terça-feira, 18 de agosto de 2026

Práticas Exitosas (e Outras Aventuras Docentes) - parte 1




 


A República do café com pão de queijo


Professor de História em escola pública é, antes de tudo, um profissional muito criativo e com muita fé. Quando Edva, a minha colega de área, me procurou no corredor para anunciar que faria uma atividade "diferente" sobre a Política do Café com Leite, meu lado cético acendeu uma luz amarela no painel.

O cenário escolhido para a empreitada foi a nossa majestosa biblioteca do Instituto de Educação. Digo majestosa porque, ao menos até esta atual reforma, o espaço era gigantesco. Tinha sala de reuniões com cara de auditório e uma área de consulta recheada de mesas e cadeiras daquelas de madeira tão pesada que parecem ter sido esculpidas no próprio século XIX. Vale dizer que o prédio passará por uma grande reviravolta: a biblioteca vai mudar de lugar e voltar para a ala direita, recuperando o layout de antes do incêndio de 1953 (se continuará do mesmo tamanho, só a engenharia e o tempo dirão).

Mas voltemos ao café. A ideia da professora era audaciosa: transformar a sala de consulta em uma autêntica cafeteria da Primeira República. A escola entraria com o café, a professora custearia o leite do próprio bolso, e os alunos trariam as quitandas. Para cada mesa, um tema da República Velha: Revolta da Chibata, Voto de Cabresto, Revolta da Vacina... A proposta? Os estudantes deveriam debater os tópicos incorporando personagens da época, como se estivessem num café elegante dos anos 1920.

Confesso que tremi nas bases. Na minha cabeça de historiador ortodoxo vacinado pelas agruras do cotidiano escolar, vi o fantasma do caos se aproximando. “Será que eles vão discutir História ou vão só liquidar o estoque de carboidratos?”, pensei. A desconfiança aumentou quando um aluno me perguntou, com a maior naturalidade do mundo, se poderia levar uma sanduicheira para a biblioteca. Imaginei a cena: fumaça, disjuntor caindo e o cheiro de queijo tostado rivalizando com o cheiro de livro antigo.

Como eu também participaria do projeto, apliquei logo a primeira medida protecionista do nosso "Governo": baixei um decreto proibindo eletrodomésticos e restringindo o cardápio às quitandas tradicionais mineiras, dignas da época.

E no dia D... o milagre pedagógico aconteceu.

Caminhar entre as mesas de madeira pesada foi uma experiência surreal e deliciosa. Em um canto, vi garotos de quinze anos engravatados pelo tom de voz, discutindo com a gravidade de velhos coronéis a queda no preço do saca de café frente à Crise de 1929. Na mesa ao lado, meninos e meninas encenavam um horror genuíno ao debaterem os bota-abaixas da Reforma Pereira Passos. O engajamento era tanto que só faltavam os figurinos de época — embora a postura já fosse digna de um folhetim de Lima Barreto.

No fim do horário, a surpresa derradeira: a sala estava impecavelmente limpa e organizada. Nenhuma migalha de broa para contar história, nenhum derramamento de leite, nenhum resquício de caos.

Aquele "Café da República" me provou algo precioso. Quando a gente sai do feijão-com-arroz da aula expositiva e propõe algo novo — uma sala de aula invertida misturada com teatro e um tiquinho de gastronomia —, os alunos não só abraçam a ideia, como tomam conta da cena. A História deixa de ser um punhado de datas mofadas e ganha vida, cheiro e sabor.

Se essa foi a primeira "prática exitosa" registrada aqui na coluna, que venham as próximas. Só espero que, na nova ala direita da biblioteca, o espaço continue amplo o suficiente para comportar tanto os nossos projetos quanto a imaginação dos nossos alunos.

Um comentário:

  1. Ao meu querido amigo e historiador, professor Ronaldo Campo. Parabéns pela criação do blog! A leitura do seu texto sobre a nossa experiência na aula de "café com leite" na Primeira República me trouxe uma memória salutar. Foi uma linda releitura daquela vivência, embalada pela reconstrução narrativa da biblioteca do IEMG. Fiquei muito feliz com a publicação. Obrigada pelo texto e saiba que serei sempre grata pelos anos que trabalhamos juntos. Você e o Wladmir Coelho serão sempre as minhas grandes inspirações.

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