domingo, 12 de outubro de 2025

Professor Albanito Vaz Júnior: o Homem que Fez o Português Virar Valsa (texto de Ronaldo Campos)

 



Se você se sentar para tomar um café com qualquer ex-aluna do Instituto de Educação de Minas Gerais — daquelas turmas até o início dos anos 2000, tempo em que o IEMG formava verdadeiras legiões de gente que pensa —, pode cronometrar no relógio: em menos de cinco minutos o nome dele vai saltar na conversa. E não vem a troco de nada, só para cumprir tabela. Vem para escancarar o álbum de saudades.

O nome, você sabe, é Albanito Vaz Júnior.

Albanito não era bem um professor de Português e Literatura. Era um showman do idioma, um maestro da palavra falada e escrita. Onde mais, senão nas aulas dele, a rigidez da gramática e o voo livre da literatura se encontravam sob a luz dos refletores, ao som de valsas marcadas no compasso?

Ah, os tais florilégios... Aquelas apresentações meticulosamente ensaiadas no auditório do Instituto, em que a poesia virava teatro e a plateia, em suspenso, esquecia que estava ali para aprender e entregava-se ao luxo de simplesmente se emocionar. Com esse seu estilo inconfundível — uma mistura fina de erudição, rigor de carrasco (no melhor dos sentidos, o de quem exige o máximo) e uma irreprimível veia de pândego —, inspirou gerações de normalistas. No Colégio Batista Mineiro, repetia a mágica, acendendo em meninos e meninas a faísca da curiosidade pelos livros.

Bacharel em Letras Clássicas pela UFMG na turma de 1957, Albanito tinha porte e estofo para uma carreira acadêmica sisuda, de gabinetes e citações em latim. Preferiu o chão da sala de aula, essa oficina diária do conhecimento. Aos setenta anos, a lei o obrigou a se aposentar da rede estadual, mas mandar Albanito para casa era como tentar proibir o sol de dar o ar da graça: uma impossibilidade da natureza. Seguiu lecionando em colégios particulares, porque a chama não podia apagar.

Era um clássico, no sentido mais nobre do termo. Dono de uma cultura vasta e de uma oratória capaz de estancar o trânsito nos corredores, mantinha a disciplina impecável sem perder o bom humor. Alcançava o perfeito paradoxo mineiro: o rigor intelectual da Sorbonne embalado pelo calor de um abraço. E não viveu numa torre de marfim; entrou na luta por uma educação pública digna, engajou-se no Sinpro, escreveu artigos e defendeu a ideia de um país mais justo até o seu último suspiro.

Mas o que faz dele uma lenda não é só o saber; é a paixão contagiante pelo ato de ensinar, que transbordava da matéria para a vida. Formava a inteligência sem se esquecer da ética e do caráter. Era a alegria em pessoa, sempre de braços abertos — um feito notável para quem ostentava a fama de "carrasco" das letras.

O depoimento de Selma Medeiros, sua aluna no Curso Normal lá nos idos de 1969 a 1971, é a prova cabal dessa imortalidade. Aos 65 anos, ela se deu conta de que aquele professor que a obrigava a ler, escrever, montar, dirigir, contracenar e iluminações acender (tudo isso em aula de Português, veja só!) era mais que um mestre: era um afeto guardado no peito por uma vida inteira.

Albanito Vaz Júnior não nos deixou naquele 27 de abril de 2018. Apenas encerrou a peça e agradeceu os aplausos. Como bem disse a Selma, enquanto houver por aí alguém capaz de praticar um tiquinho do que ele ensinou, Albanito continuará vivo. Ele mora na ponta do lápis, na página amarelada do livro e, com toda a certeza, na saudade que faz o auditório do Instituto de Educação ficar, mais uma vez, completamente lotado.

Um comentário:

  1. O inesquecivel ! Viverá para sempre em nossos corações. Gratidão.Ex-aluna no Col.Batista, turma 62/65.

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