueira, um jatobá ou uma paineira. Do mesmo modo que uma árvore fincada no solo, a casa também cria raízes profundas, não na terra, mas nas vidas daqueles que a habitam. Seus alicerces são como o tronco forte que sustenta os galhos, onde cada cômodo se abre como uma folha em busca da luz, testemunhando o crescimento, as mudanças e as estações da vida. E assim como os anéis do tronco contam a idade da árvore, as marcas nas paredes, os arranhões no chão e os risos que ecoam pelos corredores revelam as histórias e os amores que ali floresceram ao longo do tempo.
A Grande Descoberta da Maria
Diante de tantas ideias, tão diferentes e ao mesmo tempo tão complementares, fiquei confusa. Amor? Família? Memórias? Sentimentos! Isso era tudo tão... de gente grande! Mas eu era esperta, não era? E se o segredo não estivesse nas casas, mas nas pessoas que viviam nelas?
Voltei para o jardim da bisa, pensativa. Sentei-me perto das Belas Emílias, que balançavam levemente com a brisa, como se estivessem cochichando segredos. De repente, um barulho! Era a bisa, na cozinha, cantarolando uma música antiga enquanto preparava o lanche. O cheirinho de bolo assado invadiu o ar, e eu sorri.
Então vi a tia-avó, sentada na sala, olhando um álbum de fotografias. As fotos estavam um pouco amareladas, mas ela sorria para cada uma delas, lembrando histórias de quando eram crianças, de festas e de Natais naquela mesma sala.
Olhei para o pequeno muro novamente. Podia ver a dona Amélia terminando o cachecol, imaginando o sorriso da neta do outro lado do mundo. E o seu Joaquim, lá no jardim, podando as roseiras com tanto carinho, como se cada flor fosse um pedacinho de sua própria história. Da casa das irmãs, ouvia-se uma melodia bonita tocada no piano por uma delas, enquanto as outras acompanhavam cantarolando.
Foi aí que entendi! As casas do Vale do Sereno, no condomínio, eram bonitas, modernas e funcionais, como dizia o pai. Mas eram... ainda um pouco incompletas; ou melhor, estavam em formação. Eram como sementes que estavam germinando. Algumas já tinham folhas e suas raízes começavam a ficar mais firmes. Outras já davam flores e frutos. Havia vazios, covas que ainda não foram semeadas. Esses vazios não eram de coisas ou móveis, claro, mas de gente que as tornasse cheias de vida. Algumas ainda estavam esperando que suas histórias começassem. Outras (como a minha própria casa) ainda estavam começando a tecer histórias.
Já as casas da Renascença... ah, essas sim! Elas não eram especiais só por serem coloridas, com varandas ou quintais. Não! Eram especiais porque estavam repletas de risadas, de conversas fiadas, de abraços apertados, de brigas de irmão e de cheiro de bolo no forno. Guardavam os segredos contados baixinho, as lágrimas choradas no ombro amigo e os sonhos sonhados em noites de chuva.
As casas eram como grandes potes de memórias, cheios até a tampa com os sentimentos de cada pessoa que morou ali. A Bela Emília e o Manacá-de-Cheiro não eram só flores; eram as testemunhas perfumadas de tudo isso! As calçadas limpas não eram só por causa da vassoura, mas porque cada um que varria estava cuidando do pedaço de chão onde a sua vida acontecia.
Levantei-me com os olhos brilhando. Corri de volta para a sala, onde a bisa e a mãe conversavam.
— Mamãe! Bisa! Eu descobri! — exclamei, com a voz cheia de alegria. — As casas não têm vida sozinhas! Quem dá vida para elas somos nós! É o amor, as lembranças, as risadas, as histórias que a gente vive dentro delas!
Minha mãe sorriu, orgulhosa. A bisa piscou um olho, como se dissesse: "Eu sabia que você ia descobrir, minha esperta!"
E eu percebi que, para uma casa ser especial, ela não precisava ser um palácio, nem ter a última moda em tecnologia. Ela só precisava ter coração. E o coração de uma casa, eu havia descoberto, era feito do coração das pessoas que a chamavam de lar. E isso, ah, isso era o segredo mais lindo de todos!
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