
A Retreta dos Postais na Rua Pernambuco
Ando devagar pelas calçadas do centro e, de repente, me pego pensando na fragilidade do papel. Houve um tempo em que o mundo cabia num retângulo de cartão. Era preciso pouca coisa: um selo colado no canto, três linhas de letra esmerada e o retrato de uma grande avenida para dizer ao amigo distante que a vida, afinal, ia bem.
Hoje, essa juventude moderna vive presa às telas reluzentes dos telefones, numa vertigem de fotografias efêmeras que duram apenas vinte e quatro horas antes de sumirem no abismo da memória. Parecia-me que o cartão-postal havia se tornado um fóssil, uma relíquia esquecida nas gavetas de algum alfarrábista da Avenida Afonso Pena. Mas o professor de História do velho Instituto de Educação de Minas Gerais resolveu fazer uma travessia poética: usou justamente esse pequeno pedaço de papel para ensinar aos meninos e meninas o peso das imagens e da memória.
A história começou em dias difíceis, de portas fechadas e isolamento, quando o abraço era proibido e a escola existia apenas através de telas distantes. Os alunos, novatos no prédio centenário da Rua Pernambuco, mal conheciam os corredores da própria escola, que no início do século passado abrigara o Tribunal de Relação e a Escola Normal Modelo. Para muitos, a cidade era um mistério restrito às margens do próprio bairro.
Foi então que o mestre lhes apresentou um postal de 1909. Na imagem em sépia, uma Belo Horizonte límpida, de prédios imponentes e praças desenhadas a régua, onde circulavam apenas carruagens elegantes e cartolas. O espanto foi imediato. Onde estavam os carros? Onde estavam os trabalhadores da roça, os vendedores de rua, as casas simples da periferia?
Um garoto da turma 101, com a sabedoria límpida que só a infância guardada nos olhos conserva, matou a charada: “Professor, o cartão-postal é como uma selfie de antigamente, mas que só mostra o que o fotógrafo queria que os outros vissem”. Uma menina completou dizendo que era o Instagram de um tempo sem eletricidade.
A partir daquele instante, os estudantes deixaram de ser meros espectadores do tempo e viraram detetives da memória urbana. Descobriram que a fotografia nunca é neutra; ela escolhe o que quer iluminar e, com o mesmo gesto, lança na sombra o que prefere esconder. Aquela Belo Horizonte reluzente dos postais era uma promessa de modernidade que preferia omitir a dor e o trabalho duro de quem a ergueu com as próprias mãos.
O projeto seguiu seu curso. Em plena quarentena, os meninos foram convidados a olhar ao redor e registrar com a câmera os cantos dos seus próprios bairros — ou a garimpar na rede as imagens que falassem do seu cotidiano. Mais tarde, com o sopro do retorno às aulas presenciais, a magia do papel se fez presente. Aquelas fotos digitais ganharam corpo, foram impressas em formato de postal e circularam de mão em mão pela escola. Num varal estendido pelo corredor, as geografias afetivas da cidade se cruzaram: o olhar do jovem morador da periferia conversava com a arquitetura imponente do centro.
Anos depois, já com a poeira da pandemia assentada, o exercício se repetiu. Os estudantes, recém-chegados de uma caminhada pelos rios ocultos e pelas ruas da capital, puderam perceber que a cidade possui lugares “instagramáveis”, feitos para o encanto rápido dos olhos, enquanto outros cantos de profunda riqueza cultural permanecem ignorados pelo espetáculo das redes.
Olho para essa experiência e sinto um alento no peito. O cartão-postal, esse pequeno pedaço de papel recortado que parecia fadado ao esquecimento, serviu de ponte entre o passado e a pressa do presente. Mostrou a esses jovens que a história não está guardada apenas em livros pesados ou em documentos solenes com carimbo de cartório; ela mora também nos detalhes, no silêncio de uma imagem, naquilo que se mostra e naquilo que se cala.
No fim das contas, a lição que fica nos corredores do IEMG é das mais bonitas: para aprender a olhar o mundo de amanhã, às vezes é preciso parar diante de uma imagem antiga, ter a modéstia de fazer uma pergunta simples e ter a delicadeza de ouvir a resposta que o tempo dá.
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