Belo Horizonte, 29 de julho.
Andando pelo centro de Belo Horizonte. Estou sempre imerso em problemas e preocupações, quase sempre olhando para o chão. De repente, vi uma velha revista aberta no asfalto. Era uma revista Manchete dos anos 1990. E a folha que teimava em permanecer aberta mostrava um belo pôr do sol da Serra do Curral.
Parei, agachei-me para olhar melhor. E, imediatamente, pensei como as tardezinhas de agora já não parecem tão ensolaradas como antes. São sempre cinzentas, discretas, feito funcionário público em fim de expediente, trazendo um frio que não chega a congelar o corpo, mas que resfria os pensamentos.
O guarda de trânsito da Avenida Afonso Pena me observa. Um homem de terno e gravata, quase sentado no chão, lendo uma revista velha e rasgada, abandonada na rua. Alguns transeuntes desviam de mim; outros, mais apressados, quase me jogam no chão. Uma senhora bem-vestida me pergunta se não tenho mais o que fazer.
Então, de repente, me levanto e resolvo me virar para a Avenida Afonso Pena, já quase toda tomada por carros. Olho para o alto em busca das Alterosas. E, de repente, o que antes era cinza se transforma em uma sinfonia de cores onde predominam os tons alaranjados. A minha pressa me fazia ver apenas o tom monocromático do asfalto, do meio-fio e das calçadas. Essa pressa mecânica fazia meus olhos se despedirem do sol com a urgência de quem sabe que cumpriu o dever.
Agora, parado, olhando o sobe e desce dos carros, motos e ônibus, consegui finalmente redescobrir que a tarde se vai como uma robusta estação condecorada pelas medalhas de ouro de seus próprios raios antigos. E no último instante, caminho para dentro do Parque Municipal e antes que o escuro engula a província, o horizonte todo que posso ver entre os prédios da capital mineira brilha ainda mais. Um brilho inútil, talvez, mas de uma beleza que dói por ser tão rápida. A vida, afinal, é essa andorinha que passa enquanto a gente tenta segurar o sol com as mãos.
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